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Para o historiador panamenho Alfredo Castillero, história é mais do que cronologia

Segundo o celebre estudioso, o processo histórico “sempre tem um antes, algo anterior que o precede"

Guillermo Castro H.
Diálogos do Sul Global
Alto Boquete

Tradução:

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“O afã de opor e contrastar rouba às vezes às ideias contrapostas à exatidão ou oportunidade. A história não é certa que se amolda a mãos caprichosas. Nem cabe, em obra séria, fantasiar sobre motivo histórico”.
José Martí[1]

Ocorreu no Panamá um fato inusual. O historiador Alfredo Castillero Calvo – de obra ao mesmo tempo abundante e valiosa – publicou um artigo dedicado à reflexão sobre a história como disciplina.[2] Há certa audácia nesta publicação. Para Castillero, de fato, a maior parte dos panamenhos “compartilha uma visão do passado dominada por lugares comuns, falsificações, ambiguidades, omissões e mitos.” E acrescenta: “subjaz uma concepção epistemológica da história profundamente tradicionalista e conservadora”, que “prefere a narrativa à análise e confunde história com meras cronologias”.

A esse respeito, Castillero afirma que os fatos históricos “não se comportam linearmente, nem são o resultado de processos que têm uma única origem e que, inexoravelmente, encontram um fim inelutável, como a coroação de uma continuidade teleológica.” E acrescenta que, embora nem sempre seja fácil “reconhecer a origem do que veio depois”, o processo histórico “sempre tem um antes, algo anterior que o precede.”

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Aqui, o mais importante é que, com frequência, “o grande motor da mudança são os sonhos, as mentalidades, os mitos e as ilusões dos povos.”  Assim,

ideológico, este discurso acabado, este pensamento organizado, explicitamente formulado, ou bem as mentalidades, esse plano inferior das ideologias, essas partículas desconexas, restos de lembranças coletivas, praias onde naufragaram os fragmentos de uma memória comum, enraizada no nível das motivações inconscientes, também age insidiosamente sobre a realidade material, transformando-a, empurrando-a, induzindo-a, apoderando-se de seu destino.

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Uma coisa, no entanto, não exclui a outra, como fica evidente nos momentos em que “irrompe uma crise que perturba a rotina diária, a sociedade se comove e se revela a nós como é, com suas glórias e mesquinharias.” Neste momento as forças em conflito, “até então ocultas ao olhar do historiador, parecem ganhar relevo e significado”. Com isso, caberia agregar, vêm à luz as determinações que se sintetizavam no estado de coisas prévio, e torna-se mais fácil compreendê-lo e buscar as vias para transformá-lo ou para conservá-lo a todo custo.

Para Castillero, compete ao historiador “ensinar a pensar historicamente.” Neste pensar, sem dúvida, a continuidade pode ser tão importante como a mudança na compreensão do processo de que se trata. A esse respeito, recorre a Fernand Braudel para recordar-nos que o tempo passado “não é nunca totalmente passado, e algumas vezes o presente está mais próximo do passado do que do futuro”, apesar de que “a realidade histórica acaba impondo-se, aconteça o que acontecer, sobre as realidades do presente, levando-nos irreversivelmente a um destino que dificilmente podemos dirigir ou controlar.”

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Tal, sem dúvida, é o caso do Panamá, cuja história moderna parece remeter uma e outra vez à condição de protetorado estrangeiro que teve como condição de origem a república de 1903, e veio a confirmar-se em dezembro de 1989, quando a atroz intervenção estrangeira pôs o país de novo nas mãos de seus setores mais conservadores. E isso, que para o político pode ser transparente, para o historiador exige antes de tudo “descobrir o que se oculta além do evidente ou do que se dá por estabelecido.”

Segundo o celebre estudioso, o processo histórico “sempre tem um antes, algo anterior que o precede"

La Estrella de Panamá
A contribuição de Castillero no que se refere ao papel dos fatores subjetivos no desenvolvimento histórico é de indiscutível valor

Méritos de Castillero

O artigo de Alfredo Castillero tem ainda um mérito que talvez ele mesmo não imagine: pôr em relevo a escassez do tipo de reflexões em sobre o processo histórico em nossa terra.[3] Nesta reflexão, de um ponto de vista próximo ao seu, cabe dizer que estudamos o passado no claro-escuro das preocupações e dos temores que nos inspira o futuro. Alguns o fazem para fomentar a resistência à mudança; outros, para explorar nossas opções de futuro, e não falta quem se some àqueles afazeres tautológicos, de sustentação puramente ideológica, como o neoliberalismo à la Fukuyama, ou o velho marxismo soviético.

Esta proximidade inclui o apreço pela obra de historiador de Fernand Braudel, enriquecida por sua fecunda relação com o sociólogo Immanuel Wallerstein, que considerou o sistema mundial como síntese maior das determinações que constituem objeto de estudo da história moderna. O estudo deste objeto levou Braudel a elaborar a diferença entre os mercados-mundo do passado e o mercado mundial cujo desenvolvimento definiu as múltiplas camadas de nosso presente.

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Foi desta perspectiva que veio a renovar-se o interesse pela obra de Marx. Duas coisas sobressaem nesta obra à luz do que sabemos hoje. Uma, que o parágrafo em que sintetiza sua visão da história, no Prólogo de sua Contribuição à Crítica da Economia Política de 1859, é o que diz ser: a síntese em 600 palavras de um estado de conhecimento que continuaria enriquecendo-se e diversificando-se na obra futura do autor.[4] Outra, a importância de suas observações sobre a estrutura múltipla das sociedades que convivem no moderno sistema mundial, a partir da categoria de formação econômico-social que utiliza em suas notas preparatórias para a elaboração do Capital, onde adverte que

Em todas as formas de sociedade existe uma determinada produção que atribui a todas as outras seu correspondente nível [e] influência, e cujas relações portanto atribuem a todas as outras o nível e a influência. É uma iluminação geral em que se banham todas as cores e [que] modifica as particularidades destas. É como um éter particular que determina o peso específico de todas as formas de existência que ali ganham relevo. [5]

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Em nosso caso, esta observação foi especialmente útil na análise do transitivismo como forma histórica de inserção do Panamá no moderno sistema mundial a partir do século XVI, que Castillero abordou – talvez sem conhecer o que disse Marx – em um artigo inspirador publicado em 1973 sobre o transitivismo, e elaborou depois no que se refere a nosso papel no desenvolvimento do mercado mundial.[6]

De outra perspectiva, nesta análise abrem-se novas possibilidades para um debate sobre o tema da globalização, ainda pendente no Panamá.[7] Foi dito que uma das funções da ideologia – no mau sentido – consiste em naturalizar as realidades históricas. Isto veio ocorrendo com a função do termo criado / adotado para referir-se ao processo em que transcorre atualmente o desenvolvimento do mercado mundial, cujo uso vulgar desemboca em uma tautologia: chegamos aonde íamos, e adiante tudo vai melhorar, apesar de tudo.

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Desde Braudel, no entanto, aquilo a que nos referimos é um processo que se inicia com aquele século XVI “longo” que corre entre 1450 e 1650. Ali forma-se o primeiro mercado mundial na história da humanidade, assumindo como primeira forma de organização a de um sistema colonial, cuja existência se prolongará até a Grande Guerra de 1914-1945. A partir dali, este sistema colonial se viu transformado em internacional – interestatal, na realidade – a partir da independência das antigas possessões coloniais.

Este sistema internacional é o que está em crise hoje, e o termo globalização designa o processo que conduz a esta crise a partir da derrocada da União Soviética, a falência política do liberalismo e o acelerado desenvolvimento econômico da região da Ásia-Pacífico. No momento, embora não saibamos onde nos levará esta crise, sabemos – ou devíamos saber –que as mentalidades próprias do sistema internacional se esgotam com crescente rapidez.

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Se excluirmos esta precisão, ocultamos de nós mesmos as opções de futuro que devemos explorar. Nesta tarefa, a contribuição de Castillero no que se refere ao papel dos fatores subjetivos no desenvolvimento histórico é de indiscutível valor. Todos estamos em dívida com o apelo que nos faz para mantê-los presentes e ativos em nosso pensar, como em nosso fazer.

Alto Boquete, Panamá, 7 de junho de 2023

Referências

[1] Cuadernos de Apuntes, No 3. Obras Completas. Editorial de Ciências Sociales, Havana, 1975. XXI, 120.

[2] “Pensar la historia: Propuestas epistemológicas” / La Prensa, 28 05 2023

[3] A esse respeito, por exemplo, Beluche, Olmedo (01 06 23) “Pensar la historia a partir de un ensayo de Alfredo Castillero C. Inédito.

[4] https://www.marxists.org/espanol/m-e/1850s/criteconpol.htm

[5] Marx, Karl (1858:14): Elementos Fundamentales para la Crítica de la Economía Política (rascunho) 1857-1858. [Grundrisse] Siglo XXI Argentina Editores. Editorial Universitaria Chile.

[6] “Transitismo y dependencia: el caso del istmo de Panamá”. 

[7] A esse respeito, por exemplo, Castillero, Alfredo (2008):   CALVO.- Los metales preciosos y la primera globalização. Panamá, Banco Nacional de Panamá, 2008.- 272 p , e  Jaén, Omar (2016): 500 años de la cuenca del Pacífico : hacia una historia global

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Guillermo Castro H. | Colunista na Diálogos do Sul no Panamá.
Tradução: Ana Corbisier


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Guillermo Castro H. Guillermo Castro Herrera  é colaborador da Diálogos do Sul Global, Castro é uma voz comprometida com as lutas decoloniais, a justiça ambiental e a reconstrução da América Latina desde uma perspectiva anticapitalista. Nascido no Panamá em 1950, é vice-presidente de Pesquisa e Formação da Fundación Ciudad del Saber, e autor de obras como El Agua entre los Mares e Naturaleza y sociedad en la historia de América Latina.

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