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"Paz, pão e terra": mulheres operárias foram decisivas na Revolução de Fevereiro, na Rússia

Há 106 anos, tecelãs e costureiras da antiga Petrogrado iniciavam o movimento de greves e protestos que serviriam de estopim para a Revolução Russa
Guilherme Ribeiro
Diálogos do Sul Global
Bauru (SP)

Tradução:

* Atualizado em 23/05/2023 às 13h36.

Em 1917, a Rússia passava por uma profunda crise em razão dos reflexos da Primeira Guerra Mundial. A população, insatisfeita com a fome, a participação do país no conflito e a liderança opressora e antidemocrática da monarquia absolutista, decidiu se organizar contra o regime. A mobilização teve como resultado a Revolução Russa, que se desenrolou ao longo daquele ano e foi marcada por dois importantes eventos: a Revolução de Fevereiro e a Revolução de Outubro.

Na Revolução de Fevereiro, o Czar Nicolau II renunciou e o poder foi tomado pelo Governo Provisório – de cunho liberal burguês e interesses não muito distantes dos vigentes até então, como a manutenção da propriedade privada e a permanência na guerra. Em outubro, o Partido Bolchevique derrubou o Governo Provisório, com os lemas “Paz, Pão e Terra” e “Todo o Poder aos Sovietes”, dando início ao governo socialista soviético e espaço a demandas de fato populares, como terra aos camponeses, eleições democráticas e disciplina voluntária ao exército.

O que se desconhece ou propositalmente se omite é a relevância das mulheres no processo de revolta, sobretudo na Revolução de Fevereiro, despertada na manhã de 23 de fevereiro de 1917 (no calendário juliano, 8 de março no gregoriano). 

Em celebração ao Dia Internacional das Mulheres, as tecelãs e costureiras do distrito de Vyborg, em Petrogrado (atual São Petersburgo), saíram às ruas em greve com o brado “Chega de guerra! Chega de fome! Pão para os trabalhadores!”, convocando outros homens e mulheres a se unirem e entrando em confronto com soldados e policiais.

A guerra havia modificado a dinâmica da sociedade russa. Uma vez que os homens lutavam no front, as mulheres passaram a integrar em maior volume a vida operária, sob carga de trabalho de 12 a 13 horas por dia, em condições precárias de higiene e tarefas de pouca qualificação – além de lidarem, sozinhas, com o sustento e o cuidado dos filhos. Seus salários chegavam a menos da metade do pago aos operários do setor metalúrgico.

Historiados apontam que, apesar de não estarem associadas a movimentos revolucionários e tampouco possuírem referencial teórico, as operárias russas se organizaram sobre concreta consciência política. Elas reconheciam que as principais causas da miséria que enfrentavam eram a guerra e o regime czarista.

Para dar consistência ao movimento, pediram a solidariedade de trabalhadores da engenharia qualificada e das metalúrgicas, na época tidos como mais conscientes e poderosos quanto à força de trabalho. 

Por reconhecerem a importância de constituir apoio armado, convenceram também soldados a se agremiarem. Havia proximidade entre as tecelãs e esses homens, ou porque se relacionavam, ou por terem migrado das mesmas regiões para trabalhar na cidade — essa marcha, do campo para a cidade, foi iniciada no fim do século 19, com o crescimento de fábricas russas de linho, seda, algodão, lã, cerâmica e papel.

Há 106 anos, tecelãs e costureiras da antiga Petrogrado iniciavam o movimento de greves e protestos que serviriam de estopim para a Revolução Russa

Charge – Latuff / Brasil de Fato

As operárias russas reconheciam que as principais causas da miséria que enfrentavam eram a guerra e o regime czarista

O Partido Bolchevique, sob ideais do marxismo revolucionário, legitimava a verdadeira emancipação das mulheres e fez com que as pautas femininas avançassem. 

Assim, após a queda do czarismo, as mulheres mantiveram mobilizações e realizações, como direito ao divórcio, ao voto, igualdade de salário, legalização do aborto, melhores condições de bem-estar e higiene no trabalho, benefícios na maternidade e fim ao assédio sexual.

Diante disso, é preciso celebrar a atuação e as contribuições teóricas à revolução feitas por mulheres como Alexandra Kollontai (ministra de Assuntos Sociais), Nadezhda Krupskaya (vice-ministra no Comissariado de Cultura e Educação), Inessa Armand (diretora de Zhenotdel, órgão criado para promover os direitos das mulheres na URSS), Natalia Sedova (responsável pelos Museus e Monumentos no comissariado de Educação), Larissa Reisner (jornalista e escritora, também dirigente do Exército Vermelho).

Responsáveis pelo estopim, em fevereiro, para a decisiva revolução de outubro, essas e outras mulheres defenderam a união dos trabalhadores pela reivindicação de pão e paz, conseguiram fazer com que suas mensagens chegassem longe na sociedade e participaram não como espectadoras passivas, mas atuantes concretas da história russa.

Com informações de NPC, Brasil de Fato e Blog da Boitempo.

Guilherme Ribeiro é colaborador da Revista Diálogos do Sul.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.

Guilherme Ribeiro Jornalista graduado pela Unesp, estudante de Banco de Dados pela Fatec e colaborador na Revista Diálogos do Sul.

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