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Poder, corrupção e a "insuportável leveza" da política na América Latina e no mundo

Jamais teremos a visão exata da razão pela qual nenhuma potência se interessa por nosso insignificante destino
Carolina Vásquez Araya
Diálogos do Sul Global
Cidade da Guatemala

Tradução:

O mundo está de pernas para o ar. Não só como produto dos eventos provocados pela mudança climática ou a absurda e irresponsável maneira de destruir o que foi posto sob o nosso cuidado. Simplesmente, pela perda de sensatez da esmagadora maioria de governantes, políticos e empresários cujo único objetivo na vida é acumular poder, riqueza e capacidade de manobra para fazer de outras nações uma cobertura para seus atos de corrupção. Quando assinalamos os títeres de nossos países em decadência, não devemos esquecer quem move os cordões. Como consequência dessa miopia, se perdem valiosas oportunidades para reforçar os valores humanos e aqueles das utópicas democracias.

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Os ares das alturas ocasionam perda do sentido da realidade, alucinações, sensação de invulnerabilidade e um desapego absoluto para a consequência das ações. Esta síndrome a conhecem bem os políticos, os multimilionários e, é claro, os montanhistas – embora estes últimos recuperem o senso comum quando baixam dos cumes – e seus efeitos têm impacto sobre decisões capazes de mudar o rumo da História. Isso sucede com tal abundância nos círculos elevados do poder que, quando alguns desses potentados agem com inteligência, parecem heróis de lenda.

Os miseráveis governantes do triângulo norte da América Central, somada a Nicarágua, são neste momento e para o resto dos latino-americanos, um exemplo penoso dessa perda de capacidade humana. Não só se apoderaram de todas as instâncias, criadas para proteger os valores democráticos e as leis; também se transformaram em déspotas com desejos de possuir o poder absoluto para garantir a impunidade por seus crimes de lesa humanidade, por seus delitos econômicos, por sua evidente incapacidade, e de passagem, para criar uma vala infranqueável contra os esforços para conter a corrupção.

Embora este seja o exemplo local de má gestão e perversas intenções, também nos demais continentes as ambições pelo poder competem pelos primeiros lugares em seus afãs por conseguir o controle geopolítico do planeta, não importando quantas vidas inocentes se aniquilem ao passo de suas tropas, seus mísseis e suas negociações indecentes para manter o controle econômico. Para isso são criadas instituições de alto nível mundial como instrumentos de coerção, cuja natureza escapa a qualquer tipo de controle, incluídos os abundantes tratados e convenções subscritos para defender os direitos humanos e da natureza.

Jamais teremos a visão exata da razão pela qual nenhuma potência se interessa por nosso insignificante destino

Presidencia de Guatemala – Flickr

Os miseráveis governantes da América Central são exemplo penoso da perda de capacidade humana (Alejandro Giammattei, Presidência Guatemala)

Talvez por este ambiente de caos, cujas incidências foram apropriadas pelas maiores entidades de imprensa do mundo, os minúsculos cidadãos – aqueles que povoamos os países menos desenvolvidos – jamais teremos a visão exata de como funcionam as políticas globais e tampouco a razão pela qual nenhuma potência se interessa por nosso insignificante destino.

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Os discursos sobre liberdade e democracia morrem de morte natural quando roçam nossas fronteiras e se convertem em palavras vazias diante das provocações dos governantes mais corruptos do orbe. O único mecanismo de proteção está, portanto, em mãos de povos famintos, condenados à ignorância e submetidos ao abuso constante de seus governos

O controle absoluto do poder é capaz de destruir toda a estrutura legal que nos protege. 

Carolina Vásquez Araya, colaboradora da Diálogos do Sul na Cidade da Guatemala.
Tradução: Beatriz Cannabrava.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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Carolina Vásquez Araya Jornalista e editora com mais de 30 anos de experiência. Tem como temas centrais de suas reflexões cultura e educação, direitos humanos, justiça, meio ambiente, mulheres e infância

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