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Sanções de Biden à Rússia têm potencial de levar Europa a crise terminal

Dona da maior extensão territorial do planeta, país está entre os maiores produtores e exportadores de trigo, petróleo, gás e minérios do mundo
Paulo Cannabrava Filho
Diálogos do Sul Global
São Paulo (SP)

Tradução:

A economia mundial está interconectada, é o que mais caracteriza a globalização, notadamente a partir do avanço da hegemonia do capital financeiro sobre o capital produtivo. Diga-se de passagem, a desindustrialização ocorrida em vários setores e lugares não afetou o complexo militar industrial, este também globalizado, e produzindo mais que nunca.

Joe Biden sabe disso, ou pelo menos deveria saber, mais que qualquer outro presidente, pois seu país é o protagonista nesse processo de imposição do pensamento único que se tornou hegemônico nos países centrais do capitalismo e que depende dessa interconectividade mundial que requer alta tecnologia.

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Soa, portanto, inusitado, para não admitir de extrema burrice, que tenha decretado, como se senhor do mundo fosse, a exclusão da Rússia do sistema Swift, o sistema que une bancos e pelo qual transpassam os pagamentos do comércio mundial, tendo o dólar como moeda de referência. 

Washington está, no curto prazo, ganhando a guerra das narrativas, fazendo Moscou aparecer como vilão do mundo, causador de todos os males da terra, malvado que está matando os ucranianos, mas, no longo prazo, perderá a guerra, não alcançará os objetivos a que se propôs junto à Otan e terá que enfrentar Rússia e uma China muito mais fortes, enquanto os países da Aliança Atlântica, que o seguiram, estarão mergulhados em profunda crise.

Pensando bem, talvez seja esse o objetivo final da estratégia ianque. É a teoria do caos levada ao extremo para não perder a Europa: liquida a economia europeia, estende ao máximo a ocupação militar no continente e o transforma em uma espécie de colônia dos EUA

Se perder a Europa, os Estados Unidos serão uma potência de segunda classe, com seu apêndice, a Inglaterra.

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A Rússia não é uma republiqueta que pode ser dobrada com um grito. Nessas últimas quatro décadas, sofrendo todo tipo de assédio, desestabilização, bloqueios e cerco militar, conseguiu se reconstruir como potência militar e exerceu uma diplomacia que lhe assegurou respeito na comunidade internacional. 

Dona da maior extensão territorial do planeta, a Rússia está entre os maiores produtores e exportadores de trigo, petróleo, gás e minérios do mundo. Em tecnologia militar está mais avançada que qualquer outra potência.

Danos econômicos

A Europa é altamente dependente do suprimento de alimentos e energia (gás e petróleo) da Rússia. O preço do gás, fundamental para sobreviver no inverno e mover os geradores de energia elétrica, já está nas alturas, tende a subir cada vez mais, desencadeando aumento geral em todos os preços. O petróleo estava a menos de 100 dólares em janeiro, em fevereiro custava 112, no início de março, 160. O trigo, oito dólares em janeiro e dez no início do março.

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A Rússia ainda não cortou o suprimento de gás e petróleo à Europa vendido a preço constante em contratos de longo prazo. Se resolver cortar, será o caos. Putin diz que não o fará. Sua guerra não é contra o povo europeu.

Inflação e carestia voltarão a assombrar os europeus. Quem tem memória ou parentes mais velhos sabe o que isso significa.

O que há de vida inteligente nos Estados Unidos manifesta sua preocupação. Para Janet Jole, secretária do Tesouro estadunidense, a insensatez de Biden afetará a economia no mundo todo.

Dona da maior extensão territorial do planeta, país está entre os maiores produtores e exportadores de trigo, petróleo, gás e minérios do mundo

Vincent van Gogh / Wikipedia
Família de proletários em extrema pobreza durante Segunda Revolução Industrial

Claro que afetará a Rússia. A diferença é que a Rússia se preparou para isso. Já vinha sofrendo bloqueios e sanções, aprendeu, para isso tem um Plano de Contingencia que além de mobilizar a população conta com reservas de 630 bilhões de dólares para paga suas contas a quem não se rebelar contra ela. A história da Rússia é uma história cheia de resistências e resiliências.

Pânico financeiro que afeta as bolsas do mundo pouco afetará a Rússia. Pode quebrar alguns milionários e algumas empresas e isso favorecerá o processo de reestatização levado a cabo pelo governo de Vladimir Putin.

A Rússia já viveu encerrada em si mesma dedicada à reconstrução e desenvolvimento com as próprias forças. Pode fazê-lo tranquilamente. Possui ingentes recursos naturais e um mercado consumidor de 160 milhões de habitantes. Contudo, diferente de outras vezes, Rússia não está só. Tem um Acordo Ilimitado de cooperação com a China, fábrica do mundo e potência militar emergente. São dois poderes que se complementam.

A imprensa do dia 28 publicou declarações de Hua Chunyin, porta-voz das Relações Exteriores: a China sempre se opõe a quaisquer sanções unilaterais ilegais. Antes, dia 26, a embaixadora da China em Moscou qualificou os Estados Unidos como sendo ameaça real ao mundo, enquanto mostrava imagens enumerando os países confrontados pelos Estados Unidos desde a 2ª Guerra Mundial.

Perspectivas para a Rússia

A Rússia fora do Swift, fortalece a tendência dos países em desenvolvimento a livrar-se da imposição do dólar como moeda de referência no comércio internacional. Vamos lembrar que isso resultou de uma imposição pela força das armas. De uma ocupação militar, econômica e cultural imposta à Europa. 

A exclusão da Rússia do sistema apressa o abandono do dólar?

Pensar que Putin não previu e se preparou para novas sanções é subestimá-lo. A Rússia já vinha transferindo fundos públicos e de muitas empresas para os bancos indianos e chineses sediados em Hong Kong. Além desses, há o banco de desenvolvimento criado pelos países do Brics, que fazem troca ou comercializam com moedas locais.

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Ou seja: já existe sistema financeiro independente. 

A China, com sua estratégia de novas rotas e infraestrutura, criou o Sistema de Pagamentos Transfronteiras da China, já com 80 bancos, que utilizam o yuan como moeda de referência. A Rússia pode perfeitamente aderir a esse sistema e apressar ainda mais o abandono do dólar. 

A União Europeia, quando criou o euro, tinha a real intenção de livrar-se da tutela do dólar, mas não conseguiu. Está refém dos Estados Unidos, ocupada militarmente, econômica e culturalmente.

Diante disso, me pergunta meu amigo argentino Júlio Abbas, a quem esses caras querem foder? 

Onde há vida inteligente estão questionando a Otan. Quem ganha com o bloqueio? Quem ganha com a crise no Swift? 

É o que pergunta Noam Chomsky. Por que motivo continua a existir a Otan?

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.

Paulo Cannabrava Filho Iniciou a carreira como repórter no jornal O Tempo, em 1957. Quatro anos depois, integrou a primeira equipe de correspondentes da Agência Prensa Latina. Hoje dirige a revista eletrônica Diálogos do Sul, inspirada no projeto Cadernos do Terceiro Mundo.

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