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Protesto uigur anti-China em frente à Casa Branca (Foto: Malcolm Brown / Flickr)

Uigures apoiam Israel: o que isso tem a ver com EUA, mídia árabe e propaganda anti-China?

Etnia muçulmana é apenas uma entre dez que vivem no gigante asiático e são marcados por tendências separatistas alimentadas pelo imperialismo
Shaher Al Shaher
Al Mayadeen Net
Cantão

Tradução:

Ana Corbisier

Já não ouvimos muito sobre a causa uigur, que costumava ser frequente na mídia árabe e internacional, e era promovida como uma carta que se poderia utilizar para manchar a reputação do governo chinês, para chantageá-lo e pressioná-lo. O curioso do assunto é que este tema era proposto com um enfoque de “generalização”, isto é, buscando dizer que a China está reprimindo os muçulmanos que vivem lá, o que não é verdade em absoluto, especialmente porque os uigures não são a única etnia muçulmana: há dez etnias muçulmanas na China.

Dez etnias muçulmanas, e só ouvimos falar sobre os uigures, o que confirma em primeiro lugar que o princípio de generalização não é correto, já que as demais etnias muçulmanas praticam seus rituais e cultos sem nenhum problema. O problema com alguns uigures é que têm uma tendência separatista, alimentada por forças externas, especialmente Turquia e Estados Unidos, e outros países hostis a Pequim.

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A tendência de muitos países árabes e islâmicos de defender os uigures deve-se ou a ignorância, ou é resultado de considerações políticas, em cumprimento de demandas e agendas externas. Por que não ouvimos nenhuma posição destes países sobre o que está fazendo a Índia, por exemplo, contra os muçulmanos em seu país? Ou será que sua posição coincide com a posição estadunidense, silenciosa em relação à Índia e seu apoio a ela? Os Estados Unidos buscam estimular a Índia como um bloco asiático que poderia ser um competidor para a China, especialmente porque existem problemas históricos e disputas fronteiriças entre a Índia e a China.

Acresce que os Estados Unidos buscaram incluir a Índia na aliança Quad, que tem como objetivo rodear a China, e estimulou os países árabes, “Israel” e Itália a aprovar o Corredor Indu, que é na realidade um projeto estadunidense destinado a competir com o projeto chinês Cinturão e Rota.

Reais objetivos

A falta de discussão sobre os uigures não se deve à redução do objetivo de atacar a China, sem dúvida. O objetivo é encobrir a posição declarada dos uigures sobre o Dilúvio de Al-Aqsa e a guerra em Gaza, já que o chamado Congresso Mundial Uigur, presidido por Dolkun Aisha, emitiu uma declaração em 9 de outubro de 2023, condenando o que fez o Hamas e declarando sua solidariedade e apoio à ocupação sionista. A declaração também expressou solidariedade a todos os que sofrem terrorismo e guerra, o que significa que negou o direito do povo palestino de resistir à ocupação, e declarou que os uigures simpatizam com os colonos sionistas.

Tal posição recebeu fortes críticas de associações legais internacionais e de organizações da sociedade civil, mas não foi destacada pelos meios de comunicação árabes. A falta de crítica ao posicionamento vacilante dos uigures quanto à causa palestina, sem dúvida, mostra o grau de politização adotado pelos meios de comunicação árabes e internacionais, que ao mesmo tempo descuidaram de destacar a posição progressista de Pequim e sua clara condenação da ocupação sionista e suas ações.

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A causa palestina já não diz respeito apenas aos árabes e muçulmanos: tornou-se uma causa legal e humanitária em primeiro lugar, como demonstrou o Dilúvio de Al-Aqsa e as condenações internacionais dos massacres israelenses contra o povo palestino na Faixa de Gaza. O apoio absoluto dos Estados Unidos a “Israel”, politicamente, militarmente e em segurança, enfrentou críticas muito duras por parte da Rússia e da China. Depois, essas críticas evoluíram até chegar a um choque político no Conselho de Segurança, que terminou com o veto russo-chinês que anulou o projeto de resolução estadunidense destinado a ajudar “Israel” e libertar os prisioneiros sionistas, sem que haja um cessar definitivo na guerra ou ajuda aos residentes de Gaza.

A resposta estadunidense a Moscou foi rápida por parte de suas ferramentas sujas, tendo o grupo terrorista Daesh (Jorasán) anunciado sua responsabilidade pelo ato terrorista covarde que teve como objetivo uma sala de concertos em Moscou.

A volta do Daesh… como braço dos serviços de inteligência estadunidenses

O regresso e a evolução do Daesh e sua expansão para adquirir um caráter internacional nos propõe muitas perguntas, a mais importante das quais é quanto falhou a coalizão internacional liderada pelos Estados Unidos na luta contra este grupo. E terá isso algo a ver com o desejo dos Estados Unidos de permanecer no Oriente Médio, especificamente no Iraque, depois que o governo iraquiano lhe pediu que se retirasse?

O que faz com que o Daesh deixe o Oriente Médio onde são assassinados (os muçulmanos palestinos), e não condene o que faz “Israel”, ou ameace levar a cabo operações contra os interesses sionistas no mundo? E por que a organização terrorista não atacou as forças estadunidenses presentes na região, que são o maior apoio para “Israel” enquanto comete massacres? Os Estados Unidos e os países ocidentais sempre disseram que o Daesh é fabricado por Irã, Rússia, o regime sírio, etc., então, por que a organização não atacou os inimigos destes países?

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Notável foi o anúncio da embaixada estadunidense em Moscou no sétimo dia deste mês, advertindo seus cidadãos sobre um possível ataque terrorista, pedindo-lhes que evitassem lugares públicos. As autoridades russas interpretaram isto como uma tentativa de assustar as pessoas para que não fossem participar das eleições presidenciais que se realizaram no período de 15 a 17 de março. A grande afluência às eleições e o êxito decisivo do presidente Putin enviaram uma mensagem clara ao Oeste: o povo russo alinhou-se decididamente atrás de sua liderança, que está chegando à vitória na guerra ucraniana. E nem falar sobre o “ataque de primavera” que se espera que leve a cabo o exército russo para impor zonas de exclusão, acompanhado pela ameaça francesa e europeia de intervir diretamente na guerra.

Estes indicadores e outros nos levam a crer que o mundo se dirige a mais escalada e aquecimento nas frentes, e talvez a mais importante e perigosa delas seja o Mar do Sul da China. No dia 5 do mês passado, a comunidade de inteligência estadunidense emitiu um informe intitulado “Avaliação de Ameaças Anuais“, que considerava a China a principal ameaça para os Estados Unidos, seguida pela Rússia, Irã, Coreia do Norte e o Movimento Hamas em Gaza. Estranho no informe é que não mencionava a organização “Daesh” como uma ameaça para os Estados Unidos, que ainda lidera uma coalizão internacional para lutar contra ela.

Parece que a identidade do Daesh hoje está mais clara, e é uma continuação de uma longa história de cumplicidade e objetivos comuns entre os Estados Unidos e os movimentos políticos islâmicos com agendas ocidentais e o pensamento islâmico britânico.

Estados Unidos e o que se chama “a luta chinesa”

A luta chinesa refere-se à tentativa dos Estados Unidos de replicar o modelo afegão (combater a Al-Qaeda para expulsar a União Soviética), mediante a criação de uma organização islâmica que lidere a luta contra a China por sua perseguição aos uigures muçulmanos. O objetivo dos Estados Unidos de voltar-se contra a China tem sido trabalhado nos últimos anos publicamente por meio do que se chamou “contenção da China“.

Tal enfoque consiste em trabalhar no interior e no exterior da China. No interior, levaram-se a cabo campanhas massivas com o objetivo de manipular a opinião pública do povo chinês e sua postura em relação a seu governo, promovendo mentiras sobre questões de liberdade, democracia, direitos humanos, perseguição de minorias (uigures), e até acusando a China de fabricar o vírus COVID-19, criticando a forma como o governo chinês o enfrentou, etc.

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No exterior, teceram-se uma série de alianças com o objetivo de cercar Beijing, impor-lhe numerosas sanções, deter seu desenvolvimento tecnológico e manchar sua reputação neste âmbito, acusando as empresas chinesas de espionar seus usuários; a última destas questões é a atual campanha contra o aplicativo TikTok, já que o governo chinês está plenamente consciente da importância de trabalhar tanto interna como externamente, fortalecendo o entorno interno como um requisito necessário para enfrentar as conspirações externas.

Depois do fracasso dos Estados Unidos, até agora, de dirigir-se contra a China a partir do exterior, devido à força deste país e à solidez política das mentes que o dirigem, que conseguiram superar todas as provocações estadunidenses em etapas anteriores, não se descarta o retorno dos EUA a dirigir-se contra a China internamente, sendo o maior perigo a ideologia jihadista, que os Estados Unidos conseguiram promover e utilizar como sua arma mais forte contra seus inimigos.

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Assim como a “luta afegã” contra a União Soviética “comunista e ateia”, liderada pela Al-Qaeda, que os Estados Unidos ordenaram a alguns países árabes financiar, hoje em dia, trabalha-se para preparar a organização terrorista Daesh para que seja um instrumento na luta, tanto contra a Rússia como contra a China, depois que esta organização começou a anunciar suas operações em nível internacional. O que aumenta a gravidade para Beijing é que alguns dos perpetradores dos ataques em Moscou poderiam pertencer ao Partido Turquestão, segundo alguns informes. O que obriga a China a tomar medidas mais enérgicas contra eles no futuro próximo.

Daesh: Do regional ao global

O Afeganistão sempre foi um terreno fértil para as organizações terroristas, já que nunca se recuperou completamente do controle estadunidense, que durou várias décadas. A retirada estadunidense do Afeganistão tinha como objetivo criar um flanco débil para dirigir-se contra a China, especialmente porque existe uma região montanhosa (Wakhan) que se estende até 70 km e conecta o Afeganistão com a região de Xinjiang, onde vivem os uigures extremistas. A China, por sua vez, tratou sempre de maneira positiva o que ocorre no Afeganistão e anteriormente recebeu com agrado a presença estadunidense ali porque criava um certo grau de estabilidade.

Quando os Estados Unidos se retiraram, em 2021, a China interveio e preencheu o vazio, estabelecendo relações diplomáticas com os talibãs e levando projetos de desenvolvimento chineses para lá, acreditando que a prosperidade e o desenvolvimento contribuem grandemente para secar as fontes do terrorismo. A organização “Daesh” (Jorasán) apareceu no leste do Afeganistão em 2014, e desde a chegada dos talibãs ao poder em agosto de 2021, a organização levou a cabo 248 ataques dentro do território afegão. Entre eles, um ataque ao aeroporto internacional de Cabul que resultou na morte de 13 soldados estadunidenses, durante a evacuação estadunidense do Afeganistão.

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Em setembro de 2022, os militantes do grupo se atribuíram a responsabilidade por um atentado a bomba dirigido à embaixada russa em Cabul, e o grupo terrorista levou a cabo dois ataques explosivos na cidade iraniana de Kerman no princípio deste ano, que resultaram na morte de cerca de 100 pessoas. A organização busca solapar a relação do governo talibã com a China e outros países que têm relações com ele, razão pela qual as embaixadas russa e paquistanesa foram atacadas sucessivamente em setembro e dezembro de 2022.

Em 11 de janeiro de 2023, um terrorista suicida do Estado Islâmico detonou seu cinturão explosivo perto do Ministério de Relações Exteriores afegão em Cabul, onde se supunha que se realizaria uma reunião com uma delegação chinesa, o que resultou na morte de mais de 50 pessoas. E, em 12 de dezembro de 2022, Beijing anunciou que 5 de seus cidadãos ficaram feridos em um ataque a um hotel em Cabul, reivindicado pela organização.

Recrutamento

As Nações Unidas, em um informe emitido em 2022, relataram que o Estado Islâmico em Jorasán está recrutando ativamente combatentes do Partido Islâmico do Turquestão, uma organização armada uigur separatista que defende o estabelecimento de um estado islâmico na região de Xinjiang, no noroeste da China. Segundo o informe, ambos grupos colaboraram na emissão de propaganda antichinesa em língua uigur, no intercâmbio de combatentes e em assessoramento militar, assim como no planejamento de ataques conjuntos e na coordenação de acordos para comprar armas.

É importante destacar que o Partido Islâmico do Turquestão foi um aliado da Al-Qaeda, e tem atividades terroristas em vários países árabes e especialmente na Síria, onde a organização continua lutando no norte do país, com um grande apoio da Turquia. Será que veremos nos próximos dias um maior apoio russo e chinês para ajudar o exército sírio a eliminar estes terroristas, especialmente porque a abertura da frente de Idlib pode atrair uma parte estadunidense desejosa de distrair o exército sírio e talvez o Hezbollah do que está acontecendo em Gaza, e assim aliviar a pressão vinda do sul do Líbano sobre “Israel”?

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Certo é que depois dos atentados de Moscou, Beijing deve preocupar-se mais, já que está no olho do furacão, especialmente porque estas ameaças também poderiam transferir-se do Afeganistão ao Paquistão, onde Beijing tem investimentos avaliados em 50 bilhões de dólares.

Parece que o próximo desafio para Beijing está em sua capacidade de alinhar seus objetivos econômicos e seus planos de desenvolvimento ao enfrentamento dos desafios crescentes a sua segurança nacional.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Shaher Al Shaher

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