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Zelensky e Otan "culpam" Rússia por míssil na Polônia, mesmo admitindo autoria da Ucrânia

Alegação de que projéteis que matou duas pessoas era de origem russa foi propagada em veículos em todo o mundo antes de qualquer investigação
Juan Pablo Duch
La Jornada
Moscou

Tradução:

O risco de enfrentamento direto entre a Rússia e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), por um míssil que caiu na terça-feira (15) no território da Polônia e causou a morte de duas pessoas, dissipou-se nesta quarta-feira. Por ora e até o próximo incidente.

Tanto a aliança norte-atlântica, em Bruxelas, como o governo polaco, em Varsóvia, disseram que “nada indica” que houve um “ataque intencional contra a Polônia” e reconheceram que “é muito provável” que uma unidade de defesa antiaérea da Ucrânia tenha lançado o míssil, identificado como um S-300 de fabricação soviética, o qual “impactou por erro” a granja polaca.

Confirmou-se assim, que a Rússia – embora na terça-feira tenha lançado cerca de 100 mísseis e um número indeterminado de drones contra infraestruturas energéticas em aproximadamente 15 cidades ucranianas – nada teve a ver com o míssil que caiu na Polônia.

O Ministério da Defesa russo desmentiu essa insinuação desde o primeiro momento em que os meios de comunicação da Polônia – e quase imediatamente as principais agências noticiosas internacionais – difundiram a notícia de que um míssil “presumidamente russo” havia matado dois cidadãos polacos e destruído sua granja.

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Ao apresentar seu habitual comunicado bélico diário, o porta-voz castrense russo, general Igor Konashenkov, afirmou nesta quarta-feira: “nossos especialistas militares identificaram de forma inequívoca os fragmentos do míssil que se encontram no povoado de Przewodow e cujas fotografias foram publicadas na Polônia. Não há dúvida de que são restos de um míssil antiaéreo do sistema S-300 da Ucrânia”.

O porta-voz acrescentou que a Rússia atacou na terça-feira “objetivos militares unicamente em território da Ucrânia e a mais de 35 quilômetros da fronteira ucraniana-polaca”.

O secretário geral da Otan, Jens Stoltenberg, coincidiu com Konashenkov ao admitir que uma análise preliminar da organização aponta que “o incidente foi provavelmente causado por um míssil da defesa aérea da Ucrânia, lançado para defender seu território contra os ataques de mísseis de cruzeiros russos”.

Ao mesmo tempo, o funcionário da Otan exonerou a Ucrânia de “culpa” ao sustentar que “toda a responsabilidade” recai na Rússia por começar “esta guerra injustificada”.

Para rebaixar a tensão que gerou o que parecia uma iminente escalada bélica, Stoltenberg agregou que “não temos indicações de que isto (o incidente do míssil) tenha sido o resultado de um ataque deliberado e tampouco temos indícios de que a Rússia esteja preparando ações militares ofensivas contra a Otan”.

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O presidente polaco, Andrzej Duda, fez o mesmo ao tranquilizar nesta quarta-feira seus compatriotas em uma entrevista à televisão, posterior à reunião do conselho de segurança que convocou em Varsóvia: “não há sinais que façam temer pela segurança nacional da Polônia”.

O governo polaco, portanto, não prevê invocar o artigo IV da Otan, explicou. Trata-se do mecanismo para celebrar consultas urgentes em caso de existirem ameaças para a integridade territorial, a soberania, ou a segurança de qualquer dos membros, e seria ativado se a Polônia concluísse que se produziu uma agressão contra ela.

Com o argumento de que a investigação ainda não está terminada, declarou aos jornalistas que “nada indica que houve um ataque intencional” contra a Polônia e, a respeito do míssil que impactou seu território, reconheceu: “Trata-se de um S-300 fabricado na União Soviética, um foguete velho e não há evidência de que tenha sido lançado pela parte russa. É muito provável que tenha sido disparado pela defesa antiaérea ucraniana”.

O tom do mandatário da Polônia contrasta com a arremetida contra a Rússia, no dia anterior, de muitos funcionários e políticos desse país, a qual o porta-voz do Kremlin, Dimitri Peskov, qualificou nesta quarta-feira como reação “histérica”.

Para Peskov, “é de se destacar a atitude mesurada e mais profissional dos Estados Unidos e seu presidente (Joe Biden)”, muito diferente da “reação absolutamente histérica da Polônia e outros países”.

E até o presidente da Ucrânia, Volodymir Zelensky, em sua cotidiana intervenção noturna nesta quarta-feira, deixou de insistir que o “míssil não era ucraniano e se lançou a partir da Rússia”, se limitando a qualificar o incidente de “cruzamento da fronteira por parte da agressão russa”.

Zelensky solicita que permitam à Ucrânia participar na investigação que se está levando a cabo, enquanto seu assessor, Mikhailo Podolyak, assim como vários líderes de países da OTAN, atribuem a responsabilidade à Rússia “por haver iniciado a guerra”.


Antes do esclarecimento, o risco de escalada no conflito 

A guerra da Ucrânia situou-se nesta terça-feira à beira de uma escalada incontrolada quando se difundiu a notícia de que dois mísseis, supostamente russos, impactaram uma granja na Polônia, membro da Otan, perto da fronteira com a Ucrânia, o que causou a morte de dois cidadãos poloneses.

O presidente da Polônia, Andrzej Duda, se pronunciou afirmando não haver prova inequívoca de quem disparou o míssil e que uma investigação havia sido posta em marcha, apesar de indicar que “muito provavelmente” era de “fabricação russa”. Seu primeiro-ministro, Mateusz Morawiec, pediu “calma e prudência” tanto à oposição como à cidadania e informou que suas forças militares havido sido postas em estado de alerta.

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A declaração do mandatário polaco chegou pouco depois que seu ministério de Relações Exteriores assegurou que um míssil, que caiu no leste do país e matou duas pessoas, era de fabricação russa, detalhando que o chanceler Zbigniew Rau convocou o embaixador russo e “exigiu explicações de imediato”.

Horas antes, havia sido descartado um ataque direto da Rússia contra um país da Otan e os primeiros comentários de seu quartel general em Bruxelas adiantavam que não havia elementos para considerar que se tratava de uma declaração de guerra e, portanto, não havia necessidade de ativar os protocolos da defesa comum da aliança norte-atlântica.

O conselho de segurança da Polônia indicou então, após uma reunião, que estava sendo levada a cabo uma investigação exaustiva para determinar o que realmente aconteceu: se os dois mísseis russos caíram por erro, se a explosão na granja se deveu a fragmentos de mísseis russos derrubados pelos ucranianos ou se é possível que possa ter caído um míssil ucraniano da defesa antiaérea.

Do outro lado das trincheiras, o Ministério da Defesa russo emitiu uma breve declaração categórica assegurando que “o exército russo não atacou hoje, terça-feira, nenhum alvo perto da fronteira ucraniana-polaca”, acrescentando que os fragmentos mostrados pelos meios de comunicação da Polônia “nada têm a ver com mísseis russos”. O governo russo também qualificou os fatos como “provocação deliberada” para “agravar a tensão”.

Alegação de que projéteis que matou duas pessoas era de origem russa foi propagada em veículos em todo o mundo antes de qualquer investigação

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O chanceler russo Serguei Lavrov acusa a Ucrânia de “não querer negociar a paz”




Zelensky

Por sua vez, o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, deu por certo que a Rússia, país que qualificou de “Estado terrorista”, cometeu “um ataque contra a segurança coletiva”, o que supõe uma “escalada significativa”.

Para Zelensky, “quanto mais tempo a Rússia se sinta impune, mais ameaças haverá para qualquer um que esteja ao alcance dos mísseis russos”, enquanto seu chanceler, Dmytro Kuleba, sublinhou que “a resposta coletiva às ações da Rússia tem que ser enérgicas e sem demora”. Kuleba afirmou ainda que urge “convocar uma cúpula da Otan com a participação da Ucrânia para elaborar as ações conjuntas a serem tomadas”.

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O chanceler russo Serguei Lavrov, que representava a Rússia no lugar do presidente Vladimir Putin, deixou a cúpula do G-20, em Bali, na mesma noite, antes de finalizar a reunião.  

Antes de entrar no avião que o levaria de volta a Moscou, Lavrov comentou à televisão russa que a declaração final da cúpula do G-20 inclui “formulações equilibradas” e, pelo que se soube, em busca de consensos, por exemplo, condenando a guerra sem culpar ninguém.

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Lavrov também acusou a Ucrânia de “não querer negociar a paz” e afirmou que a posição do presidente Zelensky, que se dirigiu nesta terça-feira por videoconferência aos participantes na cúpula, “não é séria”.

Zelensky enfatizou que deve-se fazer tudo para deter a guerra e advertiu que “não vai haver um Minsk-3 (em alusão aos acordos que nunca foram cumpridos durante os últimos oito anos) e recusamos entrar no jogo da Rússia de negociar entendimentos sabendo que não os vai cumprir porque só pretende congelar o conflito e ficar com os territórios ocupados”.

O mandatário da Ucrânia reiterou que, quando chegar o dia de negociar com a Rússia, colocará várias condições que não admitem discussão, como restabelecer a integridade territorial do país; exigir que a Rússia pague reparações pelos prejuízos causados; castigar a todos os criminosos de guerra e garantir que não se repita uma agressão.


Lavrov em Bali

A missão do chanceler Lavrov em Bali, onde em seus encontros bilaterais escutou reprovações pela invasão russa à Ucrânia, complicou-se na terça-feira pelo que se considera um dos mais intensos bombardeios desde o começo da guerra: cerca de cem mísseis lançados contra pelo menos quinze cidades ucranianas. 

Foram reportados ataques na capital, Kiev, e em Leópolis, Kharkov, Chernigov, Poltava, Zhitomir, Cherkassy, Dnipropetrovsk, Vinnytsia, Sumi, Kirovogrado, Jmelnitsky, Volinia, Kremenchuk e Krivoj Rog.

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Os observadores se perguntam se, com essa centena de mísseis e um número indeterminado de drones – que se centraram sobretudo na infraestrutura energética por toda a Ucrânia – a Rússia estaria respondendo à visita de Zelensky à cidade de Kherson, na segunda-feira (14), assim como aos recentes avanços do exército ucraniano do outro lado do rio Dnieper, na margem esquerda da região de Kherson que as tropas russas defendem, e também em Donetsk e Lugansk.

Embora a defesa antiaérea ucraniana assegure haver derrubado um elevado número de mísseis, nas redes sociais há testemunhos gráficos de fragmentos que caíram causando destroços sobre casas e outras instalações civis, ao mesmo tempo em que mais de 7 milhões de ucranianos ficaram sem eletricidade, calefação e água corrente.

Juan Pablo Duch | Correspondente do La Jornada em Moscou.
Tradução: Beatriz Cannabrava.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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Juan Pablo Duch Correspondente do La Jornada em Moscou.

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