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A política de José Martí e a afirmação de uma nova cultura em incubação

Martí é assim para o liberalismo oligárquico o que Gramsci foi para o estalinismo dogmático
Guillermo Castro H.
Diálogos do Sul
Alto Boquete

Tradução:

“O real é o que importa, não o aparente.
Na política, o real é o que não se vê.
A política é a arte de combinar,
para o bem estar crescente interior,
os fatores diversos ou opostos de um país,
e de salvar o país da inimizade aberta
ou da amizade cobiçosa dos demais povos.”

José Martí, 1891.[1]

De nós é preciso partir, para chegar a nós mesmos, pois só seremos universais quando formos autênticos. Estas frases nos vêm da década de 1960, quando o triunfo da revolução cubana reanimou em nossa América o processo de construção de sua própria identidade no sistema mundial, iniciado no fim do século XIX pela geração de intelectuais e políticos da qual José Martí foi o primeiro entre seus iguais. Hoje seu valor se renova no calor das mobilizações sociais que vêm anunciando as exéquias do neoliberalismo em nossas terras.

Estas exéquias incluem as de uma concepção e uma prática da política tão rígida em seus limites e seus procedimentos como uma cela em seu espaço e seus muros, que dificulta e corrompe os processos de mudança que todas as nossas sociedades requerem. 

Memorial da AL inaugura busto de José Martí com a presença de Beatriz e Paulo Cannabrava

Esta circunstância tem um duplo remédio. Por um lado, atender aos fatos que vão definindo o presente, quando a mobilização social arremete contra esses muros no Peru, como antes já o fez no Chile e na Colômbia. Por outro, atender às raízes de nossa cultura política contemporânea.

Essa raíz remonta à luta contra o Estado liberal oligárquico em que se transformaram nossas repúblicas depois de consolidar sua independência.

Na época, a presença na América das últimas duas colônias da Espanha – Cuba e Porto Rico –, deu lugar a uma situação em que a luta por sua independência na transição do século XIX para o XX tendia a traduzir-se, ademais, no ponto de partida para a criação de repúblicas em que a soberania nacional fosse expressão clara e direta da soberania popular. Tal foi a circunstância em que José Martí desenvolveu seu pensar e seu fazer em matéria política.

A formação política de José Martí, gestada a partir de sua oposição juvenil ao colonialismo espanhol em Cuba – que lhe custou a prisão política, primeiro, e o desterro na Espanha depois – veio encontrar suas primeiras concretizações a partir de seu exílio no México entre 1875 e 1876.

Ali, em contato e colaboração com uma jovem geração de liberais de orientação democrática, pôde por a prova e debater suas convicções, iniciando o desenvolvimento de um pensar e um fazer políticos que enriqueceria ao longo de toda sua vida.

Martí é assim para o liberalismo oligárquico o que Gramsci foi para o estalinismo dogmático

Nuestra América
Como cada pensamento traz seu molde, cada condição humana traz sua expressão própria




Grande política universal

A partir desta experiência, naquela primeira fase de sua formação, podia entender como própria a “grande política universal […]: a das novas doutrinas.”[2] E ao mesmo tempo, longe de encerrar-se no conteúdo abstrato destas doutrinas novas, examinava-as à luz de dois problemas característicos da política em nossa América.

Por um lado, lhe parecia evidente que um progresso “não é verdade senão quando invade as massas, penetra nelas e parte delas”, razão pela qual os apóstolos das novas ideias “tornam-se escravos delas.”[3]

Para José Martí, a verdadeira revolução é conquistada pelo povo e para o povo

Por outro, o exercício deste apostolado levava Martí a concordar com seu amigo mexicano Manuel Mercado em que “o poder nas Repúblicas só deve estar nas mãos dos homens civis. Os sabres cortam – Os fracs apenas podem fazer látigos de seus curtos faldones. – Assim será.”[4]]


Política cubana

Na década de 1880, a visão do político em Martí se vê enriquecida na medida em que se envolve inteiro nos complexos problemas da política cubana, e a partir desta preocupação fundamental se aproxima dos da latino-americana e da norte-americana. Assim, em 1883, atendendo ao que o papa Francisco qualificaria 130 anos depois como a superioridade da realidade sobre a ideia,[5] afirma que a solução para os problemas da sociedade “vem de seu”, e agrega:

Seja qual for, é bom discuti-la: predizê-la, é vão. A que deva ser, será. Dar-lhe forma prévia, seria deformá-la. Como cada pensamento traz seu molde, cada condição humana traz sua expressão própria. O que importa não é acelerar a solução que vem: o que importa é não atrasá-la.[6]

A partir daí, e a partir da convicção de que não havia em nossa América batalha “entre a civilização e a barbárie, e sim entre a falsa erudição e a natureza”[7], e de que não poderia haver em Cuba outro caminho para a independência senão a luta de todo o povo contra o colonialismo e pela soberania, diria que a política “é a verdade”, entendendo por isso “o conhecimento do país, a previsão dos conflitos lamentáveis ou acomodações ineludíveis entre seus fatores diversos ou opostos, e o dever de aproximar as forças necessárias quando a impossibilidade patente de acomodação provoque e justifique o conflito.”[8]


Pensamento histórico e sistêmico

O pensar que produziu este pensamento era ao mesmo tempo histórico e sistêmico; sempre bem informado, com especial domínio do político em sua relação com o econômico e com o cultural, e realista, mas não pragmático. Assim, por exemplo, em 1885 afirma que “Em vergar e moldar está a arte política. Só nas ideias essenciais de dignidade e liberdade deve-se ser espinhudo, como um ouriço, e reto, como um pinheiro.”[9]

Desde nossos debates de hoje, cabe dizer que Martí é assim para o liberalismo oligárquico o que Gramsci foi para o estalinismo dogmático. Desta perspectiva – também desde Gramsci –, a política martiana faz parte de “uma concepção nova, independente, original, apesar de ser um momento do desenvolvimento histórico mundial, é a afirmação da independência e da originalidade de uma nova cultura em incubação, que se desenvolverá à medida em que se desenvolvam as relações sociais.”[10]

Julio Antonio Mella, José Martí e a importância de conhecer o passado para construir o futuro

Neste desenvolvimento teve um importante papel a pedagogia política exercida por Martí no jornal Patria, órgão do Partido Revolucionário Cubano.


“A Política”

Assim, o artigo “A Política”, publicado em março de 1892 – quando avançava a construção de um movimento independentista de ampla base social, dotado de um programa correspondente à complexidade de seus propósitos – reitera que para aqueles que “desejam sinceramente uma condição superior para a linhagem humana” não cabe uma política que tenha por objeto “mudar apenas formalmente um país, sem mudar as condições de injustiça em que padecem seus habitantes”. Pelo contrário, acrescenta, não pode haver lugar para a indiferença ou o repúdio à ação política, pois…

Quando a política tem por objeto dar condições de vida a um número de homens a quem um estado iníquo de governo priva dos meios de aspirar pelo trabalho e o decoro à felicidade, falta ao dever de homem aquele que se nega a lutar pela política que tem por objeto pôr um número de homens em condição de serem felizes pelo trabalho e pelo decoro.[11]

Tal é o fundamental de seu legado. Tal, o fundamental de nossa tarefa se aspiramos a merecer este legado nesta época de transição, em que o sistema internacional que substituiu o colonial a partir de 1950 se desintegra diante de nossos olhos, renovando uma vez mais a batalha entre a falsa erudição e a natureza.

Notas:
[1] “A Conferência Monetária das Repúblicas da América”. La Revista Ilustrada, Nova York, maio de 1891. Obras Completas. Editorial de Ciencias Sociales, Havana, 1975. VI, 158.
[2] “A Joaquín Macal” “[Guatemala] 11 de abril de 1877”. VII, 98.
[3] “Reflexões destinadas a preceder os informes trazidos pelos chefes políticos às conferências de maio de 1878”. OC, VII, 168-169.
[4] Carta a Manuel Mercado. 10 de novembro [1877]. XX, 33.
[5] Francisco (2013): Exortação Apostólica Evangelii Gaudium sobre o anúncio do Evangelho na era atual. 231-233. “A realidade”, diz Francisco, “simplesmente é, a ideia se elabora. Entre as duas deve haver um diálogo constante, evitando que a ideia termine separando-se da realidade.” E agrega: “A ideia —as elaborações conceituais— está em função da captação, da compreensão e da condução da realidade. A ideia desconectada da realidade origina idealismos e nominalismos ineficazes, que no máximo classifica ou definem, mas não convocam. O que convoca é a realidade iluminada pelo raciocínio.”
[6] “Prólogo” para Contos de Hoje e de Amanhã, por Rafael Castro Palomares. La América, Nova York, outubro de 1883. V, 107.
[7] “Nossa América”. El Partido Liberal, México, 30 de janeiro de 1891. VI, 17.
[8] “Cegos e desleais” . Patria, Nova York, 28 de janeiro de 1893. II, 215.
[9] “Cartas de Martí”. La Nação, Buenos Aires, 15 de julho de 1885.X, 250.
[10] Gramsci, Antonio: Introdução à filosofia da praxis. Seleção e tradução de J. Solé Tura https://marxismocritico.files.wordpress.com/2011/11/introduccion-a-la-filosofia-de-la-praxis.pdf
[11] “La Política”. Patria, Nova York, 19 de março de 1892. I, 336.

Guillermo Castro H. | Especial para Diálogos do Sul
Tradução: Ana Corbisier.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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