Paul Keller/Flickr

Gastronomia popular: El choripan de Cristina Kirchner e nossos sanduíches de mortadela

O prato, geralmente associado aos pobres que também pode ser chamado de "chori", está profundamente associado às raízes da gastronomia argentina

Na Argentina, existe um prato típico muito comum servido em todos os lugares, a qualquer hora. É o choripan, abreviação de chorizo e pan – linguiça e pão. O prato tem um apelido, pode ser também chamado de chori.  O choripan é feito com uma linguiça geralmente assada na churrasqueira e servida no pão com molho chimichurri, uma espécie de vinagrete picante feita com salsinha, alho, cebola, tomilho, orégano, pimenta vermelha moída, louro, pimenta-preta, mostarda em pó, salsão, vinagre e azeite – e algumas variações mais ou menos picantes. 

É um lanche barato, geralmente associado aos pobres, às partidas de futebol ou festas populares. Bom. Está profundamente associado às raízes da gastronomia argentina.

Com os anos de governo dos Kirchner, principalmente nos governos de Cristina, o choripan ficou associado à sua figura. O choripan se tornou uma metáfora para um governo popular, numa associação básica: os pobres comem choripan; Cristina governa para os pobres. Portanto, o governo de Cristina é o governo "dos choripan". Para além dessa associação bastante rudimentar, um boato começou a se espalhar pelo país, reafirmado por uma enorme rede de fake news, de piadas de mau gosto, jornalistas sem escrúpulos da grande imprensa. Uma intensa campanha subterrânea de publicidade na rede patrocinada pela direita baseada na afirmação de que, quem ia aos gigantescos comícios do Partido Justicialista, de Cristina, ganhava um choripan e uma coca-cola grátis – sim, isso lembra muito algo que você viu acontecer no Brasil.

Para além dessa associação bastante rudimentar, um boato começou a se espalhar pelo país, reafirmado por uma enorme rede de fake news, de piadas de mau gosto, jornalistas sem escrúpulos da grande imprensa. Uma intensa campanha subterrânea de publicidade na rede patrocinada pela direita baseada na afirmação de que, quem ia aos gigantescos comícios do Partido Justicialista, de Cristina, ganhava um choripan e uma coca-cola grátis – sim, isso lembra muito algo que você viu acontecer no Brasil.

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O choripan "é um lanche barato, geralmente associado aos pobres, às partidas de futebol ou festas populares"

O boato ganhou tamanha proporção que, muitas vezes, ao longo dos últimos anos de luta contra as medidas de austeridade de Maurício Macri e contra a lawfare do Judiciário argentino, Cristina falou do choripan. Em agosto de 2017, ela fez um discurso debaixo de chuva. Estava lotado. Irritada com os memes que de choripan e coca-cola que levariam os seus apoiadores às grandes manifestações, ela vociferava: “Hoje não temos choripan porque está chovendo. As parrillas estão apagadas”.

A frase se tornou símbolo da luta e da resistência ao governo neoliberal de Maurício Macri. As churrasquerias, as parrillas, estavam apagadas não apenas por causa da chuva, mas por causa das políticas recessivas neoliberais que não permitiam mais aos argentinos fazer um dos pratos mais baratos e apreciados pela gastronomia argentina, o choripan. O povo, com a economia em frangalhos, não podia comer nem seu amado choripan.   

No Brasil, ocorreu algo semelhante com um sanduíche popular. Foi o pão com mortadela durante a campanha pelo impeachment de Dilma, em 2016. Pelas redes sociais, espalhavam-se notícias de que as manifestações de esquerda, que defendiam o governo eleito em 2014, pagavam os presentes com pão com mortadela. “Pão com mortadela” passou a significar preferência política de esquerda.

Mas, ao contrário da Argentina, onde o choripan é um prato nacional, no Brasil, o pão com mortadela faz sentido apenas regionalmente em São Paulo. Ninguém imagina chamar militantes de esquerda de “mortadelas” no Nordeste ou no Norte.

Arrisco uma explicação para essa regionalização do pão com mortadela. Na Itália, mortadela é chamada de bologna. A cidade de Bolonha, de onde vem o embutido, ficou conhecida como um dos lugares em que o Partido Comunista teve mais influência, desde antes da Segunda Guerra Mundial. Bolonha era, portanto, as duas coisas: o comunista e a mortadela. Chamar alguém de bolonha, de mortadela, portanto, era associá-lo ao comunismo.

A associação atravessou o Atlântico com os imigrantes, que, desde o final do século XIX, marcaram a vida cultural de São Paulo, onde se formou a maior colônia no Brasil. Numa cidade que se industrializava e em que a vida sindical e a defesa de ideias socialistas se confundia com essa presença italiana, a associação entre “esquerdismo” e “mortadela” estava dada pela simples tradução – e, provavelmente, atravessou décadas no linguajar operário antes de chegar às redes sociais.

Não sei se foi isso mesmo que aconteceu. Se non è vero è ben trovatto (se não é verdade, é bem pensado, bem possível), diria minha avó calabresa. O que me importa mesmo é que os pratos populares podem ser usados politicamente, com diferentes associações – e numa outra coluna, dia desses, vou falar de política e de pratos ligados à direita, como os brioches de Maria Antonieta.

No caso argentino, quando Cristina Kirchner, agora eleita vice-presidente, disse, sob chuva, que não era possível mais acender as parrillas para fazer o choripan, todos entenderam que era hora de mudar e que o neoliberalismo estava com seus dias contados. É a economia. No final, a fome e as panelas vazias sempre falam mais alto.

Edição: Julia Chequer

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