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Foto: Hugo Yasky / X

Argentina: fome avança sob Milei, Igreja Católica alimenta mais pobres e centrais anunciam greve

Criticando a justiça, que ordenou a entrega de comida aos refeitórios populares, a equipe de Milei anunciou "que não distribuirá os alimentos" às unidades
Stella Calloni
Diálogos do Sul Global
Buenos Aires

Tradução:

Beatriz Cannabrava

A cúpula da Igreja Católica decidiu abrir várias paróquias, começando pela Catedral Metropolitana, para alimentar centenas de famílias, muitas das quais estão vivendo nas ruas devido ao aumento progressivo da indigência, enquanto em 6 e junho foi encontrado na província de Salta outro galpão com uma grande quantidade de alimentos deixados pelo governo anterior para os refeitórios populares e bairros carentes, que deveriam ter sido distribuídos em dezembro, mas que nunca foram entregues pelo governo do presidente Javier Milei.

Além disso, foram encontrados colchões, cobertores, tênis, cadeiras de rodas e outros itens também destinados aos setores mais vulneráveis, que apareceram na casa de um familiar de um político ligado ao governo de La Libertad Avanza, na província de Salta.

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Criticando a justiça, que ordenou a entrega dos suprimentos aos destinatários, o governo de Milei anunciou “que não distribuirá os alimentos aos refeitórios”. Em vez disso, através de uma notificação judicial, o Ministério do Capital Humano comunicou que os entregará a “escolas vulneráveis”, o que não cumpre a ordem judicial.

Tenda contra fome

As organizações sociais instalaram na praça do Congresso, em Buenos Aires, a Tenda contra a Fome, para visibilizar a gravíssima situação que os bairros enfrentam diante da falta de uma política alimentar.

Um grupo de mulheres que cozinham nos refeitórios populares exigem ao governo e especialmente à ministra do Capital Humano, Sandra Pettovello, o envio de alimentos aos refeitórios populares. “A fome não espera. A fome mata” podia ser visto em cartazes exibidos pelas mulheres ou “Milei: seus cães comem, meus filhos não”.

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Novas mobilizações e greve

Enquanto isso, os dirigentes de um setor da Confederação Geral do Trabalho (CGT), junto às duas Centrais de Trabalhadores Argentinos (CTA) e outros sindicatos e organizações sociais, com a presença da Mãe da Praça de Maio, Tati Almeyda, anunciaram uma grande mobilização na próxima quarta-feira (12) para alertar os Senadores sobre o dano irreparável que causariam se votarem a temível Lei de Bases que será discutida nesse dia.

A Associação de Trabalhadores do Estado (ATE) se unirá à mobilização e realizará uma greve geral nesse mesmo dia diante do anúncio do presidente sobre a demissão de mais de 50 mil funcionários. Em 6 de junho, também pararam os funcionários judiciais, e no Dia do Jornalista, os trabalhadores suspensos da Agência Oficial Télam lideraram um protesto, lendo um documento assinado por mais de dois mil jornalistas e comunicadores denunciando “os ataques à imprensa e os salários de pobreza”. A carta pública assegura que se vive “o pior momento para exercer o jornalismo nos últimos 40 anos”.

Acrescenta que “a relação do governo nacional com o jornalismo e os meios de comunicação se destacou por incessantes agravos e ataques a jornalistas por parte do presidente Milei, uma repressão violenta em coberturas de notícias, restrição aos trabalhadores da imprensa no acesso a eventos públicos (…) sufocamento dos meios privados comerciais e sem fins lucrativos a partir da eliminação da pauta oficial”.

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A isso “se soma uma política declarada de destruição dos meios públicos, a tentativa de fechamento da Télam como caso paradigmático e a queda dos sites e redes da Rádio Nacional, TV Pública e Conteúdos Públicos S.E., das emissoras da rádio pública e das correspondências da agência. Também ocorreram ataques cibernéticos paraestatais, coordenados, a comunicadores”, agrega.

Famílias das vítimas de feminicídio estão desamparadas

Por outro lado, trabalhadoras do ex-Ministério das Mulheres, Gêneros e Diversidade souberam da dissolução “da única dependência para combater a violência machista que ainda existia”, deixando desamparadas as famílias das vítimas de feminicídio. Já não existirão mais as sedes onde se protegia as mulheres e filhos refugiados diante das ameaças de morte dos agressores.

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A resposta de Milei à última marcha de organizações feministas de “Ni una Menos” foi “um golpe final nas políticas contra a violência de gênero”, segundo o portal El Destape. Lembra-se que o pessoal encarregado foi reduzido em 80%. “Isso é o completo retiro do Estado de uma população totalmente vulnerável. Não há atendimento para as pessoas que sofrem violência.”

Apoio ao sionismo genocida

Outro fato muito grave ocorreu também em 6 de junho, desta vez em matéria de política externa. Convidado para uma reunião de países islâmicos que têm suas embaixadas aqui, Milei recebeu uma ligação informando que estaria presente o encarregado de Negócios da Palestina, e então decidiu voltar, estando a 200 metros da grande Mesquita, no bairro residencial de Palermo.

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“Tivemos esse desdém que nos coloca em uma situação pior do que estávamos, pois era uma oportunidade para o presidente se desculpar pelas agressões que vem manifestando contra o Islã”, disse o presidente do Centro Islâmico, Fabián Ankah.

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Sempre rodeado de rabinos, Milei recentemente ordenou votar na ONU contra o estabelecimento de um Estado palestino e está tentando mudar a sede da embaixada argentina de Tel Aviv para Jerusalém.

La Jornada, especial para Diálogos do Sul – Direitos reservados.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.

Stella Calloni Atuou como correspondente de guerra em países da América Central e África do Norte. Já entrevistou diferentes chefes de Estado, como Fidel Castro, Hugo Chávez, Evo Morales, Luiz Inácio Lula da Silva, Rafael Correa, Daniel Ortega, Salvador Allende, etc.

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