Pesquisar
Pesquisar

Brasil corre risco iminente de sofrer colapso na assistência hospitalar, alerta epidemiologista

Quem faz o alerta é o médico epidemiologista Paulo Lotufo, em entrevista ao TUTAMÉIA. Professor da Faculdade de Medicina da USP
Eleonora de Lucena
Tutaméia
São Paulo (SP)

Tradução:

“A epidemia está subindo em todo o país e, com certeza, isso vai levar a um colapso da assistência hospitalar muito mais grave. Em abril, maio e junho, nós tínhamos uma progressão da epidemia pelo país. Era Grande São Paulo, Grande Rio, Fortaleza, Recife. Eram algumas manchas que foram subindo. Agora não, agora nós temos em todo o país. Naquele período [de meados do ano], existia um sistema de vasos comunicantes hospitalar. Se a cidade de São Paulo está muito lotada, encaminha alguns casos para municípios da Grande São Paulo, para o interior. Aí a capital fica com menos casos e recebe do interior. Vai se equilibrando. Agora tudo está acontecendo ao mesmo tempo. [Será] um colapso no Brasil inteiro, sem dúvida, rapidamente”.

Quem faz o alerta é o médico epidemiologista Paulo Lotufo, em entrevista ao TUTAMÉIA. Professor da Faculdade de Medicina da USP, ele pondera que a expectativa com as medidas de restrição anunciadas em São Paulo é que elas “tenham efeito para a gente não chegar a fevereiro em níveis muito piores do que nós estamos”. Idealmente, ele considera que o melhor caminho a adotar seria um lockdown nacional. “Mas ele é impraticável”, afirma.

Lotufo, com colegas da USP, acaba de assinar uma manifestação pelo impeachment de Bolsonaro. No texto, 700 signatários apontam “a conduta inepta, irresponsável e criminosa do governo federal” no enfrentamento à pandemia.

“O governante de um país precisa defender, antes de mais nada, o seu povo. É um fato inédito o comportamento [de Bolsonaro] em termos históricos. É impressionante isso”, declara. O médico fala dos esforços de Rodrigues Alves e Oswaldo Cruz no início do século 20 para enfrentar a febre amarela e a varíola. Depois, no início dos anos 1960, lembra de João Goulart e seu empenho no combate à poliomielite. Na ditadura militar, relembra, Geisel e Figueiredo também se empenharam na fabricação de vacinas e nas campanhas de imunização que se espalharam pelo país. Eram os tempos da propaganda oficial pela “gotinha que salva”.

“Sempre tivemos um compromisso dos governantes com a população em termos sanitários. E agora, de uma forma inédita, nós temos um presidente que nega todas as ações necessárias para proteger a população”, afirma. Lotufo diz não ter dúvida da conduta criminosa de Bolsonaro e aponta a necessidade de punição. “É uma ação política. Vamos para uma corte internacional ou vamos ressuscitar o Tribunal Bertand Russell [instituído, a partir dos anos 1960, para julgar crimes dos EUA na guerra no Vietnã e os praticados pelas ditaduras militares na América do Sul]. Alguma coisa vai ter que ser feita para que isso não possa ficar impune”.

Quem faz o alerta é o médico epidemiologista Paulo Lotufo, em entrevista ao TUTAMÉIA. Professor da Faculdade de Medicina da USP

Câmara Municipal de João Pessoa
A evolução da Covid no Brasil

Nesta entrevista, Lotufo trata da evolução da Covid no Brasil, da interferência nefastas das mentiras no processo, do florescimento de charlatões nesse período e das perspectivas da vacinação e das falhas do governo federal em todo o processo (acompanhe a íntegra no vídeo).

O médico identifica a ocorrência de “uma guerra muito grande do poder econômico em relação aos interesses gerais. Pegaram todo o poder que têm e começaram a montar o complexo médico e jornalístico negacionista”. Daí, lembra, a propaganda da cloroquina e de outros produtos –ineficazes no combate à doença– como forma de minar as medidas de prevenção. Como consequência, houve maior contágio. “Foi uma disputa que ganhou corações”, declara.

Sobre esse complexo que uniu médicos e integrantes da mídia em torno do negacionismo, Lotufo observa:

“Eu me pergunto onde eu estava entre 2012 e 2019. Se eu estava andando pelo meio da Groenlândia, sem ligação com o Brasil. Eu não percebi a forma organizada e ordenada como a extrema direita estava se articulando aqui. É inacreditável a quantidade de associações, organizações que já existiam previamente a 2018. Existe a Docentes pela Liberdade, que já existia antes da pandemia. Tínhamos uma série de ações que, com a entrada do governo Bolsonaro e depois com a pandemia, tiveram todas as condições orgânicas. Estavam bem estabelecidas. Na USP, é incrível como pessoas que eu nunca imaginava estivessem nesse espectro político atuasse. Em outras universidades, conheço docentes que estão assustados com as manifestações. No meio médico aconteceu o fenômeno já um pouco anterior dos conselhos médicos ficarem nas mãos das posições mais direitistas. Coisa que nunca tinha acontecido antes. Com isso, eles ficaram totalmente fora de qualquer crítica a ações totalmente incorretas. Por exemplo, em relação à prescrição da cloroquina”.

Na avaliação do médico, houve “uma conjunção de interesses. Existe o interesse do mainstream da economia em que nada pare. Há alguns agentes que especificamente vão ter um trabalho orgânico ativo, de financiar, de organizar, de juntar. Há posições bizarras, condutas médicas bizarras. Que têm uma recompensa do ponto de vista pecuniária, por atrair pacientes. É antigo na medicina. Essas pessoas aproveitaram essa oportunidade para ter o aparecimento na grande mídia e aumentaram ainda mais essa clientela’.

Lotufo concorda com a afirmação de que a pandemia colocou holofote sobre charlatões. “Todo o momento em que você tem uma pandemia, essas pessoas florescem. Na gripe espanhola houve casos iguaizinhos”.

Governo atuou para disseminar o vírus, diz estudo

Na entrevista com Paulo Lotufo também conversamos sobre o recém-divulgado estudo realizado pelo Centro de Pesquisas e Estudos de Direito Sanitário (CEPEDISA) da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP) e pela Conectas Direitos Humanos analisando as medidas adotadas pelo governo federal em relação à pandemia.

A pesquisa “Mapeamento e análise das normas jurídicas de resposta à Covid-19 no Brasil” examinou nada menos que 3.049 normas expedidas em 2020. Eis o resultado: “No âmbito federal, mais do que a ausência de um enfoque de direitos, já constatada, o que nossa pesquisa revelou é a existência de uma estratégia institucional de propagação do vírus, promovida pelo governo brasileiro sob a liderança da Presidência da República”.

O editorial do documento afirma: “A inflação normativa reflete o descalabro da resposta brasileira à pandemia: no momento em que fechamos esta edição, ultrapassamos os 210 mil mortos e mais de uma a cada dez pessoas mortas pela doença no mundo encontram-se no Brasil; o Estado do Amazonas sufoca, sem oxigênio para os pacientes infectados pelo coronavírus; a vacinação ainda não acontece de forma coordenada e organizada no país; o Poder Executivo Federal mantém a postura negacionista, renunciando aos seus deveres mais elementares no que se refere à coordenação do Sistema Único de Saúde (SUS), e hipotecando o que poderia ser o maior trunfo brasileiro diante da emergência: a prática de um federalismo cooperativo e solidário”.

E prossegue: “As 3.049 normas relativas à Covid-19 coletadas por nossa pesquisa no âmbito da União corroboram a ideia de que onde há o excesso de normas há pouco direito. Trata-se de um acervo normativo que resulta do embate entre a estratégia de propagação do vírus conduzida de forma sistemática pelo governo federal, e as tentativas de resistência dos demais Poderes, dos entes federativos, de instituições independentes e da sociedade. A linha do tempo que publicamos nesta edição demonstra a relação direta entre os atos normativos federais, a obstrução constante às respostas locais e a propaganda contra a saúde pública promovida pelo governo federal”.

Outro texto, assinado por Deisy Ventura e Rossana Reis, completa:

“Os resultados afastam a persistente interpretação de que haveria incompetência e negligência da parte do governo federal na gestão da pandemia. Bem ao contrário, a sistematização de dados, ainda que incompletos em razão da falta de espaço para tantos eventos, revela o empenho e a eficiência da atuação da União em prol da ampla disseminação do vírus no território nacional, declaradamente com o objetivo de retomar a atividade econômica o mais rápido possível e a qualquer custo.

“Como resultado da estratégia que, segundo o Tribunal de Contas da União, configura a “opção política do Centro de Governo de priorizar a proteção econômica”, o Brasil ultrapassou a cifra de 200 mil óbitos em janeiro de 2021, em sua maioria mortes evitáveis por meio de uma estratégia de contenção da doença.

“Isto constitui uma violação sem precedentes do direito à vida e do direito à saúde dos brasileiros, sem que os gestores envolvidos sejam responsabilizados, ainda que instituições como o Supremo Tribunal Federal e o Tribunal de Contas da União tenham, inúmeras vezes, apontado a inconformidade à ordem jurídica brasileira de condutas e de omissões conscientes e voluntárias de gestores federais. Reiterando o que já foi abordado em edições anteriores deste boletim, destacamos a urgência de discutir com profundidade a configuração de crimes contra a saúde pública, crimes de responsabilidade e crimes contra a humanidade durante a pandemia de Covid-19 no Brasil.”

Eleonora de Lucena e Rodolfo Lucena para Tutaméia


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

   

Se você chegou até aqui é porque valoriza o conteúdo jornalístico e de qualidade.

A Diálogos do Sul é herdeira virtual da Revista Cadernos do Terceiro Mundo. Como defensores deste legado, todos os nossos conteúdos se pautam pela mesma ética e qualidade de produção jornalística.

Você pode apoiar a revista Diálogos do Sul de diversas formas. Veja como:


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Eleonora de Lucena

LEIA tAMBÉM

EUA-fentanil
A DEA, a ofensiva contra o México, o fentanil e os mortos por incúria
Crise-drogas-EUA
EUA culpam cartéis do México por crise de drogas entre estadunidenses
Laura Richardson - Peru
Rio Amazonas em risco: o que se sabe sobre laboratórios biológicos dos EUA no Peru
gravidez precoce argentina
Programa que cortou pela metade gravidez precoce na Argentina pode desaparecer sob Milei