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Cannabrava | Os efeitos da Guerra Cultural: um Brasil paralelo vive na midiosfera

Tática de infundir o medo de participação política se mantém. Como parar? Difícil. O que tem que se fazer é ignorar as narrativas e seguir as próprias pautas
Paulo Cannabrava Filho
Diálogos do Sul Global
São Paulo (SP)

Tradução:

O mapa da distribuição dos votos no país, em cada estado, se reflete com mais exatidão em cada município, e revela duas situações de suma gravidade. A primeira é o componente racista revelado pelo voto; a segunda, é um Brasil paralelo que vive no universo midiático, o mundo das narrativas impostas – blogosfera, midiosfera, instrumento da guerra cultural e cibernética.

O mapa eleitoral mostra que o voto para o continuísmo – reeleger o governo dos militares e do neoliberalismo entreguista – é majoritariamente de brancos, gerações descendentes de imigrantes. É o voto do fora da lei, o grileiro, o sonegador de impostos, o invasor de terras indígenas, o garimpo ilegal, o grileiro, o derrubador das árvores para venda ilegal de madeira.

O voto por mudança, pelo progressismo e políticas de inclusão é mestiço, é índio-negro-branco. Claro que para confirmar a regra há exceções em ambas as partes. Há brancos como eu que não somos fascistas e há até indígena nas hostes do continuísmo, que representa a ultradireita.

Os negros, negros de todas as tonalidades, e as mulheres, garantiram a vitória de Lula. E não foi fácil diante do esforço midiático, do assédio dos empresários, da compra de votos descarada, das ameaças, do uso ostensivo e ilegal da máquina governamental, do abuso do poder econômico.

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Guariba, no Piauí, com 3.100 eleitores, disputando com outros municípios do Norte e Nordeste quem é mais “lulista”, é paradigmático. Lula teve 93,86% dos votos; os 193 votos para reeleger o governo foram de evangélicos, pequenas denominações neopentecostais. Por que votaram? Por causa de princípios, de família. Como se os mais de 90% não tivessem princípios ou não fossem famílias? 

No outro extremo, município de Casca, 9 mil habitantes, no Rio Grande do Sul, onde a chapa governista teve 77,28%; os que votaram por mudança estão sendo perseguidos e ameaçados. Estão fazendo listas e colocando estrela vermelha nas portas para identificar o voto contrário, denunciou horrorizada a advogada Janaína Ramos.

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As vivandeiras que cercavam os quartéis, vendo que não seriam atendidas, mudaram o discurso. Agora é vigília cívica. Tampouco a paralisação geral que seria provocada por novos bloqueios de estrada deu certo. 

A tendência é ir esvaziando. Mas o inconformismo e a violência seguem. 

Gleisi Hoffmann, presidente do PT, e o deputado federal Lindberg Farias, almoçavam com amigos num restaurante em Brasília, quando foram ofendidos e ameaçados de agressão física por um valentão liderando um grupo. Fizeram BO; o nome do cara vai para uma lista?

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A tática de infundir o medo de participação política, as narrativas para desacreditar os políticos, se mantêm com participação da midiosfera. Como parar? Difícil. O que tem que se fazer é ignorar as narrativas e seguir as próprias pautas. Está mais fácil seguir pautas que não a dos fascistas, pois já há, de fato, um novo governo.

Na grande cidade, quem faz a opinião pública é a mídia hegemônica, porta-voz do pensamento único imposto pelo capital financeiro, ou veículos da alienação pregada por pastores através das rádios, nos templos e nas redes sociais.

São incapazes de olhar criticamente à realidade. Vivem a ilusão de uma ficção chamada “deus, pátria e família” e se organizam para gerar o caos. É o que fazem os manifestantes nas escolas ou os bloqueadores de estradas. Em defesa da propriedade ameaçada pelo novo governo, ocupam as estradas, propriedade de todos. Não é um pensamento coerente.  

Como conseguem esse nível de alienação?

O PT foi governo, a pátria foi favorecida por projetos de desenvolvimento gerador de emprego, a família foi beneficiada com políticas públicas inclusivas. Os militares assumem, paralisam todos os projetos, liquidam com as políticas públicas, destroem a economia gerando o maior desemprego e desamparo da história e colocam o país de novo no mapa da fome.

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Não obstante, prevalece a narrativa trabalhada por décadas: proteger a família de corruptos e devassos. Funciona assim lá em Guariba (SP) como em qualquer periferia ou centro de cidade grande. 

Não é ideológico, pois se trata de alienação. Cabeça feita e viseira posta, incapaz de ver o que está ao derredor. 

Na classe média, particularmente na abastada, se torna ideológico com a adesão ao fascismo, ao nazismo e ao sionismo. Se não é ideológico, é por puro oportunismo, mais claramente, por dinheiro ou vantagens propiciadas pelo poder.

Esta é a realidade da presente conjuntura.

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Desenhos do Nando

Lula acertou quando disse que enfrentou toda a máquina governamental e as milícias bem treinadas para manipular a opinião pública





O confronto é desigual em cada município

É muito desigual. Principalmente quando se verifica a situação no microcosmo do município, do bairro periférico, das comunidades de favelas. Ali atuam os empresários que são dali mesmo. Há muitas décadas as rádios fazem proselitismo religioso com fins políticos. 

O que fazer? Calar as rádios? Isso, os militares da geração 1964 fizeram. E até hoje não há uma só rádio dissonante. 

A verdade é que não dá pra fazer projeto de democratização e de desenvolvimento sem comunicação.

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Quase a totalidade das rádios e televisões pertencem ou a políticos ou a denominações religiosas. Utilizam as ondas hertzianas, que são públicas, sem nenhum controle, enriquecem e alienam as pessoas. Pior. Estimulam a reação violenta contra o que não se lhe assemelha. 

Cada município tem que ter pelo menos uma rádio e uma televisão comunitária, gerida pela população organizada. É um começo. Para dar certo, não podem ser repetidores nem cópias das mídias hegemônicas. Tem que ser serviço público.

Outrossim, o trabalho intenso nas salas de aula. A escola pública é laica como laico é o Estado republicano. A escola ensina ciência e desenvolve o espírito crítico e criativo. Pode também ensinar história das religiões comparadas. Aprendendo história e a raciocinar criticamente, a criança tem mais chance de crescer livre da opressão dos homens e dos deuses. Poderá conviver com deuses magnânimos, deuses que não cobram dízimos e são libertadores.


Futuro do capitão Jair Bolsonaro 

Agora mesmo o capitão está em refluxo, recolhimento tático, o momento o exige. É hora da transição, disse que seguiria a Constituição. Faz parte não atrapalhar – ou atrapalhar pouco – os entendimentos para a passagem de um governo para outro, a troca do bastão de mando.

Uma coisa é certa. Assim como Trump, o capitão já é candidato a voltar ao Planalto em 2026, ou, até mesmo antes, montado em blindados das forças armadas. 

Tudo neste país dos absurdos é possível. Nós apostamos na normalidade. Os generais vão voltar para os quartéis porque assim determinou o deus dinheiro. Prova disso: os mais fiéis escudeiros dos banqueiros estão trabalhando na transição com Lula. Os economistas do Plano Real, Neca Setúbal, herdeira do Itaú, Armínio Fraga, dono da Gávea, gestora de fundos, entre outros.

Contudo, Bolsonaro estará em campanha como esteve desde 2011 quando visitava quartéis e academias militares. Isso se continuar infenso à Justiça. Cometeu crimes de peculato, prevaricação, corrupção, falta de decoro, ofensa à moralidade, entre outros, no exercício do poder. Cometeu toda sorte de crimes eleitorais durante a campanha. Quem o deterá?

Espera-se que seja processado e condenado. 

O Brasil é signatário da Convenção de Roma e há mais de um processo contra Bolsonaro no Tribunal Penal Internacional de Haia. Um desses processos, movido por indígenas organizados em movimentos, o acusa de genocídio pelo descaso com a covid-19 e a invasão de reservas com violações e mortes. Se condenado, poderá ser preso em qualquer dos países signatários.

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Outra coisa é certa. Eles tinham certeza da vitória. Essa certeza foi traduzida em frases como “daqui só saio morto” e no trabalho realizado durante o governo e na campanha eleitoral. Ademais, tinha o “meu exército”, e de fato é o seu exército que está tumultuando a nação, provocando caos e desabastecimento com bloqueio institucional das estradas. É o seu exército que está fazendo saudações nazistas em Santa Catarina e nas escolas mais caras do país.


A disputa foi das mais desiguais

A disputa foi muito desigual. Lula acertou quando disse que enfrentou toda a máquina governamental e as milícias bem treinadas para manipular a opinião pública com respaldo total da mídia.

Ausente o capitão, o Palácio do Planalto está funcionando, em função do novo governo, assim como o Congresso está funcionando em função do novo governo. É importante, porque se não for assim, Guedes tem na gaveta umas tantas maldades que prometera praticar. Uma delas, liberar totalmente o mercado de capitais e ingressar na OCDE.

Valdemar Costa Neto – do PL, com 99 deputados, a maior bancada até agora, se não houver novas fusões – não vai querer largar a presidência do partido. Como essa performance foi alcançada no rastro do Bolsonaro, o capitão espera ser agraciado, e será. Vai ter uma vice-presidência, ou presidência honorária. Liderar a oposição não vai. Não tem coeficiente intelectual para isso, mas vai sim agitar, que é no que se aperfeiçoou.

As bancadas se acomodam. Já estão se acomodando. Até os evangélicos já pediram perdão e funciona com a maioria dos deputados o pragmatismo, o fisiologismo. Com os arranjos que está fazendo Lula, poderá contar com cerca de 300 votos, suficientes para governar. Contudo, se perder o controle, o petista cai.

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O perigo maior vem das ruas e das redes. 

A nova direita poderá se sentir fortalecida com a vitória dos Republicanos ao poder em Washington e de Netanyahu em Israel. Nesse aspecto, há que tomar cuidado com os neopentecostais sionistas. Se sentem fortes e constituem uma ameaça à segurança nacional em toda a Nossa América. É assim que precisa ser colocada a atuação dessas denominações que se dizem evangélicas, cristãs, e adoram Mamom, o deus dinheiro: ameaça à segurança nacional.

A separação entre Igreja e Estado tem que estar no centro dos debates políticos e se estender como tema de reflexão nas escolas. Ajuda nesse sentido o estudo da história das religiões comparadas. 

“O preço da Liberdade é a eterna vigilância”.

Vale lembrar a frase do irlandês John Philpot Curran (1750-1817), apropriada pela UDN nos anos 1950-60 contra o “perigo” representado por Vargas e seu trabalhismo desenvolvimentista e libertário. Ela serve agora sim que a pátria está em perigo. Perigo real do fascismo, do imperialismo

Não se pode baixar a guarda. Mobilização com conscientização por toda parte. O imperialismo está à espreita. A luta é pela libertação nacional, única forma de adquirir independência e soberania.

Paulo Cannabrava Filho | Jornalista latino-americano e editor da Revista Diálogos do Sul.

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.

Paulo Cannabrava Filho Iniciou a carreira como repórter no jornal O Tempo, em 1957. Quatro anos depois, integrou a primeira equipe de correspondentes da Agência Prensa Latina. Hoje dirige a revista eletrônica Diálogos do Sul, inspirada no projeto Cadernos do Terceiro Mundo.

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