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Cannabrava | Que não seja uma vitória de Pirro

Segundo a última pesquisa Ipec, Lula tem 48%, o inominável representante dos militares, 31%. Vai haver festa, o povo entusiasmado vai ocupar as ruas
Paulo Cannabrava Filho
Diálogos do Sul
São Paulo (SP)

Tradução:

As diversas pesquisas publicadas pela imprensa mostram a possível vitória no primeiro turno. Mesmo após o debate desta quinta-feira (29/09), nada se altera a não ser para favorecer Lula. Deu certo a campanha do voto útil. As pessoas, finalmente, entenderam que não se trata de uma simples disputa entre dois partidos, mas sim, de tirar do poder os militares que o usurparam.

Sim. Usurparam. As eleições de 2018 sob todos os pontos de vista foram uma farsa, conforme publicado nesta revista exaustivamente. Para não alongar muito na questão da farsa, fiquemos tão somente com a ausência de Lula, por uma armação judicial feita em conluio com as forças armadas e os Estados Unidos.

Desta vez a campanha foi pra valer. Segundo a última pesquisa Ipec, Lula tem 48%, o inominável representante dos militares, 31%; considerando os votos válidos, Lula vence no primeiro turno por 52% a 34%. A dupla trapalhões – CiroTebet – soma 10%. Por que não se somam à Frente de Salvação Nacional? A história revelará e cobrará.

Que bom seria se fosse de lavada, 7 a 0. Dar de 70%, não deixar dúvida de que os usurpadores são indesejáveis. Mandar pro lixo da história os traidores da pátria.

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Eu vejo o meu voto em Lula como uma reparação por ter sido excluído do pleito anterior. 

Vai haver festa, o povo entusiasmado vai ocupar as ruas

Que a festa não obnubile as consciências e se transforme na força que o presidente eleito precisará para manter-se no poder. Isso porque, minha gente, tal como está desenhada a nossa democracia, essa partidocracia torna o país ingovernável. Explico isso no livro “A Governabilidade Impossível”, feito às vésperas da eleição de 2018, como uma advertência.

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Veja como são e por quem são constituídos os partidos. A quantidade de partidos configurados como balcão de negócio. A força política que domina os 9 estados amazônicos, o Norte do país onde o situacionismo empata com a oposição. Veja o comportamento de certas denominações religiosas constituídas em partido político e pastores forçando seu rebanho a seguir o seu voto. A violência e o medo campeando.

Veja a atual composição da Câmara de Deputados. Em torno de 350 votos de direita contra no máximo 120 dos democratas. Eles estão com tudo para não perder a hegemonia. Partido Militar – disfarçado de Partido Liberal (PL) – com 76 deputados, Republicanos (44), União (51) e PP (58) somam 229 e se propõem a eleger 250 deputados, quase metade do quórum. MDB, atual bancada (37), PSD (46), PSDB/Cidadania (29), somam 112 e estimam que farão 120. Esses três, tradicionais Maria-vai-com-as-outras, serão os fiéis da balança. Somados, ultrapassam os dois terços do quórum.

Segundo a última pesquisa Ipec, Lula tem 48%, o inominável representante dos militares, 31%. Vai haver festa, o povo entusiasmado vai ocupar as ruas

Reprodução – Twitter
Temos que ter clara consciência de que governar não será um passeio e que somente a força do povo poderá se opor a essa ditadura de maioria

Há que considerar que dos 3.092 servidores públicos candidatos aos mais diversos cargos, os militares que hoje controlam o poder lançaram 2.222 candidatos. Tudo isso conta na composição das forças que estarão confrontadas.

A casa tem 513 deputados. Maioria é metade mais um (257), necessária para aprovar projetos de lei complementar, derrubar vetos presidenciais; dois terços (342), votos necessários para depor um presidente; e três quintos (308) em dois turnos de discussão para emendas constitucionais (PEC).

O PT espera fazer 75 deputados, 19 a mais que a bancada atual. Na melhor das hipóteses poderá conseguir 139 cadeiras. Isso considerando o potencial dos demais partidos da Federação Brasil – PCdoB (8), PV (4) – e a federação Psol (8), Rede (2), mais cinco partidos que apoiam Solidariedade (8), PSB (24), AGIR, AVANTE (6) e PROS (4).

A correlação de forças é nada favorável. A direita conserva a capacidade de rolo compressor suficiente para tornar o país ingovernável do ponto de vista dos interesses populares. A gente tem que ter clara a consciência de que governar não será um passeio e que somente a força do povo poderá se opor a essa ditadura de maioria.

Outro problema é o Orçamento da União, já aprovado e atado aos interesses do Centrão, ou seja, deputados venais pouco ligando para a sorte do país. O novo governo terá que promover uma revisão orçamentária total, caso sejam outras as prioridades, como afirmaram na campanha.

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Há que considerar também que somos um país ocupado. Ocupado por poderosas forças econômicas e pelas forças armadas, apêndice do comando sul dos Estados Unidos.

Fica clara também a necessidade de um novo pacto. 

A Constituição de 1934 foi a única aprovada por uma assembleia constituinte exclusiva, convocada por uma junta revolucionária. Tanto a de 1946 como a de 1988 foram elaboradas sob mediação dos militares e por deputados eleitos para serem deputados. É diferente. Mesmo assim, houve grande engajamento da população e se conseguiu uma Constituição que merecidamente foi chamada de cidadã.

Não houve uma campanha para tornar popular a Constituição e nada se fez para deter a sanha com que os conservadores alteram o documento a seu bel prazer. Completamente mutilada por milhares de emendas a partir do golpe de 2016, já não se reconhece o texto original, tal desconfiguração.

Chamar a uma Constituinte, como fizeram na Bolívia, no Peru e no Chile, é muito arriscado se não houver maioria com disposição e capacidade de mudar, força para um projeto viável, que torne o país governável.

Paulo Cannabrava Filho | Jornalista latino-americano e editor da Revista Diálogos do Sul.

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Paulo Cannabrava Filho Iniciou a carreira como repórter no jornal O Tempo, em 1957. Quatro anos depois, integrou a primeira equipe de correspondentes da Agência Prensa Latina. Hoje dirige a revista eletrônica Diálogos do Sul, inspirada no projeto Cadernos do Terceiro Mundo.

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