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Cannabrava | Situação pós eleitoral é de construção

Tinha que ser muito idiota para não perceber que no descaminho adotado pelos militares no poder só haveria como destino o caos
Paulo Cannabrava Filho
Diálogos do Sul Global
São Paulo (SP)

Tradução:

Só a direita salva!

Quando diziam “fora Bolsonaro”, consciente da realidade do governo de ocupação, eu advertia: só a direita derruba esse governo, portanto, estava firme no poder porque a direita o que queria era mantê-lo, tinha nele um seguro para a gestão do neoliberalismo e suas políticas monetárias e fiscais. É bom sempre deixar claro que a direita, para nós, é ser neoliberal, entreguista, mantenedora do status quo.

Como ainda há vida inteligente até mesmo na direita, alguém se deu conta de que, sem país, não há nem direita nem esquerda. Tinha que ser muito idiota para não perceber que no descaminho adotado pelos militares no poder só haveria como destino o caos.

A movimentação da direita no cenário político eleitoral foi tardia. Tardia, mas nem por isso destituída de vigor. Começou com as Cartas e Manifestos em defesa da Democracia, exigindo lisura no processo eleitoral, respeito às leis e ao Poder Judiciário. Unidos nesse movimento, profissionais liberais, empresários dos mais diversos ramos, a poderosa Fiesp e até alguns banqueiros, realizaram eventos e se reuniram com o candidato contrário ao status quo.

O movimento cresceu. A última manifestação, na mansão da família Bracher, reuniu gente importante, a começar pelos organizadores: Armínio Fraga (quem diria?), Simone Tebet do MDB e Marina da Rede. Convidados: Magalu, Natura, Itaú, Bradesco, Grupo Ultra, Rede Ipiranga… nada menos que 650 pessoas a quem se pediu o voto em Lula.

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Gente da pesada, boa parte do PIB, é muito importante. Significa que essa gente entendeu que o Brasil não aguenta – e nem eles aguentam – mais quatro anos de ocupação militar do poder, porque não são só quatro, são pelo menos 30 anos como foi estimado pelo Estado maior das forças armadas.

Não se iludam. Se houvesse competência por parte dos ocupantes do governo, eles – essa direita neoliberal – continuariam pactuados, um apoiando e servindo ao outro.

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O fato é que há uma distância abissal entre a geração de militares que protagonizou 1964 e essa de 1988. Aqueles eram ilustrados e competentes no que faziam. Governaram tranquilos com, mais que apoio, participação da direita. Isso é importante, os ministérios nas mãos da direita competente. Estes – a geração Bolsonaro –, são ignorantes e incompetentes no que fazem. A única competência que demonstram é a de bem servir a si próprio e deixar o país ao léu, entregue à sanha do império.

Não deu certo, eles vão tentar corrigir. Eles quem? Os donos do dinheiro. Eis um ponto de reflexão para os estrategistas do novo governo, pois agora vai.

Até a britânica The Economist, uma espécie de Bíblia do neoliberalismo, diz que reeleger o Bolsonaro é ruim para o Brasil e para o mundo… Somente Lula pode impedir. 

Assim de simples!

Para muitos isto os está levando ao desespero.

Paulo Skaf, empresário do ramo imobiliário, um calvinista filiado ao partido da Igreja Universal, presidente da Fiesp de 2007 a 2021, transformou a entidade numa operadora do caos, fez campanha de desestabilização dos governos do PT, apoiou a farsa eleitoral de 2018 e fez da entidade arrimo ao governo de ocupação. 

A Fiesp, em 2021, mudou de mãos. Se mudou não foi por obra e graça da diretoria, nem do governo. Se mudou foi por vontade das bases, foi porque os sindicatos das grandes indústrias quiseram. Colocaram na presidência o herdeiro da Coteminas, a maior indústria têxtil do país, Josué Gomes, filho de José de Alencar (1931-2011), que foi vice-presidente de Lula nos dois mandatos. 

Josué lançou manifesto de apoio à Democracia e apoia a candidatura de Lula. Skaf se rebelou e está fazendo um abaixo assinado na tentativa de derrubá-lo. Quem assina o manifesto? Só pode ser gente como o próprio Skaf, que quebrou como empresário; pequenos industriais que só sobrevivem com sonegação e desregulamentação do trabalho. Gente que está praticando assédio em seus funcionários tentando obrigá-los a votar na reeleição do inominável.

E tem mais. Arthur Lira, um dos donos do Orçamento Secreto, está assediando romeiros para visitar Padre Cícero, em Juazeiro, oferecendo transporte em ônibus e pagando estadia em dinheiro para cinco dias, de 28/10 a 2/11. Estão pedindo que façamos essa denúncia e que peçam para o governador adiar a data dos festejos do santo mais reverenciado do Nordeste.

As emissoras de rádio e televisão, os jornais, os manipuladores das redes, montaram uma verdadeira máquina hipersônica à distribuir diatribes contra o candidato preferencial. Tudo isso e demais atos diários da campanha são ilegais, porém, nada acontece, campeia a impunidade, o que torna a campanha muito desigual.


Vermelho é a cor cardinalícia 

Vermelho é a cor cardinalícia, disse o cardeal arcebispo de São Paulo, d. Odilo Scherer. Fé não pode ser usada para fins espúrios. A Igreja de Roma está assustada pois foi vilipendiada. Profanaram o Templo da Padroeira do Brasil. Poderia haver algo mais grave? Gente! O único ato de violência do Cristo foi para expulsar os vendilhões do Templo, gente como certos estelionatários que usam e abusam da fé do povo para enriquecer e realizar projeto de poder.

Tinha que ser muito idiota para não perceber que no descaminho adotado pelos militares no poder só haveria como destino o caos

Reprodução – Twitter
Terá de haver uma reformulação partidária a partir de 2023; a maneira em que está desenhada a partidocracia torna o país ingovernável

Os evangélicos têm que se dar conta disso, que são explorados em sua fé, que Cristo é dádiva, não cobra nem tira dinheiro de ninguém. Cristo é misericórdia. 

Lula se reuniu, dia 17 de outubro, com padres e freiras da igreja católica, a de Roma. Segmento dos mais importantes e que tem toda a razão de temer a extrema-direita. Num estado fascista não cabe outra religião que não a deles. O poder e o líder encarnam o deus e a religião. Vide o que ocorre em Israel, após a proclamação do estado teocrático sionista. 

E o plano de permanência no poder por 30 anos dos militares contempla a utilização das igrejas evangélicas como instrumento de poder, até transformar o país numa teocracia neopentecostal.


Reformulação partidária

Terá de haver uma reformulação partidária para a próxima legislatura, a instalar-se em 2023. Quase todos os partidos estão rachados, seja por conta da polarização havida no pleito presidencial, seja por tornar-se inviável. O certo é que a maneira em que está desenhada a partidocracia torna o país ingovernável.

No TSE, estão na fila para conseguir registro 77 partidos. Registrados no TSE são 32 partidos, dos quais 28 partidos e federações que disputaram as eleições, apenas 12 conseguiram cumprir com a cláusula de desempenho fixada pela Emenda Constitucional 97, aprovada em 2017. É o que constata a Agência do Senado. De acordo com a norma, só essa dúzia poderá receber recurso dos fundos partidário e eleitoral.

Viabilizaram-se as federações PT/PCdoB/PV, PSDB/Cidadania e Psol/Rede, e os partidos MDB, PDT, PL, Podemos, PP, PSB, PSD, Republicanos e União.

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18 partidos se tornaram inviáveis: Avante, PSC, Solidariedade, Patriota, PTB, Novo e Pros, elegeram deputados, mas não cumpriram as cotas. Além desses, Agir, DC, PCB, PCO, PMB, PMN, PRTB, PSTU e UP não conseguiram eleger deputados. Eles continuam a existir, porém, tem cabimento?

A norma estipula que, para ter acesso aos recursos públicos e aos espaços midiáticos de propaganda eleitoral, deve-se eleger pelo menos 11 deputados federais em pelo menos nove unidades da Federação, ou ter no mínimo 2% dos votos válidos nas eleições para a Câmara dos Deputados, distribuídos em pelo menos nove estados, com um mínimo de 1% dos votos válidos em cada um deles.

Mesmo aqueles partidos que cumpriram com a norma, terão que se recondicionar de acordo com a nova correlação de forças. PSDB não tem razão mais de existir, esfrangalhado que ficou com os velhos caciques apoiando a opção democrática e os novos descaradamente apoiando o que de pior há no bolsonarismo, como ocorre em São Paulo.

Vale registrar, as pesquisas indicam que São Paulo está inclinado a eleger o capitão Tarcísio de Freitas, ex-ministro da Infraestrutura. Foi um péssimo ministro, é do partido Republicanos, do pastor Edir Macedo, além de ser ligado aos milicianos que apoiam o governo. É uma mistura explosiva de milicianos com neopentecostais. Vão aparelhar o Estado como fizeram no governo do Rio de Janeiro e na presidência da República. Tarcísio sequer compareceu ao debate promovido pelas redes de TV. Não saberia responder perguntas básicas sobre São Paulo, e vai manejar o maior orçamento público do país depois do da União.

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O tucano Rodrigo Garcia, que não conseguiu ser candidato à reeleição, se bandeou de vez para o bolsonarismo, quer levar o capitão Bolsonaro ao Palácio dos Bandeirantes e fazer comício em favor do capitão Tarcísio de Freitas.

Até o João Dória se indignou. O ex-governador tucano disse que é demais e pediu desfiliação do PSDB. Ele que foi eleito fazendo campanha para o Bolsonaro. É um gesto que dá a medida da pusilanimidade de Garcia.

MDB também terá que se reformular. Como é que fica num mesmo saco gatos tão dissimiles como um bolsonarista e um lulista? União Brasil também rachado. Só não estão rachados os nove partidos da frente que apoiam a candidatura de Lula. A ver até quando.

Paulo Cannabrava Filho | Jornalista latino-americano e editor da Revista Diálogos do Sul.

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.

Paulo Cannabrava Filho Iniciou a carreira como repórter no jornal O Tempo, em 1957. Quatro anos depois, integrou a primeira equipe de correspondentes da Agência Prensa Latina. Hoje dirige a revista eletrônica Diálogos do Sul, inspirada no projeto Cadernos do Terceiro Mundo.

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