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Dependência dos EUA e ruína do euro farão da Europa versão ampliada de Porto Rico

Taxas de juros vão subir, desacelerando investimentos enquanto a zona do euro se transforma em ZEM, Zona Econômica Morta
Michael Hudson
The Vineyard of the Saker
Kansas City

Tradução:

Agora já se pode ver com clareza que a escalada atual da Nova Guerra Fria foi planejada há mais de um ano, com estratégia séria associada ao plano dos EUA para bloquear o gasoduto Nord Stream 2, como parte de seu objetivo de impedir a Europa Ocidental (a “OTAN”) de buscar prosperidade mediante comércio e investimentos mútuos com China e Rússia.

Como o presidente Biden e os relatórios de segurança nacional dos EUA anunciaram, a China estava definida como o principal inimigo. Apesar do papel útil que a China teve, ao permitir que os EUA corporativos reduzissem salários do trabalho, enquanto se desindustrializava a economia dos EUA em favor da industrialização chinesa, o crescimento da China foi apresentado como o Terror Supremo: alguém que alcançava a prosperidade pela via do socialismo

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A industrialização socialista sempre foi percebida como o grande inimigo da economia rentista que tomou conta da maioria das nações no século desde o fim da Primeira Guerra Mundial, e especialmente desde a década de 1980. 

O resultado hoje é um choque de sistemas econômicos – industrialização socialista versus capitalismo financeiro neoliberal.

Nova Guerra Fria contra a China

Isso faz da Nova Guerra Fria contra a China um ato implícito de deflagração do que ameaça ser uma longa Terceira Guerra Mundial. A estratégia dos EUA é afastar os aliados econômicos mais prováveis da China, especialmente Rússia, Ásia Central, Sul da Ásia e Leste Asiático. A questão era por onde começar a forçar o racha e o isolamento.

A Rússia pareceu ser a maior oportunidade para começar o racha, distanciando-a da China e também da eurozona da OTAN. Elaborou-se uma sequência de sanções cada vez mais severas contra a Rússia – que se esperava que fossem fatais –, para impedir que a OTAN negociasse com ela. Só faltava, para desencadear o terremoto geopolítico, um casus belli.

Não foi difícil arranjar o ‘item’ que faltava. A escalada da Nova Guerra Fria poderia ter sido lançada no Oriente Próximo – por resistência à apropriação dos campos de petróleo iraquianos pelos EUA, ou contra o Irã e os países que o ajudam a sobreviver economicamente, ou na África Oriental. Planos para golpes, revoluções coloridas e mudança de regime foram elaborados para todas essas áreas, e o exército dos EUA na África foi construído com extrema rapidez nos últimos dois anos.

Guerra civil apoiada pelos EUA

Mas a Ucrânia já padecia há oito anos sob uma guerra civil apoiada pelos EUA, desde o golpe de Maidan em 2014, e ali estava a chance para a maior primeira vitória neste confronto contra China, Rússia e seus aliados.

Assim, as regiões de língua russa de Donetsk e Luhansk foram bombardeadas com intensidade crescente e, quando a Rússia ainda se abstinha de responder, foram traçados planos para um grande confronto que começaria no final de fevereiro – a partir de um ataque ocidental ucraniano relâmpago [blitzkrieg] organizado por assessores dos EUA e armado pela OTAN.

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A defesa preventiva, pela Rússia, das duas províncias do leste ucraniano e a subsequente destruição militar, também pelos russos, de Exército, Marinha e Força Aérea ucranianas nos últimos dois meses foram usadas como desculpa para começar a impor o programa de sanções projetado pelos EUA que vemos desdobrar-se até hoje. 

A Europa Ocidental obedientemente seguiu em frente. Em vez de comprar gás, petróleo e grãos alimentícios dos russos, serão comprados dos EUA. E haverá acentuado aumento nas importações de armas.

Taxas de juros vão subir, desacelerando investimentos enquanto a zona do euro se transforma em ZEM, Zona Econômica Morta

Montagem
O euro que o dólar comeu




A iminente queda da taxa de câmbio Euro/Dólar

Assim sendo deve-se examinar como isso pode afetar a balança de pagamentos da Europa Ocidental e, portanto, a taxa de câmbio do euro em relação ao dólar.

O comércio e o investimento europeus antes da “Guerra para Impor Sanções” haviam prometido crescente prosperidade mútua entre Alemanha, França e outros países da OTAN em relação à Rússia e à China. A Rússia estava fornecendo energia abundante a preço competitivo, e essa energia daria um salto quântico, com o Nord Stream 2.

A Europa ganharia divisas para pagar esse crescente comércio de importação gerado por uma combinação de exportação de mais manufaturados industriais para a Rússia e investimento em capital no desenvolvimento da economia russa; por exemplo, por empresas automobilísticas alemãs e investimentos financeiros.

Esse comércio e o investimento bilateral estão agora parados – e permanecerão parados por muitos, muitos anos, uma vez que a OTAN confiscou as reservas estrangeiras da Rússia mantidas em euros e libras esterlinas, e espalha-se a russofobia, disseminada pela mídia de propaganda dos EUA.

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Os países da OTAN comprarão Gás Natural Liquefeito (GNL) dos EUA, mas só depois de o país gastar bilhões de dólares para construir capacidade portuária suficiente, o que pode demorar, provavelmente, até 2024 (com sorte).

A escassez de energia aumentará drasticamente o preço mundial do gás e óleo. Os países da OTAN também aumentarão suas compras de armas do complexo militar-industrial dos EUA. A compra quase em pânico também fará aumentar o preço das armas. E os preços dos alimentos também subirão, como resultado da desesperada escassez de grãos resultante da interrupção das importações da Rússia e da Ucrânia, por um lado; e da escassez de fertilizante de amônia feito a partir de gás.

Todas essas três dinâmicas comerciais fortalecerão o dólar em relação ao euro. A questão é: como a Europa equilibrará seus pagamentos internacionais com os EUA? O que ela tem para exportar que a economia dos EUA aceitará à medida que seus próprios interesses protecionistas ganham influência, agora que o livre comércio global está morrendo rapidamente? A resposta é: não tem grande coisa. Assim sendo, sem muito o que exportar, o que a Europa fará?

Posso, modestamente, propor uma ideia. Agora que a Europa praticamente deixou de ser um estado politicamente independente, está começando a se parecer mais com o Panamá e a Libéria – centros bancários offshore com “bandeira de conveniência”, que não são “estados” reais (porque não emitem moeda própria), mas usam o dólar americano. 

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Dado que a zona do euro foi criada com algemas monetárias para limitar a sua capacidade para criar dinheiro para gastar na economia além do limite de 3% do PIB, por que não joga a toalha financeira, simplesmente, e adota o dólar americano, como Equador, Somália e as Ilhas Turks and Caicos? Essa solução daria aos investidores estrangeiros segurança contra a depreciação da moeda em seu crescente comércio com a Europa e seu financiamento à exportação.

Para a Europa, a alternativa é deixar que exploda o custo em dólares de sua dívida externa para financiar o crescente déficit comercial com os EUA em petróleo, armas e alimentos. O custo em euros será ainda maior à medida que a moeda cair em relação ao dólar. As taxas de juros vão subir, desacelerando o investimento e tornando a Europa ainda mais dependente das importações. A zona do euro se transformará em ZEM, Zona Econômica Morta

Os EUA teriam aí a hegemonia do dólar super turbinada – pelo menos em relação à Europa. O continente se converteria em versão ligeiramente ampliada de Porto Rico.

O dólar em relação às moedas do Sul Global

A versão completa da Nova Guerra Fria desencadeada pela “Guerra da Ucrânia” corre o risco de se transformar na salva de abertura da Terceira Guerra Mundial, e provavelmente durará pelo menos uma década, talvez duas, enquanto os EUA estendem a luta entre neoliberalismo e socialismo, até que que vire conflito mundial. 

Além da conquista econômica da Europa, os estrategistas dos EUA procuram prender os países africanos, sul-americanos e asiáticos em redes semelhantes às planejadas para a Europa.

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O forte aumento nos preços da energia e dos alimentos atingirá duramente as economias com déficit de alimentos e de petróleo – ao mesmo tempo em que vencem as suas dívidas em dólares estrangeiros para detentores de títulos e bancos; e a taxa de câmbio do dólar sobe em relação às moedas nativas. 

Muitos países africanos e latino-americanos – especialmente o norte da África – enfrentam a escolha entre passar fome, reduzir o uso de gasolina e eletricidade ou tomar emprestado os dólares para cobrir sua dependência do comércio nos moldes dos EUA.

Tem-se falado de o FMI emitir novos Direitos Especiais de Saque, para financiar os crescentes déficits comerciais e de pagamentos dos estados-membros. Mas esse crédito sempre vem com amarras. O FMI tem sua própria política de sancionar países que não obedeçam à política dos EUA. 

A primeira exigência dos EUA será que esses países boicotem Rússia, China e sua aliança emergente de autoajuda em comércio e moeda. “Por que deveríamos dar a você Direitos Especiais de Saque ou conceder-lhes novos empréstimos em dólares, se vocês vão gastá-los na Rússia, China e outros países que declaramos inimigos?” – perguntarão as autoridades norte-americanas.

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Pelo menos, esse é o plano. Não me surpreenderia que algum país africano seja convertido em “a próxima Ucrânia”, com tropas por procuração dos EUA (ainda há muitos defensores e mercenários wahabistas) lutando contra os exércitos e populações de países que buscam alimentar-se com grãos de fazendas russas, e mover as respectivas economias com petróleo ou gás de poços russos – para não falar em participar da Iniciativa Estrada e Franja (“Rotas da Seda”) da China que foi, afinal, o gatilho para que os EUA lançassem sua nova guerra pela hegemonia neoliberal global.

A economia mundial está sendo inflamada, e os EUA se prepararam para resposta militar, usando como arma o próprio comércio de exportação de petróleo e agricultura, o comércio de armas e demandas de que os países escolham o lado da Nova Cortina de Ferro ao qual desejem juntar-se.

Mas o que haveria para a Europa, nisso tudo? Os sindicatos gregos já estão se manifestando contra as sanções impostas. E na Hungria, o primeiro-ministro Viktor Orban acaba de vencer a eleição apoiado num programa que, basicamente, é uma visão de mundo anti-UE e anti-EUA – a começar pelo pagamento em rublos, pelo gás russo. Quantos outros países desertarão do ‘bloco EUA’ – e quanto tempo falta para começar a debandada?

O que faltaria para os países do Sul Global serem sangrados e espremidos – não apenas como “dano colateral” no aprofundamento da escassez e maior aumento dos preços de energia e alimentos –, mas sendo a sangria do Sul Global o próprio objetivo da estratégia dos EUA, ao inaugurar a grande divisão da economia mundial em dois? 

A Índia já disse a diplomatas americanos que sua economia está naturalmente conectada à economia da Rússia e à economia da China. O Paquistão já faz o mesmo cálculo.

Do ponto de vista dos EUA, a única questão a ser respondida é: “O que há para os políticos locais e oligarquias clientes que recompensamos por entregar os países?”

Desde o início de seus planos, os estrategistas diplomáticos dos EUA viam a iminente Terceira Guerra Mundial como uma guerra de sistemas econômicos. Que lado os países escolherão: o lado do próprio interesse econômico e da coesão social, ou o lado da submissão a líderes políticos locais instalados no poder pela intromissão dos EUA – como os US$ 5 bilhões que a secretária de Estado adjunta Victoria Nuland gabou-se de ter investido há oito anos nos partidos neonazistas da Ucrânia, para iniciar a luta que resultou na guerra de hoje?

Diante de toda essa intromissão política e da propaganda da mídia, quanto tempo levará para que o resto do mundo perceba que há uma guerra global em andamento, com a Terceira Guerra Mundial já no horizonte? 

O verdadeiro problema é que quando o mundo entender o que está acontecendo, a fratura global já terá permitido à Rússia, China e Eurásia criar uma verdadeira Nova Ordem Mundial não neoliberal, que não precisa dos países da OTAN, que já não confia neles e perdeu a esperança de, com eles, alcançar ganhos econômicos. 

O campo da batalha militar estará coberto de cadáveres econômicos.

Michael Hudson é economista norte-americano, professor de economia na Universidade do Missouri do Kansas e pesquisador do Levy Economics Institute do Bard College. Ex-analista de Wall Street, consultor político, comentarista e jornalista.
Tradução por Vila Mandinga.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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