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Eleições 2022: Como esquerda pode contribuir com temas ainda não abordados por Lula

Obviamente, candidato vai privilegiar acordos com setores que estão à sua direita, pois a esquerda não tem qualquer alternativa a não ser apoiá-lo
Jean Marc von der Weid
Outras Palavras
Rio de Janeiro (RJ)

Tradução:

Em artigo anterior eu defendi a orientação que o ex-presidente Lula adotou para a sua campanha para voltar ao Planalto. Mas as opções de Lula ficam tremendamente limitadas pela estratégia de aglutinar todos que estão preocupados em barrar as cada vez mais evidentes intenções golpistas do energúmeno que nos preside.

Isto implica em juntar no mesmo saco eleitoral desde uma direita menos estúpida até a extrema esquerda, passando pelo cipoal de siglas de centro, centro direita e centro esquerda, todas elas inconsistentes e algumas parcialmente influenciadas pelo bolsonarismo. Lula vai ter que pisar em ovos o tempo todo para não desagradar tantas sensibilidades opostas.

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Obviamente, ele vai privilegiar os acordos com os setores que estão à sua direita, pois a esquerda não tem qualquer alternativa a não ser apoiá-lo. Mas, “se é para o bem do povo”, esta opção se justifica. A meu ver estamos reduzidos, neste embate eleitoral, a salvar o que resta da nossa combalida democracia e garantir espaço para conquistar maiores avanços no futuro. Como resumi no artigo passado: “estamos lutando para conservar espaço para lutar”.

O problema com essa estratégia é que Lula passa mais tempo acertando as pontas em negociações com esta turba complicada do que em campanha. Estar em campanha significa estar em contato com o povo, com o eleitorado, seja fisicamente em atos presenciais seja via mídia convencional, mas sobretudo via mídia eletrônica.

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O discurso do Lula até agora está chocho e sem rumo certo. E arrisca ficar assim até o final pelos cuidados que terá que tomar com a chusma de aliados mais à direita. O pior é que as eleições no Brasil já mostraram em várias ocasiões que o eleitorado não segue as alianças partidárias ou os acordos entre os líderes políticos.

O energúmeno se elegeu sem acordo com máquinas partidárias, Ulysses Guimarães teve uma votação ridícula com apoio do maior partido nas eleições de 1989, quando outro energúmeno, o Collor, arrastou maiorias com um micropartido.

Defendi que os temas chave para uma campanha são os ligados, genericamente, ao tema da economia. Traduzindo em miúdos: fome, inflação, desemprego, endividamento, empobrecimento. Em um segundo nível entram as questões de saúde onde ainda se pode explorar a péssima performance do Bozo na pandemia, mas sobretudo apontar para a fragilidade do SUS e a necessidade de melhorar a medicina preventiva, no que tange às questões de saneamento e nutrição.

A questão da moradia é outro drama popular a ser enfrentado e interessa a pelo menos 7 milhões de famílias morando em habitações precárias. O tema da educação toca sobretudo pela necessidade de se ampliar o tempo de permanência na escola, com horários próximos da integralidade. Isto permite oferecer três refeições para a garotada e mais tempo de ensino e de lazer/esportes, fora da rua e das tentações do tráfico. E começar por oferecer creches para todas as crianças de zero a cinco anos.

Temos que bater nestes temas com a maior ênfase, resgatando o que de bom houve nos governos de Lula e de Dilma, mas sem cair na tentação de dourar a pílula. O povo sabe o que houve de bom e o que não houve e percebe muito bem quando lhe vendem “terrenos no céu”.

Obviamente, candidato vai privilegiar acordos com setores que estão à sua direita, pois a esquerda não tem qualquer alternativa a não ser apoiá-lo

Outras Palavras
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Embora eu ache que os temas relacionados com a defesa da democracia não tendem a sensibilizar o povão, Lula vai ter que assumir a defesa das liberdades e das instituições democráticas e denunciar as intenções golpistas do presidente e seus aliados militares e milicianos.

A comunicação da campanha de Lula vai ter que se desdobrar para apresentar a questão da democracia lincada com os temas da “economia”, mostrando que sem liberdade e instituições independentes na República não vai ser possível enfrentar os problemas básicos como fome, desemprego, endividamento, carestia, moradia etc. E seria muito bom se o Lula parasse de se enrascar politicamente na defesa da Nicarágua, Cuba, Rússia, Venezuela.

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Mas se Lula está e vai ficar inibido nos seus pronunciamentos, não há razões para a militância dos partidos de esquerda, dos movimentos sociais, ambientalistas e identitários limitar as suas campanhas aos mesmos cuidados do candidato à presidência.

Ao contrário, vai ser fundamental uma forte investida em aprofundar temas que vão ficar na surdina da campanha de Lula. E mesmo ir mais fundo naqueles temas que o Lula deve priorizar. Temos que identificar candidatos a deputado federal e estadual, senadores e governadores que assumam posturas mais vinculadas a temas fundamentais para o futuro do país, independente de desagradarem os aliados à direita de Lula.

Luta da esquerda

A luta da esquerda deve ser a busca por mais espaços políticos com maior conteúdo na Câmara Federal e no Senado, bem como nas Assembleias Legislativas e nos governos Estaduais.

A agenda terá que falar ao eleitor mais ferrado pelo extremo desacerto destes quatro anos de desgoverno. Os temas relacionados com o que se chama, de forma geral, de “assuntos econômicos” deverão ser priorizados, mas sem os cuidados tomados pelo presidente em função de seus aliados.

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Por exemplo: Lula dificilmente vai apontar a responsabilidade do agronegócio na nossa crise alimentar, que atinge a bagatela de 117 milhões de brasileiros. Ele vai propor aumentos no Bolsa Família, aumentos no Programa de Alimentação Escolar e no Programa de Aquisição de Alimentos. Isto está correto, mas não basta.

A esquerda deveria mostrar que a solução para o problema da fome e da insegurança alimentar passa, a médio e longo prazos, pela Reforma Agrária e pelo reforço da agricultura familiar, com a paulatina expansão da adoção da agroecologia como padrão produtivo.

Agrotóxicos, armamento, racismo estrutural…

Lula não vai condenar o uso indiscriminado de agrotóxicos, mas a esquerda e os movimentos sociais do campo e os dos consumidores deveriam aprofundar o tema e propor a retirada dos subsídios para o uso dos venenos e medidas para a sua substituição por produtos biológicos.

Lula vai certamente tratar da questão do armamento da população (da bandidagem e das milícias, na verdade) e rever esta política insana. Mas será que ele vai tratar do assunto mais espinhoso do massacre do povo negro pelas polícias?

Tudo bem que segurança pública não é um assunto federal, mas o “fenômeno” tem que ser combatido em todos os níveis. Não seria o caso de defender uma legislação nacional impondo o uso de aparelhos que registrem a ação das polícias, cujo efeito em São Paulo foi tão importante para diminuir a mortalidade das abordagens policiais? 

“Vidas negras importam” deveria ser uma consigna nacional nesta campanha, tal a generalidade da violência contra os negros no país. Se Lula não adotar este tema na sua campanha por pressão de seus novos parceiros nada impede de ele ser uma opção importante para a campanha da sociedade civil.]

Questão ambiental

A questão ambiental tem duas entradas importantes. A primeira é conter e reverter os desmatamentos e queimadas em todos os biomas, e não só na Amazônia. Esta questão provoca reações no agronegócio, mas até onde posso perceber, não no segmento que Lula tenta atrair e que será, de qualquer forma, sempre muito reduzido.

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Junto com queimadas e desmatamento a questão do garimpo ilegal vai ser de grande importância para o país, embora com pouca ressonância eleitoral. A segunda questão tem a ver com a questão da sanidade básica e o tratamento de lixo e esgoto, mais palatável para a candidatura de Lula e com menores áreas de atrito com seus novos parceiros.

Grilagem e garimpo

O problema para Lula no caso do controle da grilagem, desmatamentos e queimadas e do garimpo ilegal vai aparecer na hora de atuar, se e quando for eleito. A bandidagem assumiu estas atividades como forma de lavagem de dinheiro e tem centenas de milhares de pessoas envolvidas, muitas armadas.

O garimpo ilegal adotou formas de ação da maior ousadia, com o beneplácito do energúmeno, chegando a ações terroristas como destruir helicópteros do IBAMA. Embora não seja algo que exija mais do que garantir a aplicação das leis hoje vigentes, o controle destas atividades vai provocar uma verdadeira guerra de guerrilhas na Amazônia.

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Outros temas de importância para o país e para a esquerda nesta campanha se relacionam com os direitos das mulheres, dos povos indígenas e da população LGBTQI+. Lula não vai tocar nestes assuntos para não afligir os evangélicos e católicos conservadores que ele quer atrair, mas não precisamos assumir estes limites e temos que falar para esta massa de eleitores.

Lula se manifestou de forma correta sobre o tema do aborto e foi crucificado pela mídia virtual. Seus aliados e até muitos petistas consideraram um erro ter se manifestado sobre um tema que não diz respeito, teoricamente, a uma política presidencial e sim um assunto para o Congresso. Mas em um país presidencialista como o nosso, tudo tem a ver com iniciativas do primeiro mandatário.

Concordo que o Lula seja prudente neste tema para não dar pretexto a pregações condenatórias nos púlpitos de igrejas e templos (é um sinal do atraso neste debate), mas a questão, como ele mesmo diz, é de saúde pública.

Na ausência de um candidato que assuma um programa de salvação nacional coerente e profundo, teremos que fazer campanhas temáticas segmentadas, mas é o que podemos fazer para ampliar espaços eletivos mais progressistas. Temo que isto fragilize o nosso campo, pois deixamos de ter uma coerência maior por uma política de mudanças necessárias e estaremos a contracorrente ou marginais ao discurso do nosso candidato principal. Mas é o que podemos fazer.

Jean Marc von der Weid é um economista agrícola e ambientalista brasileiro. Foi presidente da UNE, entre 69/71. É fundador da organização não governamental Agricultura Familiar e Agroecologia (ASTA) e ex-membro do CONDRAF/MDA 2004/2016.



As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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