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Fascistas nas ruas, serviço público precário e prefeito negligente: Porto Alegre volta a 1964

Logicamente, tensão vivida em na capital do RS em 2022 é muito menor do que há 6 décadas, mas nem por isso menos violenta e letal
Amaro Augusto Dornelles
Diálogos do Sul Global
São Paulo (SP)

Tradução:

Nas ruas, praças, shoppings, onde quer que se ande, as pessoas seguem sestras, a eletricidade está no ar. O prefeito Sebastião Melo é uma calamidade pública para os pobres – a exemplo de seu mito destronado – e só piora a situação deixando os serviços básicos na penúria. A bordo de carros enormes, uma elite de empresários, herdeiros e capitalistas continuam soltos – mas não por muito tempo, ao que tudo indica. Saiba como e por que a partir de agora.

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Porto Alegre tem estimados 1492 mil moradores, distribuídos em pouco menos de 500 mil km². Tem a forma de um dedo esticado, a flutuar no Rio Guaíba. O Centro da cidade fica perto da orla. O quadrilátero central, da praça da Matriz, é cercado pela Assembleia Legislativa – Palácio Piratini – Catedral Metropolitana, Teatro São Pedro e Biblioteca Municipal. Momentos cruciais da história do Brasil e do Rio Grande tiveram tal cenário como pano de fundo. 

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A resistência do governador Leonel Brizola, em 1963, é um bom exemplo. O então governador transformou os subterrâneos do Piratini em estúdio da Rádio da Legalidade, para conclamar o Brasil a garantir a posse de João Goulart na presidência, depois da renúncia de Jânio Quadros, na Cadeia da Legalidade.

Para resistir ao ataque dos militares golpistas, Leonel Brizola cercou o Palácio Farroupilha e distribuiu armas à população civil disposta a enfrentar a banda golpista do exército inimigo da democracia. É importante lembrar: entre 63/64, Porto Alegre vivia um frenesi. Lincoln Gordon, embaixador dos Estados Unidos no Brasil, era o centro operacional do golpe norte-americano.

Ele morreu jurando que a quartelada fora 100% brasileira. Só que documentos liberados pelo Capitólio expuseram carta sua enviada à Casa Branca. Nela, o espião disfarçado de embaixador ianque alerta para a tensão nas ruas da capital gaúcha, além de comparar a tensão coletiva em Porto Alegre ao frenesi vivido em Nova Iorque depois da repercussão do filme Cidadão Kane (de Orson Welles), que tratava da invasão de discos voadores.

Logicamente, tensão vivida em na capital do RS em 2022 é muito menor do que há 6 décadas, mas nem por isso menos violenta e letal

Joana Berwanger – Sul21
Leonael Radde: Estão cometendo um crime previsto no código penal, que é não aceitar o resultado das eleições democráticas




Feira do Livro: atentado a crianças

É lógico que a tensão vivida em Porto Alegre em 2022 é muito menor do que antanho. Mas nem por isso menos violenta, letal. O número de agressões, crimes, desinteligência, em áreas públicas, comércio, serviço, é absurdo. E como o vereador eleito deputado estadual do PT, Leonel Radde, já explicou aqui na Revista Diálogos do Sul, o interesse político prevalece quase sempre na hora de atender ocorrências – e eventualmente até divulgá-las.

Ao completar 250 anos, a Feira do Livro 2022 é um dos maiores orgulhos do porto-alegrense. Este ano ela rola entre a sexta-feira de 29 de outubro e a segunda de 15 de novembro. Sua história jamais registrou briga, discussão ou desavenças. Isso, até o ressentimento pela ausência de educação e cultura subir ao Planalto e instaurar o arremedo de um regime nazifascista. Leonel Radde lembra: “Os fascistas que estavam acampados no centro da capital promoveram o terror durante uma peça de TEATRO INFANTIL (!) que aconteceu na Feira do Livro de Porto Alegre”.

Eduardo Leite nem reassumiu governo do RS e Porto Alegre já virou um inferno

Enquanto os artistas do espetáculo “Aladdin”, da Cia. Ronald Radde (brizolista, do Grupo dos 11, pai de Leonel, dramaturgo consagrado) tentavam se apresentar para o público infantil, fascistas de ascendência alemã e italiana, (a maioria) disfarçados de patriotas verde/amarelos, desfilavam ao redor da Praça da Alfândega buzinando, com seus carros de suspensão alta como tanques de guerra. A esquadrilha desceu, agrediu pessoas, clamando aos berros pela intervenção militar. Além de deixarem dezenas de crianças assustadas e aos prantos, ainda amedrontaram os artistas na hora de deixar o local, denuncia o vereador caçador de extremistas.


Fascistas punidos

“Alexandre de Moraes já deu a mensagem: quem está na rua pedindo intervenção militar, indo pra frente de quartel, esperando intervenção militar em 72h, está numa viagem perigosa”, adverte. E segue: “Na verdade, eles estão cometendo um crime previsto no código penal, são pessoas que estão cometendo crime muito claro, que é não aceitar o resultado das eleições democráticas. E exigir deposição de um governo legitimamente eleito muito menos. Para o vereador do PT, “tu não pode ameaçar, nem cogitar”. E lembra a existência de uma lei – talvez as pessoas não conheçam – a Lei do Estado Democrático de Direito: “Ela inclui novos crimes no Código Penal. E tais pessoas, sim, estão cometendo crimes. Esse é o ponto chave”, diz ele, sem esconder profunda irritação: 

“Vejam bem, nós mesmos, do PT, perdemos agora a eleição para o governo do Estado. De forma democrática, fizemos campanha para o Eduardo Leite – nosso grande antagonista. Em 2018, perdemos de uma forma dramática para Bolsonaro depois do golpe a Dilma Rousseff, processo muito dolorido. Ninguém foi pra rua contestar a Lava Jato. Mas ninguém foi pra rua contestar o resultado da eleição do Bolsonaro.”

Sexta-feira, 30 de setembro de 2022. Sentado no banco de uma parada de ônibus, leio notícias filtradas pelo jornal Zero Hora, excelente diagramação e fotos. Tem monopólio em todo o estado, assim como a rádio Gaúcha e a RBS TV. Noticiário mais tendencioso do que “Falha de SP” ou “O Globo”. Sou interrompido por uma rápida buzinada. É que acaba de estacionar um ‘carrão super-master’. Todo preto enorme, reluzente. Vidros fumê. A porta abre violentamente e dela sai uma criatura de altura colossal.


“Tião Medonho”

Tez clara, cabelos amarelos, ralos. Antes que eu voltasse ao jornal, o ser, de 30 anos no máximo, berrou: “Tá com pressa, vagabundo, tá com pressa, quer que eu te arrebente?”. O motorista, idoso, amarrado pelo cinto de segurança, olhos arregalados, olhava, atônito, o brutamontes vociferar. O fascista não se furtou de ameaçar: “Tu quer experimentar meu 38?”. Os motoristas, que já formavam fila, sem buzinar, tratavam de manobrar e sair correndo.

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É ultrajante ver tamanha aberração sem nada fazer. Depois de humilhar um homem indefeso, o ogro fechou a porta de seu carro bélico e saiu silencioso como cisne na lagoa. Absorto enquanto observava o movimento do trânsito, fui interpelado por uma menina de uniforme escolar. Me fez voltar à crua realidade: “Moço(!), só pro sr. saber: ônibus aqui é só de duas em duas horas”.

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O bairro da Floresta – de classe média, com comércio, restaurantes, shoppings – tem ônibus só de duas em duas horas. Bom, morei em Porto por uns 26 anos. Jamais tive notícia de linha de ônibus com intervalo de duas horas na região do centro expandido. Quem depende de transporte público está possesso com o prefeito. A eletricidade no ar é produto da forma bolsonariana pela qual “Tião Medonho” administra a urbe.


Prefeito Calamidade

Na verdade, o prefeito Sebastião Melo (MDB) é calamidade pública. Está reduzindo a circulação da frota. E aos poucos, privatizando e acabando com os ônibus da cidade. Aí entra o narrador de futebol do Grupo RBS: diretor campeão de audiência em programa de rádio, dia sim outro também ele bajula ‘Tião’ como se fosse santo.

A 5 dias da eleição, Mello tentou acabar com o passe livre – tradição na capital há 30 anos. Depois de ‘apanhar’ até da RBS, o ‘prefeitola’ teve de voltar atrás por causa do Ministério Público. PA virou banguela: calçadas, que já foram de granito e até mármore, hoje estão quebradas ou simplesmente ausentes. Obras – como em frente ao Mercado Público, centro de comércio popular – estão paradas há dois, três anos. “Caso de cadeia”, comenta, irônico, Radde. 

Nota do Autor: A tensão permanece no ar em Porto Alegre, mesmo passado o pleito. Ela segue surda e muda, flutua no ar. Até explodir do nada. 

MÊS DE CÃES DANADOS - Moacyr Scliar”Agosto, Mês de Cães Danados”, de Moacyr Scliar – L&PM Pocket. Narrativa dos últimos dias de agosto de 1961, após a renúncia de Jânio Quadros. Sob incertezas e ameaças, João Goulart, apoiado por Brizola, assume a Presidência da República. Texto tenso, nervoso, cativa o leitor até o fim.

* * *

Este texto completa uma série de três reportagens sobre a situação de Porto Alegre (RS) sob a ótica do deputado estadual Leonel Radde (PT). Confira também Leonel Radde: o deputado e policial antifascista na mira da extrema-direita de Porto Alegre e Eduardo Leite nem reassumiu governo do RS e Porto Alegre já virou um inferno.

Amaro Augusto Dornelles | Colaborador da Diálogos do Sul.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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