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Nord Stream: Reportagem descreve como EUA explodiram gasoduto russo

Investigação conduzida pelo premiado jornalista Seymour Hersh, especializado em assuntos militares, também aponta participação da Noruega
Seymour Hersh
Seymour Hersh - Substack
Chicago

Tradução:

Atualizada em 09.02.2023, às 19h14

O Centro de Mergulho e Salvamento da Marinha dos EUA pode ser encontrado em um local tão obscuro quanto seu nome – no que antes era uma estrada na zona rural de Panama City, uma cidade turística em expansão no sudoeste da Flórida, pouco mais de 100 quilômetros ao sul da fronteira com o estado do Alabama.

A estrutura física do centro é tão indefinida quanto sua localização – uma estrutura monótona de concreto estilo pós-Segunda Guerra Mundial que tem a aparência de uma escola vocacional no lado oeste de Chicago. Uma lavanderia operada por moedas e uma escola de dança ficam do outro lado do que hoje é uma estrada de quatro pistas.

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O centro tem treinado mergulhadores de águas profundas altamente qualificados há décadas que, uma vez designados para unidades militares americanas em todo o mundo, são treinados para realizar mergulhos técnicos para fazer o bem – usando explosivos C4 para limpar portos e praias de detritos e munições não detonadas – bem como o mal, como explodir plataformas de petróleo estrangeiras, entupir válvulas de admissão de usinas submarinas, destruir eclusas em canais de navegação cruciais.

O Centro de Mergulho de Panama City, que possui a segunda maior piscina coberta dos Estados Unidos, foi o lugar perfeito para recrutar os melhores e mais discretos graduados da escola de mergulho – que fizeram com sucesso no verão passado o que haviam sido autorizados a fazer a 80 metros de profundidade no Mar Báltico.

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Em junho passado, os mergulhadores da Marinha dos EUA, operando sob a cobertura de um exercício de treinamento da OTAN amplamente divulgado em pleno verão, conhecido como BALTOP 22, plantou os explosivos acionados remotamente que, três meses depois, destruíram três dos quatro gasodutos Nord Stream, segundo uma fonte com conhecimento direto do planejamento operacional.

Dois dos gasodutos, conhecidos coletivamente como Nord Stream 1, vinham fornecendo à Alemanha e grande parte da Europa Ocidental gás natural russo barato por mais de uma década. Um segundo par de gasodutos, chamado Nord Stream 2, foi construído, mas ainda não estava operacional.

Agora, conforme as tropas russas se concentram na fronteira ucraniana e a guerra mais sangrenta na Europa desde 1945 se aproxima, o presidente Joseph Biden viu os gasodutos como um veículo para Vladimir Putin transformar o gás natural em armas para suas ambições políticas e territoriais.

Solicitada a comentar, Adrienne Watson, porta-voz da Casa Branca, disse em um e-mail: “Isso é uma ficção falsa e completa”. Tammy Thorp, porta-voz da Agência Central de Inteligência (CIA), escreveu da mesma forma: “Esta afirmação é totalmente falsa”.

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Manuel Ernst
Nenhum grande jornal estadunidense investigou as ameaças anteriores aos gasodutos feitas por Biden e a subsecretária de Estado, Nuland

Sabotagem

A decisão de Biden de sabotar os gasodutos ocorreu após mais de nove meses de debates altamente secretos dentro da comunidade de segurança nacional de Washington sobre a melhor forma de atingir esse objetivo. Durante grande parte desse tempo, a questão não era se missão deveria ser feita, mas como realizá-la sem deixar nenhuma pista clara de quem é o responsável.

Havia uma razão burocrática vital para confiar nos graduados da escola de mergulho do centro de Panama City. Os mergulhadores eram apenas da Marinha, e não membros do Comando de Operações Especiais dos Estados Unidos, cujas operações secretas devem ser relatadas ao Congresso e informadas com antecedência à liderança do Senado e da Câmara – a chamada Gangue dos Oito [que reúne quatro membros de cada uma das casas]. A administração Biden estava fazendo todo o possível para evitar vazamentos, pois o planejamento ocorreu entre o final de 2021 e os primeiros meses de 2022.

O presidente Biden e sua equipe de política externa — o conselheiro de Segurança Nacional Jake Sullivan, o secretário de Estado Tony Blinken e Victoria Nuland, a subsecretária de Estado para Políticas — manifestaram consistentemente sua hostilidade aos dois gasodutos, que funcionaram lado a lado por 1.200 quilômetros sob o Mar Báltico ligando dois portos diferentes no nordeste da Rússia, perto da fronteira com a Estônia, passando perto da ilha dinamarquesa de Bornholm antes de chegar ao norte da Alemanha.

A rota direta, que evitou qualquer necessidade de passar pela Ucrânia, foi uma benção para a economia alemã, que desfrutou de uma abundância de gás natural russo barato – o suficiente para operar suas fábricas e aquecer suas casas enquanto permitia que os distribuidores alemães vendessem o excesso de gás, a preços acessíveis, com lucro, para toda a Europa Ocidental. Uma ação que pudesse ser atribuída ao governo estadunidense seria uma violação das promessas dos EUA de minimizar o conflito direto com a Rússia. O sigilo era essencial.

Ameaça ao domínio ocidental

Desde seus primeiros dias, o Nord Stream 1 foi visto por Washington e seus parceiros anti-russos da OTAN como uma ameaça ao domínio ocidental. A holding que estava por trás, Nord Stream AG, foi constituída na Suíça em 2005 em parceria com a Gazprom, uma empresa russa de capital aberto que entrega enormes lucros para os acionistas e é dominada por oligarcas conhecidos por serem da corte de Putin.

A Gazprom controlava 51% da empresa, com quatro empresas europeias de energia — uma na França, uma na Holanda e duas na Alemanha — compartilhando os 49% restantes das ações e tendo o direito de controlar as vendas do gás natural barato para distribuidores locais na Alemanha e na Europa Ocidental. Os lucros da Gazprom foram compartilhados com o governo russo, e as receitas estatais de gás e petróleo, em alguns anos, foram estimadas em não menos que 45% do orçamento anual da Rússia.

Os temores políticos dos Estados Unidos eram reais: Putin teria agora uma enorme e desejada fonte de renda adicional, e a Alemanha e toda a Europa Ocidental ficariam viciadas em gás natural barato fornecido pela Rússia – diminuindo a dependência europeia dos Estados Unidos. Na verdade, foi exatamente isso que aconteceu.

Muitos alemães viram o Nord Stream 1 como parte da libertação da famosa Teoria da Ostpolitik do ex-chanceler Willy Brandt, o que permitiria à Alemanha do pós-guerra reabilitar a si mesma e a outras nações europeias destruídas na Segunda Guerra Mundial, entre outras iniciativas, utilizando gás russo barato para abastecer o próspero mercado e economia da Europa Ocidental.

Opinião da OTAN

O Nord Stream 1 era bastante perigoso, na opinião da OTAN e de Washington, mas o Nord Stream 2, cuja construção foi concluída em setembro de 2021, se fosse aprovado pelos reguladores alemães, dobraria a quantidade de gás barato que estaria disponível para a Alemanha e a Europa Ocidental.

O segundo gasoduto também forneceria gás suficiente para mais de 50% do consumo anual da Alemanha. As tensões aumentavam constantemente entre a Rússia e a OTAN, apoiadas pela agressiva política externa do governo Biden.

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A oposição ao Nord Stream 2 explodiu na véspera da posse de Biden em janeiro de 2021, quando os republicanos do Senado, liderados por Ted Cruz, do Texas, levantaram repetidamente a ameaça política do gás natural russo barato durante a audiência de confirmação de Blinken como Secretário de Estado.

A essa altura, um Senado unificado havia aprovado com sucesso uma lei que, como Cruz disse a Blinken, “interrompeu [o gasoduto] em seu caminho”. Haveria uma enorme pressão política e econômica do governo alemão, então chefiado por Angela Merkel, para colocar o segundo gasoduto em operação.

Enfrentamento

Biden enfrentaria os alemães? Blinken disse que sim, mas acrescentou que não tinha discutido os detalhes das opiniões do novo presidente. “Eu conheço sua forte convicção de que esta é uma má ideia, o Nord Stream 2”, disse ele. “Eu sei que ele quer que usemos todas as ferramentas persuasivas que temos para convencer nossos amigos e parceiros, incluindo a Alemanha, a não seguir em frente com isso.”

Alguns meses depois, quando a construção do segundo oleoduto estava quase concluída, Biden pestanejou [blinked]. Naquele mês de maio, em uma reviravolta impressionante, o governo renunciou às sanções contra a Nord Stream AG, e um funcionário do Departamento de Estado reconheceu que tentar barrar o oleoduto por meio de sanções e diplomacia “sempre foi uma hipótese remota”. Nos bastidores, funcionários do governo supostamente instaram o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, então diante da ameaça de invasão russa, a não criticar essa medida.

Houve consequências imediatas. Os senadores republicanos, liderados por Cruz, anunciaram um bloqueio imediato de todos os indicados de política externa de Biden e atrasaram a aprovação do projeto de lei anual de defesa por meses.

O site Politico mais tarde retratou a reviravolta de Biden relativa ao segundo gasoduto russo como “a decisão, mais até do que a caótica retirada militar do Afeganistão, que colocou em perigo a agenda de Biden”.

Solavancos

O governo seguia aos solavancos, apesar de ter conseguido um adiamento da crise em meados de novembro, quando os reguladores de energia da Alemanha suspenderam a aprovação do gasoduto Nord Stream 2. O preço do gás natural subiu 8% em poucos dias, em meio a temores crescentes na Alemanha e na Europa de que a suspensão do gasoduto e a crescente possibilidade de uma guerra entre a Rússia e a Ucrânia levariam a um muito indesejado inverno frio.

Não estava claro para Washington exatamente qual era a posição de Olaf Scholz, o recém-nomeado chanceler da Alemanha. Meses antes, após a queda do Afeganistão, Scholtz havia endossado publicamente o apelo do presidente francês Emmanuel Macron por uma política externa europeia mais autônoma em um discurso em Praga – sugerindo claramente menos confiança em Washington e suas ações intempestivas.

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Por todo esse tempo, as tropas russas foram se acumulando de forma constante e ameaçadora nas fronteiras da Ucrânia e, no final de dezembro, mais de 100 mil soldados estavam em posição de atacar da Bielorrússia e da Crimeia. O alarme estava crescendo em Washington, incluindo uma avaliação de Blinken de que o número de combatentes poderia ser “dobrado em curto prazo”.

A atenção da administração mais uma vez se concentrou no Nord Stream. Enquanto a Europa permanecesse dependente dos gasodutos de gás natural barato, Washington temia que países como a Alemanha relutassem em fornecer à Ucrânia o dinheiro e as armas necessárias para derrotar a Rússia.

Foi nesse momento agitado que Biden autorizou Jake Sullivan a reunir um grupo interagências para elaborar um plano.

Todas as opções deveriam estar sobre a mesa. Mas apenas uma surgiria.

Planejamento

Em dezembro de 2021, dois meses antes dos primeiros tanques russos adentrarem a Ucrânia, Jake Sullivan convocou uma reunião de uma força-tarefa recém-criada — homens e mulheres do Estado-Maior Conjunto, da CIA e dos Departamentos de Estado e do Tesouro — e pediu recomendações sobre como responder à iminente invasão de Putin.

Seria a primeira de uma série de reuniões ultrassecretas, em uma sala segura no último andar do Old Executive Office Building, adjacente à Casa Branca, que também abrigava o Conselho Consultivo do Presidente para Inteligência sobre Assuntos Estrangeiros (PFIAB).

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Houve a habitual conversa introdutória que acabou levando a uma questão preliminar crucial: a recomendação encaminhada pelo grupo ao presidente deveria ser reversível — como outra camada de sanções e restrições monetárias — ou irreversível — isto é, ações cinéticas, algo que não poderia ser desfeito?

O que ficou claro para os participantes, de acordo com a fonte com conhecimento direto do processo, é que Sullivan pretendia que o grupo apresentasse um plano para a destruição dos dois gasodutos Nord Stream — e que ele cumpria os desejos do Presidente.

Da esquerda para a direita: Victoria Nuland, Anthony Blinken e Jake Sullivan.

Nas várias reuniões que se seguiram, os participantes debateram as alternativas de ataque. A Marinha propôs o uso de um submarino recém-comissionado para atacar diretamente o gasoduto. A Força Aérea discutiu o lançamento de bombas com fusíveis retardados que poderiam ser ativados remotamente. A CIA argumentou que o que quer que fosse feito, teria que ser secreto. Todos os envolvidos entenderam o que estava em jogo. “Isso não é coisa de criança”, disse a fonte. Se fosse possível rastrear o ataque chegando aos Estados Unidos, seria “um ato de guerra”.

Na época, a CIA era dirigida por William Burns, um delicado ex-embaixador na Rússia que havia servido como vice-secretário de Estado no governo Obama. Burns rapidamente autorizou um grupo de trabalho da agência, tendo entre os membros ad hoc – por acaso – alguém que era familiarizado com as capacidades dos mergulhadores de águas profundas da Marinha do centro de Panama City. Nas semanas seguintes, membros do grupo de trabalho da CIA começaram a elaborar um plano para uma operação secreta que usaria mergulhadores de águas profundas para desencadear uma explosão ao longo do oleoduto.

Precedentes

Algo assim já havia sido feito antes. Em 1971,  a comunidade de inteligência estadunidense soube, por meio de fontes ainda não reveladas, que duas importantes unidades da Marinha russa estavam se comunicando através de um cabo submarino enterrado no Mar de Okhotsk, na costa leste da Rússia. O cabo ligava um comando regional da Marinha ao quartel-general continental em Vladivostok.

Uma equipe de agentes da CIA e da NSA [Agência Nacional de Segurança] escolhidos a dedo foi reunida em algum lugar na área de Washington, sob profundo sigilo, e elaborou um plano – usando mergulhadores da Marinha, submarinos modificados e um veículo de resgate submarino em águas profundas – que teve sucesso, após muita tentativa e erro, na localização do cabo russo. Os mergulhadores plantaram um sofisticado dispositivo de escuta no cabo que interceptou com sucesso as mensagens russas, que passaram a ser gravadas em um sistema de fita.

A NSA descobriu que oficiais superiores da marinha russa, convencidos da segurança de seu canal de comunicação, conversavam com seus pares sem criptografia. O dispositivo de gravação e sua fita tiveram que ser substituídos mensalmente e o projeto prosseguiu alegremente por uma década, até que foi arruinado por um técnico civil da NSA, de 44 anos, chamado Ronald Pelton, que era fluente em russo. Pelton foi traído por um desertor russo em 1985 e condenado à prisão. Ele recebeu apenas US$ 5 mil dos russos por suas revelações sobre a operação, além de US$ 35 mil por outros dados operacionais russos que ele forneceu e nunca foram tornados públicos.

Esse sucesso subaquático, de codinome Ivy Bells, foi inovador e arriscado, e produziu inteligência inestimável sobre as intenções e os planos da Marinha russa.

Entusiasmo

Ainda assim, o grupo interagências estava inicialmente cético em relação ao entusiasmo da CIA por um ataque secreto em alto mar. Havia muitas perguntas sem resposta. As águas do Mar Báltico eram fortemente patrulhadas pela Marinha russa e não havia plataformas de petróleo que pudessem servir como cobertura para uma operação de mergulho. Os mergulhadores teriam que ir para a Estônia, do outro lado da fronteira das docas de carregamento de gás natural da Rússia, para treinar para a missão? “Seria um fiasco”, disseram à CIA.

Durante “toda essa maquinação”, disse a fonte, “alguns funcionários da CIA e do Departamento de Estado diziam: ‘Não façam isso. É estúpido e será um pesadelo político se vier a público’.”

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No entanto, no início de 2022, o grupo de trabalho da CIA relatou ao grupo interagências de Sullivan: “Temos uma maneira de explodir os oleodutos”.

O que veio a seguir foi impressionante. Em 7 de fevereiro, menos de três semanas antes da aparentemente inevitável invasão russa da Ucrânia, Biden se reuniu em seu escritório na Casa Branca com o chanceler alemão Olaf Scholz, que, depois de vacilar um pouco, agora se posicionava firmemente no time americano. Na coletiva de imprensa que se seguiu, Biden disse desafiadoramente: “Se a Rússia invadir… não haverá mais Nord Stream 2. Vamos acabar com isso.”

Vinte dias antes, a subsecretária Victoria Nuland manifestara essencialmente a mesma mensagem em uma reunião do Departamento de Estado, com pouca cobertura da imprensa. “Quero ser muito clara com vocês hoje”, disse ela em resposta a uma pergunta. “Se a Rússia invadir a Ucrânia, de uma forma ou de outra o Nord Stream 2 não avançará.”

Vários dos envolvidos no planejamento da missão do gasoduto ficaram consternados com o que consideraram referências indiretas ao ataque.

“Foi como colocar uma bomba atômica no solo de Tóquio e dizer aos japoneses que vamos detoná-la”, disse a fonte. “O plano era que as alternativas fossem executadas após a invasão e não anunciadas publicamente. Biden simplesmente não entendeu ou ignorou”.

Indiscrição

A indiscrição de Biden e Nuland, se é que se tratou disso, pode ter frustrado alguns no grupo de planejamento. Mas também criou uma oportunidade. Segundo a fonte, alguns dos altos funcionários da CIA determinaram que explodir o gasoduto “não poderia mais ser considerado uma alternativa secreta porque o presidente acabava de anunciar que sabíamos como fazê-lo”.

O plano para explodir os Nord Stream 1 e 2 foi repentinamente rebaixado de operação secreta que exigia que o Congresso fosse informado para ser considerada uma operação de inteligência de classificação alta com apoio militar dos EUA. De acordo com a lei, explicou a fonte, “Não havia mais uma exigência legal de relatar a operação ao Congresso. Tudo o que eles tinham que fazer agora era apenas realizá-la — mas ainda assim tinha que ser secreta. Os russos têm uma vigilância superlativa do Mar Báltico”.

Rússia repudia acusações e ameaças de sanções incluídas em acordo entre Estados Unidos e Alemanha

Os membros do grupo de trabalho da CIA não tinham contato direto com a Casa Branca e estavam ansiosos para descobrir se o presidente estava falando sério — ou seja, se a missão estava em andamento. A fonte recordou: “Bill Burns volta e diz: ‘Vão em frente’.”

“A marinha norueguesa foi rápida em encontrar o local certo, nas águas rasas a alguns quilômetros da ilha de Bornholm, na Dinamarca…”

A operação

A Noruega era o lugar perfeito para basear a missão.

Nos últimos anos da crise entre Oriente e Ocidente, os militares dos EUA expandiram enormemente sua presença na Noruega, cuja fronteira ocidental se estende por 2.250 quilômetros ao longo do norte do Oceano Atlântico e se funde acima do Círculo Polar Ártico com a Rússia. O Pentágono criou empregos e contratos com altos salários, em meio a alguma controvérsia local, investindo centenas de milhões de dólares para atualizar e expandir as instalações da Marinha e da Força Aérea americana na Noruega.

Os novos trabalhos incluíam, com a maior importância, um avançado radar de abertura sintética bem ao norte que era capaz de penetrar profundamente na Rússia e foi conectado no momento em que a comunidade de inteligência estadunidense perdeu o acesso a uma série de pontos de escuta de longo alcance no território da China.

Uma base submarina estadunidense recém-reformada, que estava em construção há anos, tornou-se operacional e mais submarinos estadunidenses agora poderiam trabalhar em cooperação com seus colegas noruegueses para monitorar e espionar um importante reduto nuclear russo localizado 400 quilômetros a leste, na península de Kola. Os EUA também expandiram vastamente uma base aérea norueguesa no norte e entregaram à força aérea norueguesa uma frota de aviões de patrulha P8 Poseidon construídos pela Boeing para reforçar sua espionagem de longo alcance em tudo o que se refere à Rússia.

Em troca, o governo norueguês irritou os liberais e alguns moderados em seu parlamento em novembro passado ao aprovar o Acordo Suplementar de Cooperação em Defesa (SDCA). Pelo novo acordo, o sistema legal dos EUA teria jurisdição em certas “áreas acordadas” no norte sobre os soldados americanos acusados de crimes fora da base, bem como sobre os cidadãos noruegueses acusados ou suspeitos de interferir no trabalho na base.

Signatários

A Noruega foi um dos signatários originais do Tratado da OTAN em 1949, nos primeiros dias da Guerra Fria. Hoje, o comandante supremo da OTAN é Jens Stoltenberg, um anticomunista convicto, que serviu como primeiro-ministro da Noruega por oito anos antes de se mudar para seu alto posto na OTAN, com apoio americano, em 2014. Ele era linha-dura em tudo relacionado a Putin e Rússia, e cooperou com a comunidade de inteligência dos EUA desde a Guerra do Vietnã. Ele tem sido considerado absolutamente confiável desde então. “Ele é a luva que serve à mão americana”, disse a fonte.

De volta a Washington, os planejadores sabiam que tinham que chegar à Noruega. “Eles odiavam os russos, e a marinha norueguesa é cheia de excelentes marinheiros e mergulhadores com experiência de gerações na exploração altamente lucrativa de petróleo e gás em alto mar”, disse a fonte. Eles também poderiam ser confiáveis para manter a missão em segredo. (Os noruegueses também podem ter tido outros interesses. A destruição do Nord Stream — se os americanos conseguissem — permitiria à Noruega vender substancialmente mais de seu próprio gás natural para a Europa.)

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Em algum momento de março, membros da equipe voaram para a Noruega para se encontrar com o Serviço Secreto e a Marinha noruegueses. Uma das questões-chave era onde exatamente no mar Báltico era o melhor lugar para plantar os explosivos. Os Nord Stream 1 e 2, cada um com dois conjuntos de gasodutos, foram separados por pouco mais de um quilômetro e meio em seu percurso até o porto de Greifswald, no extremo nordeste da Alemanha.

A Marinha norueguesa foi rápida em encontrar o local certo, nas águas rasas do mar Báltico, a poucos quilômetros da ilha dinamarquesa de Bornholm. Os gasodutos se estendiam por mais de um quilômetro e meio ao longo de um leito oceânico de apenas 80 metros de profundidade.

Dentro do alcance

Isso estaria bem dentro do alcance dos mergulhadores, que, operando a partir de um caçador de minas norueguês da categoria Alta, mergulhariam com uma mistura de oxigênio, nitrogênio e hélio fluindo de seus tanques e colocariam cargas C4 em forma de planta nos quatro dutos com capas protetoras de concreto.

Seria um trabalho tedioso, demorado e perigoso, mas as águas de Bornholm tinham outra vantagem: não havia grandes correntes de maré, o que tornaria a tarefa de mergulhar muito mais difícil.

Depois de alguma pesquisa, os estadunidenses estavam todos de acordo.

A essa altura, o obscuro grupo de mergulho profundo da Marinha de Panama City mais uma vez entrou em ação. As escolas de alto mar de Panama City, cujos formandos participaram de Ivy Bells, são vistas como um remanso malquisto pelos graduados de elite da Academia Naval de Annapolis, que normalmente buscam a glória de serem designados como Seal, piloto de caça ou submarinista.

Se alguém tiver que se tornar um “Black Shoe” – isto é, um membro do menos almejado comando de navios de superfície – ainda há pelo menos o serviço em um contratorpedeiro, cruzador ou navio anfíbio. O serviço menos glamoroso de todos é na guerra de minas. Seus mergulhadores nunca aparecem em filmes de Hollywood ou na capa de revistas.

“Os melhores mergulhadores com qualificações de mergulho profundo são uma comunidade restrita, e apenas os melhores são recrutados para a operação e instruídos a se preparar para serem convocados pela CIA em Washington”, disse a fonte.

Os noruegueses e americanos tinham localização e agentes, mas havia outra preocupação: qualquer atividade subaquática incomum nas águas de Bornholm poderia chamar a atenção das marinhas sueca ou dinamarquesa, que poderiam denunciá-la.

Dinamarca e Suécia

A Dinamarca também foi um dos signatários originais da OTAN e era conhecida na comunidade de inteligência por seus laços especiais com o Reino Unido. A Suécia se candidatou à adesão à OTAN e demonstrou sua grande habilidade no gerenciamento de seus sistemas de sensores magnéticos e sonoros subaquáticos que rastreavam com sucesso submarinos russos que ocasionalmente apareciam em águas remotas do arquipélago sueco e eram forçados a subir à superfície.

Os noruegueses juntaram-se aos estadunidenses ao insistir que alguns altos funcionários da Dinamarca e da Suécia deveriam ser informados em termos gerais sobre a possível atividade de mergulho na área. Dessa forma, alguém superior poderia intervir e manter a informação fora da cadeia de comando, isolando assim a operação do gasoduto. “O que eles ouviram e o que eles sabiam era propositalmente diferente”, disse a fonte. (A embaixada norueguesa, solicitada a comentar esta história, não respondeu.)

Os noruegueses foram fundamentais para resolver outros obstáculos. A Marinha russa era conhecida por possuir tecnologia de vigilância capaz de detectar e acionar minas subaquáticas. Os artefatos explosivos americanos precisavam ser camuflados de forma a fazê-los parecer ao sistema russo como parte do cenário natural – algo que exigia adaptação à salinidade específica da água. Os noruegueses tiveram uma solução.

Os noruegueses também tinham uma solução para a questão crucial de quando a operação deveria ocorrer. Todo mês de junho, nos últimos 21 anos, a Sexta Frota americana, cujo navio-almirante está baseado em Gaeta, Itália, ao sul de Roma, tem patrocinado um grande exercício da OTAN no mar Báltico envolvendo dezenas de navios aliados em toda a região. O exercício então, realizado em junho, seria conhecido como Baltic Operations 22, ou BALTOPS 22. Os noruegueses propuseram que esta seria a cobertura ideal para plantar as minas.

Sexta Frota

Os americanos forneceram um elemento vital: eles convenceram os planejadores da Sexta Frota a acrescentar um exercício de pesquisa e desenvolvimento ao programa. O exercício, como divulgado pela Marinha, envolveu a Sexta Frota em colaboração com os “centros de pesquisa e guerra” da Marinha. O evento no mar seria realizado na costa da ilha de Bornholm e envolveria equipes da OTAN de mergulhadores que iriam plantar minas, com equipes concorrentes usando a mais recente tecnologia subaquática para encontrá-las e destruí-las.

Foi um exercício útil e uma cobertura engenhosa. Os meninos de Panama City fariam o que sabem e os explosivos C4 estariam no local no final do BALTOPS 22, com um timer de 48 horas anexado. Todos os americanos e noruegueses já teriam ido embora na primeira explosão.

Os dias estavam em contagem regressiva. “O tempo estava passando e estávamos quase cumprindo a missão”, disse a fonte.

E então: Washington teve dúvidas. As bombas ainda seriam plantadas durante o BALTOPS 22, mas a Casa Branca temia que uma janela de dois dias para sua detonação fosse muito próxima do final do exercício e ficaria óbvio que os Estados Unidos estavam envolvidos.

Maneira de explodir

Em vez disso, a Casa Branca fez um novo pedido: “Os caras em campo podem descobrir uma maneira de explodir os gasodutos mais tarde sob comando?”.

Alguns membros da equipe de planejamento ficaram irritados e frustrados com a aparente indecisão do presidente. Os mergulhadores de Panama City haviam praticado repetidamente o plantio do C4 em gasodutos, como fariam durante o BALTOPS 22, mas agora a equipe na Noruega precisava encontrar uma maneira de dar a Biden o que ele queria – a capacidade de emitir cada ordem de execução bem-sucedida a cada vez, conforme sua escolha.

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Ter que lidar com mudanças arbitrárias de última hora era algo que a CIA estava acostumada a administrar. Mas também se renovaram as preocupações que alguns compartilhavam sobre a necessidade e a legalidade de toda a operação. 

As ordens secretas do presidente também evocaram o dilema da CIA nos dias da Guerra do Vietnã, quando o presidente Johnson, confrontado com o crescente sentimento anti-Guerra do Vietnã, ordenou que a CIA violasse seu estatuto – que especificamente a proibia de operar dentro dos Estados Unidos – espionando líderes anti-guerra para determinar se eles estavam sendo controlados pela Rússia comunista.

Concordância

A CIA acabou concordando e, ao longo da década de 1970, ficou claro até onde estava disposta a ir. Houve revelações subsequentes em jornais após os escândalos de Watergate sobre a espionagem da CIA a cidadãos estadunidenses, seu envolvimento no assassinato de líderes estrangeiros e seu enfraquecimento do governo socialista de Salvador Allende.

Essas revelações levaram a uma dramática série de audiências no Senado em meados da década de 1970, lideradas pelo senador Frank Church, de Idaho, que deixou claro que Richard Helms, o diretor da CIA na época, entendeu que tinha a obrigação de fazer o que o presidente queria, mesmo que isso significasse violar a lei.

Em depoimento inédito e a portas fechadas, Helms explicou com pesar que “você quase tem uma Imaculada Conceição quando faz alguma coisa” sob ordens secretas de um presidente. “Se é certo que você deve tê-las, ou errado que você deve tê-las, [a CIA] trabalha sob regras e bases diferentes de qualquer outro setor do governo.” Ele estava basicamente dizendo aos senadores que ele, como chefe da CIA, entendia que estava trabalhando para a Coroa, e não para a Constituição.

Os estadunidenses em missão na Noruega operaram sob a mesma dinâmica, e obedientemente começaram a trabalhar no novo problema — como detonar remotamente os explosivos C4 por ordem de Biden. Era uma tarefa muito mais complicada do que Washington imaginava. Não havia como a equipe da Noruega saber quando o presidente poderia apertar o botão. Seria em algumas semanas, em muitos meses ou ainda mais?

C4 e a boia de sonar

O C4 ligado aos gasodutos seria acionado por uma boia de sonar lançada por um avião rapidamente, mas o procedimento envolvia a mais avançada tecnologia de processamento de sinal. Uma vez instalados, os dispositivos de contagem regressiva conectados a qualquer um dos quatro gasodutos poderiam ser acionados acidentalmente pela complexa mistura de ruídos de fundo do oceano em uma mar de tráfego intenso, como é o Báltico – de navios próximos e distantes, perfuração subaquática, eventos sísmicos, ondas e até criaturas marinhas.

Para evitar isso, a boia do sonar, uma vez instalada, emitiria uma sequência de sons tonais únicos de baixa frequência – muito parecidos com os emitidos por uma flauta ou um piano – que seriam reconhecidos pelo dispositivo de contagem regressiva e, após um tempo predefinido de atraso, acionariam os explosivos. (“O que se quer é um sinal robusto o suficiente para que nenhum outro sinal possa enviar acidentalmente um pulso que detone os explosivos”, disse-me o Dr. Theodore Postol, professor emérito de ciência, tecnologia e política de segurança nacional no MIT.

Postol, que atuou como consultor científico do Chefe de Operações Navais do Pentágono, disse que o problema enfrentado pelo grupo na Noruega por causa do atraso de Biden era uma questão de sorte: “Quanto mais tempo os explosivos estiverem na água, maior o risco de um sinal aleatório que venha a detonar as bombas.”)

Em 26 de setembro de 2022, um avião de vigilância P8 da Marinha norueguesa fez um voo aparentemente de rotina e lançou uma boia de sonar. O sinal se espalhou debaixo d’água, inicialmente para Nord Stream 2 e depois para Nord Stream 1. Algumas horas depois, os explosivos C4 de alta potência foram acionados e três dos quatro gasodutos foram tirados de operação. Em poucos minutos, poças de gás metano que estavam nos dutos fechados puderam ser vistas se espalhando na superfície da água e o mundo soube que algo irreversível havia acontecido.

Desentendimentos

Imediatamente após o bombardeio do gasoduto, a mídia estadunidense tratou o evento como um mistério não resolvido. A Rússia era repetidamente citada como provável culpada, hipótese estimulada por vazamentos calculados da Casa Branca – mas sem nunca estabelecer um motivo claro para tal ato de autossabotagem, além de uma simples represália.

Alguns meses depois, quando se soube que as autoridades russas vinham discretamente obtendo estimativas do custo do reparo dos gasodutos, o New York Times descreveu a notícia como algo que “complica as teorias sobre quem está por trás” do ataque. Nenhum grande jornal estadunidense investigou as ameaças anteriores aos gasodutos feitas por Biden e a subsecretária de Estado, Nuland.

Ao mesmo tempo que nunca ficou claro por que a Rússia tentaria destruir seu próprio lucrativo gasoduto, uma justificativa mais reveladora para a ação do presidente veio do secretário de Estado, Blinken.

Questionado em uma coletiva de imprensa em setembro passado sobre as consequências do agravamento da crise energética na Europa Ocidental, Blinken descreveu o momento como potencialmente bom:

“É uma tremenda oportunidade de apagar de uma vez por todas a dependência da energia russa e, assim, tirar de Vladimir Putin a belicização da energia como meio de avançar em seus desígnios imperiais. Isso é muito significativo e oferece uma tremenda oportunidade estratégica para os próximos anos, mas enquanto isso estamos determinados a fazer todo o possível para garantir que os cidadãos de nossos países ou, aliás, ao redor do mundo, não tenham que aguentar as consequências de tudo isso.”

Satisfação

Mais recentemente, Victoria Nuland expressou satisfação com o fim do mais novo dos gasodutos. Em um depoimento em uma audiência do Comitê de Relações Exteriores do Senado no final de janeiro, ela disse ao senador Ted Cruz: “Como você, eu estou, e acho que o governo também está muito satisfeito em saber que o Nord Stream 2 é agora, como você gosta de dizer, uma tralha de metal no fundo do mar.”

A fonte tinha uma visão muito mais inteligente da decisão de Biden de sabotar mais de 2.400 quilômetros de gasoduto da Gazprom com a aproximação do inverno. “Bem”, disse ele, falando do presidente, “tenho que admitir que o cara tem culhão. Ele disse que ia fazer isso e fez”.

Questionado sobre por que achava que os russos não responderam, ele disse cinicamente: “Talvez eles quisessem ter a capacidade de fazer as mesmas coisas que os EUA fazem”.

“Era uma bela reportagem de capa”, continuou ele. “Por trás dela havia uma operação secreta que colocava especialistas em campo e equipamentos que operavam por um sinal secreto.”

“A única falha foi a decisão de fazê-la.”

Seymour Hersh | Jornalista investigativo independente.
Tradução: Maurício Ayer


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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