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Sem que EUA e outras potências paguem dívida climática, Sul global não passará deste século

Segundo o professor e pesquisador de Bangladesh Saleem Huq, “são feitas promessas, decisões são tomadas, mas não são cumpridas”
Jim Cason
La Jornada
Washington

Tradução:

O presidente Joe Biden, em sua apresentação ante a Organização das Nações Unidas, anunciou como um grande ato de generosidade que seu país tem a intenção de aportar 11 bilhões de dólares anuais para ajudar os países em vias de desenvolvimento a enfrentar o impacto da mudança climática. Porém, evitou mencionar que os Estados Unidos devem muito mais que isso para reparar o prejuízo que seu desenvolvimento tem causado ao planeta.

Especialistas e alguns líderes internacionais destacam que o país é responsável por quase 25% de toda a contaminação de carbono no meio ambiente, gerada ao longo dos últimos 350 anos, mas tem feito pouco para abordar esses danos. Diante da ONU, Colômbia, África do Sul, Chile, Barbados, entre muitos mais, pediram por uma expansão dramática de investimentos para mitigar os efeitos da mudança climática e a promoção de energia renovável no Sul global.

Os fatos básicos não estão em disputa: desde o início do uso industrial de combustíveis fósseis de 1759 até 2000, os Estados Unidos contribuíram com 416 bilhões de toneladas de CO² ao planeta. Isto, comparado com 236 bilhões de toneladas contribuídos pela China, e 20 bilhões de toneladas pelo México, segundo Hannah Richie, chefa de pesquisas do Nosso Mundo em Dados, em Oxford, Inglaterra. O agora inundado Paquistão é responsável por apenas 5,1 bilhões de toneladas.

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“Quando observamos só as emissões produzidas hoje, fracassamos em reconhecer a responsabilidade histórica de emissões em décadas ou séculos recentes”, afirma Richie. Em uma conversa por correio eletrônico com o La Jornada, ela assinalou que estes números só incluem emissões produzidas por combustíveis fósseis e cimento desde 1750, e não incluem o emitido por uso de terras.

O resultado destes séculos de contaminação se registra nas manchetes todos os dias. O furacão Ian, os incêndios florestais, as secas na América Central e no Sudoeste estadunidense e as inundações do Paquistão são só os exemplos mais recentes.

A inundação do Paquistão – país com a quinta maior população do planeta – deslocou 33 milhões de pessoas, além de deixar mais de um milhão de casas afetadas pelos deslizamentos e um terço do país debaixo d’água.

O secretário geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Antonio Guterres, deixou claro a relação: “O Paquistão e outros países em desenvolvimento… estão pagando um preço atroz pela intransigência dos grandes emissores (de gases de efeito estufa) que continuam apostando nos combustíveis fósseis”.

“Esqueçam a solidariedade”, agrega a autora paquistanesa Fatima Bhutto no The Guardian. “O Sul global não sobreviverá a este século sem justiça climática. No Ocidente, estão falando de canudinhos de papel; nós, no Sul global, estamos falando de reparações”.

Segundo o professor e pesquisador de Bangladesh Saleem Huq, “são feitas promessas, decisões são tomadas, mas não são cumpridas”

DFID – Flickr

Em 2010, no Paquistão, aranhas se alocaram nas árvores para fugir das inundações; os galhos acabaram tomados por teias, um fenômeno inédito

Alguns nos Estados Unidos estão de acordo. “Os países ricos desenvolveram suas economias à expensa de países pobres ao redor do mundo, que agora estão enfrentando, de maneira desproporcionada, o impacto climático dessas decisões dos industrializados por altas emissões”, escreveram a deputada federal Yevette Clarke e o professor Michael Shank no Newsweek.

Na Conferência sobre Clima da ONU em Copenhague em 2009, os países ricos se comprometeram que para 2020 outorgariam pelo menos 100 bilhões de dólares aos países menos ricos para apoiar seus esforços de adaptação e mitigação dos efeitos da mudança climática, mas fracassaram em cumprir com seu compromisso. Essa cifra de 100 bilhões em si é considerada muito abaixo do necessário. No ano passado, o ministro do Meio Ambiente da África do Sul sugeriu que os países ricos deveriam outorgar 750 bilhões anuais antes de 2030.

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Enquanto os países preparam a próxima cúpula global da ONU sobre clima, programada para novembro, no Egito, analistas do Sul global duvidam que os países desenvolvidos começaram a fazer os investimentos necessários para ajudar a pagar pelas perdas e prejuízos da mudança climática e ajudar os países a desenvolver alternativas aos combustíveis fósseis.

O professor Saleem Huq, do Centro Internacional sobre Mudança Climática e Desenvolvimento em Dhaka, Bangladesh, participou em cada uma das cúpulas da ONU sobre mudança climática e concluiu que “são feitas promessas, decisões são tomadas, mas não são cumpridas”.

Tom Athanasiou, codiretor do Climate Equity Reference Project, diz que a contribuição individual de um país ao esforço sob os Acordos de Paris para limitar a aquecimento global a 1,5 graus Celsius para 2030, deveria ser medido tanto pelas emissões históricas desse país como também sua capacidade de agir.

O projeto de Athanasiou calcula que os Estados Unidos devem assumir responsabilidade por 30% do esforço global para reduzir o aquecimento global sob as metas do Acordo de Paris. “Isso será difícil, já estamos em 1,2 graus”, comentou em entrevista ao La Jornada. A parte que corresponde à União Europeia, afirma, é de 22%, China, 12%, América Latina, seria 6%. Ao México, por si só, corresponde aportar 1,5% do total de esforço global.

Mas tudo isso não será fácil. Para 2030, os Estados Unidos necessitam reduzir emissões em quase 200%o abaixo do nível que alcançou em 2005 (em efeito, necessita alcançar um déficit de emissões) e contribuir centenas de bilhões de dólares a cada ano para os esforços de mitigação e adaptação global.

Quanto? A empresa financeira Morgan Stanley calcula que se requer 50 trilhões entre agora e 2050 para conseguir emissões próximas de zero e que, desse total, os Estados Unidos devem aportar 15 trilhões ao esforço internacional para mitigar os efeitos da mudança climática e promover a transição para energia renovável em países mais pobres. Washington não está nem perto dessa meta.

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O México, segundo os cálculos do Climate Equity Reference Project, necessita reduzir suas emissões anuais de CO² projetadas para 2030 em aproximadamente 40% – algo obviamente muito difícil de conseguir. A maioria dos países – incluindo o México – não estão dedicando nada perto do necessário para mitigar os impactos da mudança climática e promover a transição para renováveis.

Especialistas como Huq, entre outros, dizem que a mudança necessária é impulsionada por ora por movimento locais, e que talvez a próxima cúpula mundial sobre mudança climática – conhecida como COP27 – ofereça um foro para que estes movimentos fortaleçam seus esforços para que os governos cumpram com suas responsabilidades planetárias.

Jim Cason, especial para o La Jornada.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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Jim Cason Correspondente do La Jornada e membro do Friends Committee On National Legislation nos EUA, trabalhou por mais de 30 anos pela mudança social como ativista e jornalista. Foi ainda editor sênior da AllAfrica.com, o maior distribuidor de notícias e informações sobre a África no mundo.

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