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Toda guerra é imoral, a menos que sirva para libertar um povo da opressão

EUA vencem batalha das narrativas, mas perderá a guerra. Terá de enfrentar Rússia e China muito mais fortes e, os países da Otan, sob profunda crise
Paulo Cannabrava Filho
Diálogos do Sul Global
São Paulo (SP)

Tradução:

Atualizada em 04.03.2022, às 15h04

Toda guerra é imoral e condenável, salvo as de libertação nacional. Ateus e cristãos admitem: ninguém nasceu para ser escravo ou colonizado. Liberdade, Independência são os bens mais preciosos. Sim. Porém, tudo tem limite. A sua liberdade de choca com a minha, portanto, tem que haver regras de convivência. 

Isso vale nas relações sociais e vale também nas relações entre países. Princípios basilares do direito internacional são independência e autodeterminação dos povos e a solução pacífica das controvérsias.

Quando uma solução pacífica é impedida por uma imposição de força, é preciso responder a essa imposição com uma força oposta. Por isso, a luta pela libertação é a única que tem sentido ético.

Outra coisa vital que tem que ser levada em conta é a história. Conhecendo a história, se entende o presente e se previne o futuro.

Quem povoou a América do Norte foram súditos de uma potência imperial e colonial, que deixaram a pátria materna por divergências religiosas e outras questões, com o objetivo de construir outro país além-mar. E o fizeram com obstinação, como se predestinados fossem.

Está nos livros e nos discursos dos “pais da pátria”. A marcha civilizatória iniciada na Ásia Central pelos eleitos por deus teria que seguir seu curso. Eles cruzaram o mundo e povoaram a Albion. E seus descendentes cruzaram os mares para fundar as 12 colônias no novo mundo. E foi assim que aqueles homens predestinados se expandiram para o Oeste, perpetrando o maior dos genocídios: dizimaram milhões dos povos originários e junto com eles os bisontes. Não satisfeitos avançaram para o Sul, incorporando dois terços do território do México, à custa de milhões de mortos nativos.

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O Destino Manifesto, era conquistar o mundo, impor a civilização no lugar da barbárie, em outras palavras, impor a Coca-cola e em troca levar a água cristalina e pura, e quanto mais riqueza existisse.

A Doutrina Monroe (1826) expressa ainda hoje o principal corolário da política exterior estadunidense. Fez a guerra contra a Espanha para ficar com as antigas colônias do império decadente, como Porto Rico, Cuba, Filipinas, uma sentinela avançada no longínquo sudeste da Ásia, já a indicar a vocação imperialista.

Seguindo os passos de seus avós anglo-saxões, construíram a maior frota naval e o maior exército do mundo e se declararam a Polícia Moral da humanidade.

Guerras Mundiais

A primeira guerra interimperialista no século 20 ajudou a enriquecer e a fortalecer a potência imperial emergente. Vendeu armas e créditos que aprisionam.

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Uma guerra impiedosa, que deixou traumas profundos e desejo de revanche. Mais que revanche, tratava de livrar-se do jugo imposto pelos vencedores. Um preço impossível de pagar. A Alemanha se reergue e, nesse contexto, aparece Adolf Hitler para levantar o povo alemão e conduzi-lo ao Destino Manifesto, inspirado no que os anglo-saxões no novo mundo pregavam e praticavam. 

Os Estados Unidos eram parceiros nesse desenvolvimento alemão e, em Detroit, Henry Ford proclamava a supremacia branca e elogiava os avanços conquistados pelo povo alemão.

Napoleão, como César, sabia que Europa e Ásia significam um só território, com povos que têm a mesma origem e se complementam. Aliás, esses povos se complementavam e foram divididos pela força de Impérios a impor fronteiras. Em vez de consertar a união e complementaridade dos povos, se enfrentaram e se enfrentam ainda hoje para impor hegemonia. Hegemonia econômica, hegemonia de classe e de supremacia branca.

Hitler foi consequência de uma guerra inconclusa. Iniciou como uma guerra interimperialista, entre potências coloniais. Esbarrou, em cada país, na resistência dos povos organizados nas frentes de libertação. Na marcha para o Leste, esbarrou no povo russo e demais países. Foi o Exército Vermelho que colocou a bandeira no Reichstag.

Essa Segunda Guerra tampouco terminou em 1945. Saiu um exército de ocupação entrou outro, anglo-saxão. Entraram os ianques com intenção de nunca mais sair. E mais, consolidada a ocupação da Europa Ocidental, começou a marcha em direção ao Leste. Agora na direção contrária da dos ancestrais, achando estarem vocacionados para dominar o mundo.

O que é a expansão das bases militares da Otan em direção ao Leste Europeu e a cercar o território da Rússia por todos os lados? O discurso da liberdade contra a tirania esconde a verdadeira intensão de levar a “civilização”, ou seja, a hegemonia do imperialismo por todo o território.

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Para alcançar esse objetivo, o principal obstáculo, é o povo russo. Conseguiram tremenda vitória ao desmantelar a União Soviética e com ela o Pacto de Varsóvia. Quase conseguiram acabar com a Rússia, mas eis que como fênix, ela ressurge para impor um basta à agressão, um chega para à expansão militar da Otan.

O que quer a Europa? 

O que eles têm a oferecer? Está aí, mensurável, o resultado de meio século de hegemonia estadunidense e de verdadeira ditadura do pensamento único imposta pelo capital financeiro. 

Europa tem consciência de seu destino, de que não tem futuro senão integrada. Da Comunidade do Ferro e do Carvão evoluíram para um Mercado Comum que possibilitou tentar a União Europeia, sem fronteiras e com uma moeda própria. Quem conhece um pouco de geografia e história sabe que o futuro é ser Eurásia.

EUA vencem batalha das narrativas, mas perderá a guerra. Terá de enfrentar Rússia e China muito mais fortes e, os países da Otan, sob profunda crise

Global Panorama / Wikimedia Commons
Não deveria haver diferença no tratamento da mídia na cobertura das guerras

Eurásia integrada como hoje integradas estão e Rússia e a China. Interdependentes. Unidas na cooperação para o desenvolvimento, e armadas para garantir que ninguém atrapalhe.

De outra forma está a dominação dos Estados Unidos que não é só militar, é econômica e cultural.

Narrativas imorais

Todas as guerras são imorais. Não deveria haver diferença no tratamento da mídia na cobertura das guerras. São mais imorais as coberturas. A invasão do Iraque foi apresentada como um show de pirotecnia, como se não houvesse viva alma debaixo do bombardeio. O mesmo se repetiu quando da invasão da Líbia. Dois líderes assassinados Saddam Hussein e Muammar al-Gaddafi, dois países saqueados e poços de petróleo ocupados.  Todos os dias crianças palestinas são mortas por tropas de Israel.

E tem mais. O Brics aparece como alternativa real de poder econômico em futuro quase que imediato, coisa de uma década ou pouco mais, pondo fim à unipolaridade e impondo uma nova bipolaridade, fundada cooperação e reforçada pelos países emergentes do Sul,

Tudo se decompõe em narrativas. Depende de você ficar com as narrativas ou com os fatos, com a história.

Biden, em mensagem à nação, deu um triste espetáculo. Chegou a ser interrompido e questionado por parlamentares, o que nunca aconteceu na história. Diferente das mensagens solenes em que o presidente define sua doutrina e expõe seus planos econômicos, foi uma exortação à guerra.

“A liberdade vai vencer a tirania. A Otan foi criada para garantir a paz e a estabilidade na Europa. A Otan ainda importa”. 

Conseguiu isolar o líder russo. Um tsunami midiático. Um show de cabeças feitas. O que importa é a narrativa, é a narrativa que fica, acima dos fatos reais, como se nada mais estivesse a ocorrer no mundo.

Drama dos imigrantes 

Todo conflito bélico provoca de imediato êxodo de parte da população, parte por razões políticas, parte por questões econômicas e outros tantos por medo, para fugir da fome, do desemprego, do desespero que toda guerra traz consigo. Só quem esteve sob fogo de artilharia ou bombardeio aéreo sabe o terror que isso provoca.

O El País, jornal espanhol, no dia 28 de fevereiro, mostra, em reportagem, os efeitos do racismo a aumentar o drama das pessoas. Enquanto a população branca ocupa ônibus e trens para escapar para outros países, principalmente Polônia, os emigrantes procedentes da África e da Ásia Central tem enorme dificuldade. Formam filas intermináveis à espera de solução.

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Nada diferente do que ocorre cotidianamente com milhares de imigrantes que tentam chegar à Europa. Os que não morrem afogados nem são deportados estão em grande parte confinados em campos de concentração. Nada diferente do que ocorria nos períodos das guerras interimperialistas e que segue ocorrendo nos EUA com o drama dos latino-americanos que tentam desfrutar do “sonho americano”. 

A União Europeia estima que pode chegar a meio milhão o número de refugiados dessa guerra. Moscou informa que 137 mil já foram acolhidos em território russo.

Paralelo com 1962

No início dos anos 1960, nos planos de expansão da hegemonia através da Otan, os Estados Unidos implantaram bases de mísseis com ogivas nucleares na Itália e na Turquia, o que foi entendido como uma grave ameaça à segurança da União Soviética. 

Em represália, Nikita Kruschev convenceu Fidel Castro a permitir a instalação de uma base de mísseis em Cuba, a pouco mais de 100 km da costa dos EUA. John Kennedy sentiu e envolveu o mundo numa crise que parecia terminal, ou seja, terminaria com explosões atômicas. O assunto foi resolvido: Kennedy retirou os mísseis da Turquia, Kruschev devolveu os seus para a Rússia e tudo como dantes no quartel de Abrantes.

EUA e Europa negaram alertas de especialistas sobre riscos de expansão na Ucrânia

A lembrança de 1962 vale para ajudar a entender a crise atual. Os Estados Unidos não podiam admitir mísseis com ogivas nucleares em sua fronteira. Pela mesma razão, a Rússia não pode admitir bases da Otan na sua fronteira. Com a agravante de que agora a Rússia se defende de que a Ucrânia se torne um novo Iraque ou outra Líbia em sua fronteira.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.

Paulo Cannabrava Filho Iniciou a carreira como repórter no jornal O Tempo, em 1957. Quatro anos depois, integrou a primeira equipe de correspondentes da Agência Prensa Latina. Hoje dirige a revista eletrônica Diálogos do Sul, inspirada no projeto Cadernos do Terceiro Mundo.

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