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Covid-19: Em 16 meses, Cuba aplicou 40 milhões de vacinas, o equivalente a 15 anos de produção

"Tínhamos pessoas que sabiam fazer e fazem bem", comenta Ileana Morales, líder do comitê de combate à covid-19 em Cuba, que não registra mortes há 2 meses
Michele de Mello
Brasil de Fato
São Paulo (SP)

Tradução:

Cuba foi o primeiro e único país da América Latina a desenvolver imunizantes contra o vírus sars-cov2. Ainda em agosto de 2020, o país apresentou sua primeira fórmula: a Soberana 01. Hoje já são cinco imunizantes desenvolvidos: Soberana 01, Soberana 02, Soberana Plus, Abdala e Mambisa. Já em maio do ano passado, a nação iniciou sua campanha de vacinação com as duas fórmulas mais avançadas: a Soberana 02 e a Abdala. A Soberana 01 e a Mambisa, imunizante de aplicação nasal, estão em fase final de testes. Enquanto a Soberana Plus é usada como dose de reforço e teve alta eficácia em pacientes com reinfecção do vírus.  

Dessa forma, 9.975.833 cubanos estão vacinados, o que representa mais de 97,7% da população apta para vacinar-se já imunizada com o esquema completo e 84% com dose de reforço. As fórmulas foram desenvolvidas pelo complexo BioCubaFarma, que reúne 32 empresas e 25 mil trabalhadores, e agora aponta para aumentar a produção de medicamentos, a fim de atender o banco de vacinas da Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América (Alba-TCP).

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O Estado cubano também foi o primeiro no continente americano a autorizar a imunização em crianças de 2 a 17 anos, ainda em setembro do ano passado. Com isso, o país estima que conseguiu evitar cerca de 63 mil contágios, segundo estudos do Ministério de Saúde Pública, e atravessou o surgimento da variante ômicron, considerada a cepa mais contagiosa do coronavírus, sem registrar mortes infantis.

No dia 8 de novembro, 612 mil crianças e adolescentes retornaram às aulas presenciais em Cuba após vacinação contra a covid-19 / CubaDebate 

Com as vacinas, a ilha caribenha parece ter superado a situação de emergência sanitária. Há pelo menos cinco meses o país não registra falecidos e nem casos graves de pacientes com covid-19. Até a última sexta-feira (15), o país possuía 225 casos ativos e um acumulado de 1,1 milhão de casos e 8,5 mil falecidos, desde 2019, de acordo com o Ministério de Saúde Pública.  

A taxa de letalidade da doença no país é de 0,77%, muito inferior à média mundial, de 1,13%, e no continente americano, 1,67%.

Diante da quarta onda de contágios no mundo, que acontece em plena alta temporada para o turismo cubano, o presidente Miguel Díaz-Canel pediu que as autoridades do Ministério de Saúde Pública aumentassem a realização de testes para “quantificar um possível risco contra a população cubana”.

A campanha exitosa contra a pandemia de covid-19 contou também com solidariedade internacional. Com um bloqueio econômico imposto desde 1962 pelos Estados Unidos, a ilha socialista teve dificuldades de comprar insumos médicos básicos, como máscaras e seringas. Com isso, movimentos populares organizaram campanhas de arrecadação de fundos e doações para os cubanos.

O Brasil de Fato conversou com a presidenta da comissão de inovação científica de combate à covid-19 em Cuba, a Dra. Ileana Morales Suárez, que contou detalhes sobre o enfrentamento da emergência sanitária. 

Ileana é doutora em medicina, com especialidade em anatomia humana e saúde púbica, foi vice-ministra de saúde, diretora do conselho nacional de sociedades científicas e representante de Cuba na Rede Iberoamericana de Investigação Científica.

"Tínhamos pessoas que sabiam fazer e fazem bem", comenta Ileana Morales, líder do comitê de combate à covid-19 em Cuba, que não registra mortes há 2 meses

Michele de Mello / Brasil de Fato
"Tivemos que tirar de outros setores para priorizar a saúde", conta a presidenta do comitê de inovação científica contra a covid-19 em Cuba




Confira a entrevista

Brasil de Fato | Cuba foi o primeiro país da região a desenvolver vacinas contra a covid-19. E não foi apenas uma, senão cinco fórmulas de imunizantes. Qual o segredo?
Dra. Ileana Morales Suárez | Não há muito segredo, há muita história, que não é a mesma coisa. Não há nenhum país, nem Cuba, que pudesse ter feito isso sem ter um desenvolvimento anterior, porque os tempos da pandemia são tempos muito curtos, do ponto de vista histórico.

Quando geralmente são necessários de 10 a 15 anos para desenvolver uma vacina, muitos países, assim como Cuba, tiveram que fazer em meses. 

Há muitos anos Cuba criou uma indústria biotecnológica e farmacêutica. Observe algo que é mais interessante: criamos essa indústria numa etapa muito dura, logo após o fim do campo socialista, Cuba atravessava um momento econômico complexo. Foi quando Fidel Castro teve uma visão estratégica, e no momento em que o país tinha menos recursos, decidiu dispor de verbas para desenvolver a indústria.

Nos anos 90, muitas pessoas não entendiam, mas agora entendem.

Tínhamos capacidades instaladas: pessoas que sabiam fazer e fazem bem, além de um sistema de saúde que era a base para realizar os ensaios clínicos

O primeiro produto da biotecnologia cubana foi o Interferon, que já existe há décadas. Depois criamos a vacina contra meningite: a primeira no mundo, a vacina contra o Influenza, também pioneira, e vacinas terapêuticas para tratar o câncer, por exemplo, algumas que são únicas no mundo. Então já vínhamos com essa história, vínhamos desse desenvolvimento, com um grupo muito preparado e com capacidades produtivas.

Também nos distingue a formação massiva de médicos, assim como de enfermeiros, técnicos de saúde, psicólogos e assistentes sociais. Cuba tem a maior proporção de médicos por habitante do mundo e a melhor proporção de trabalhadoras da saúde por habitante, isso nos dá oportunidade de que haja pleno acesso a pessoal qualificado. E a indústria farmacêutica e biotecnológica produz medicamentos que são demandados pelo sistema de saúde.

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Portanto pudemos fazer. Isso porque tínhamos capacidades instaladas: pessoas que sabiam fazer e fazem bem, além de um sistema de saúde que era a base para realizar os ensaios clínicos de maneira rápida, sem romper ou diminuir nenhum padrão regulatório ou ético.

É muito representativo que a indústria tenha conseguido garantir mais de 40 milhões de vacinas. Isso é um fato extraordinário para um país pequeno. Talvez não para um país enorme como o Brasil, mas para Cuba, com 11 milhões de habitantes, ter alcançado a cifra de quase 39 milhões de doses aplicadas em apenas 16 meses, significa cerca de 15 anos nas campanhas normais de vacinação. 

Cuba já vacinou mais de 90% da sua população com as três fórmulas autorizadas para uso emergencial: Soberana 02, Soberana Plus e Abdala. Após mais de um ano do seu desenvolvimento, por que a OMS ainda não liberou o uso destes imunizantes?
Não é que esteja atrasado, nem adiantado. A OMS segue um protocolo e nesse protocolo Cuba entrou. Estamos seguindo os passos e esperamos que tudo ocorra rápido, mas esperamos que as autoridades cumpram tudo que está estabelecido para cada etapa.

Cuba já apresentou os documentos requeridos em cada etapa de certificação, revisando nossos expedientes e eles [OMS] cumprirão com seus protocolos.

No processo de desenvolvimento das vacinas, Cuba se aliou ao Irã e à Venezuela para realizar ensaios clínicos. Essa cooperação deve seguir? Quais são os próximos passos?
Com Irã foi um caso interessante, porque realizamos ensaios clínicos, portanto não é uma cooperação elementar, é uma relação entre dois institutos muito respeitados, que conseguiram realizar pesquisas conjuntas.

Os resultados desses ensaios clínicos foram muito animadores e estavam em concordância com os ensaios realizados em Cuba.

Mesmo perseguida, ciência cubana se desenvolve a favor do povo e da humanidade

E, como toda pesquisa e desenvolvimento de vacinas conjunto, isso abriu portas para que os cientistas se conheçam, façam publicações conjuntas e isso sempre nos beneficia. 

Mas além disso, o maior beneficiado é quem pode receber a vacina.

Há quase 60 anos Cuba sofre um bloqueio econômico, que foi recrudescido durante a pandemia. Apesar de ter desenvolvido cinco vacinas próprias, o país dependia de doações e campanhas de solidariedade para ter seringas e outros insumos médicos. Como explicar esse contraste?
O bloqueio é um entrave constante para os cubanos. A minha geração nasceu com o bloqueio, uma geração que está chegando aos 60 anos. É um lastro que pesa.

Para alguns, que veem de longe, pode parece um slogan, mas o bloqueio nos afeta e muito.

Aquele que não entende o que é o bloqueio poderia fazer o exercício de pensar o quão difícil foi enfrentar a pandemia nos países que não estão bloqueados. Agora imagine enfrentar essa crise sanitária com um bloqueio injusto em cima, que dificulta tudo: a compra de materiais, a compra de insumos, a compra de equipamentos médicos que tenha algum componente estadunidense, o transporte… tudo. 

Em primeiro lugar, a vontade política do governo e do Estado cubano. E está claro que a prioridade é a saúde do povo. Então tivemos que tirar de outros setores para priorizar o que havia que priorizar. Como dizemos em Cuba: primeiro o que vem primeiro e o prioritário era a saúde.

Por isso fomos buscar o financiamento para os imunizantes. E não eram somente as vacinas, precisávamos das seringas, álcool, algodão, medicamentos, macas de hospitais, era o serviço completo. 

Nós não tivemos dificuldade para oferecer o serviço, mas nos custou caro. Nos momentos mais difíceis também houve situações pontuais, como a escassez de oxigênio. E, por conta do bloqueio, houve dificuldades para comprar dos únicos fornecedores que tínhamos porque haviam peças ou tecnologia produzida nos Estados Unidos. 

ONU denuncia desigualdade na distribuição de imunizantes: “Não queremos mais promessas”

Mas seguimos adiante e conseguimos controlar a covid-19. Temos meses sem falecidos e sem pacientes em estado grave, um nível mínimo de incidência, o acompanhamento do povo e das organizações populares, e um trabalho conjugado entre os cientistas de todas as esferas, mas principalmente dos trabalhadores da saúde, que foram os verdadeiros heróis e estiveram na linha de frente.

Mães, pais e responsáveis levam crianças aos centros de saúde pública em Cuba para vacinação contra a covid-19 / Karina Rodríguez Martínez / Cubadebate 

No início da pandemia, várias governantes sugeriam em seu discurso uma oposição entre a saúde e a economia na gerência do Estado. Cuba é um país que depende do turismo, considerado carro-chefe da economia nacional. Como puderam controlar a pandemia, priorizando a saúde, sem abandonar a situação econômica do país?
Aplicamos todas as medidas que eram possíveis em determinado momento para conter a pandemia. E isso representou um fechamento total: de fronteiras, da economia, do turismo, mas estávamos preservando a saúde do povo.

Nessa ordem de prioridades, apesar de todas as restrições, sabíamos que primeiro tínhamos que salvar o que há de mais valioso num país: as pessoas. E depois poderíamos trabalhar para melhorar a situação econômica.

Apesar de todas as restrições, sabíamos que primeiro tínhamos que salvar o que há de mais valioso num país: as pessoas.

Os países que não fizeram isso tiveram um boom que tornou a situação sanitária tão complexa que afetou também a economia. Portanto, voltamos ao ponto inicial, e com uma situação ainda pior.

A América Latina, segundo estudos da Cepal, retrocedeu 27 anos nos indicadores de pobreza, então do que estamos falando? Há mais de 80 milhões que passaram à pobreza extrema. 

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É um ciclo vicioso. A covid-19 surgiu por todos os problemas acumulados: problemas ambientais, doenças infecciosas sem resposta, doenças crônicas sem controle, pessoas sem acesso a medicamento. Agora a própria pandemia exacerbou essas condições. 

É um ciclo vicioso que temos que superar e vamos superar. Não podemos ter uma pensamento pessimista. Cuba não tem uma visão catastrófica da situação, pelo contrário. 

Em outubro do ano passado já estávamos apresentando, nos espaços acadêmicos e científicos do país, todos os projetos de desenvolvimento. Devemos seguir adiante, inovando, pesquisando, desenvolvendo tecnologia e tendo claro o que quer o país como modelo de desenvolvimento econômico e social, deixando para trás a covid-19, mas sem descuidar, porque a pandemia não acabou no mundo. 

Alguns pesquisadores sugerem que a covid-19 poderá tornar-se uma doença endêmica, com a qual teremos que conviver. Você acredita que é possível prever esse cenário a curto prazo?
Conceitualmente sim. Doenças desse tipo, com o tempo, tornam-se endêmicas. A questão é que não sabemos quando, porque isso depende de um mundo mais imunizado, mas não é o caso. A vacinação está evidenciando as grandes desigualdades desse mundo.

Se tivéssemos os níveis de vacinação de Cuba, que supera 90% de toda a população e mais de 97% da população que poderia ser vacinada, ou ainda que tivéssemos um bom nível de vacinação, como Brasil, Chile, Portugal, então poderíamos pensar nesse cenário a curto prazo.

Mas hoje, com mais de 80 países com menos de 50% da sua população vacinada, é difícil. 

Guerra das vacinas: pandemia expõe confronto entre saúde pública e medicina de mercado

Não fomos capazes de nos vermos como um planeta integrado, muitos [governos] pensaram apenas localmente.

Então há países ricos que se vacinaram cinco ou seis vezes e cerca de 20 países com apenas 10% de imunizados. 

O mundo tem a responsabilidade de aprender cada uma das lições que a covid-19 nos deixa. E assimilá-las rápido, para que, em caso de que apareça uma nova pandemia, os países já estejam mais estruturados, com sistemas de saúde mais fortalecidos, e medidas sociais de acordo com a realidade local.

Cuba tem vacinas, outros países têm maior capacidade de produção, outros podem oferecer esses recursos aos países que não receberam vacinas.

Há muitas formas de cooperação e eu creio que todas são válidas. Se queremos ter um mundo melhor, todas essas formas deveriam ser aceleradas, em função, principalmente, daqueles que não puderam acessar as vacinas ou que não possuem serviços básicos de saúde.

É algo que Cuba diz há mais de 30 anos: um mundo melhor é possível, mas todos temos que nos ajudar.

Michele de Mello | Brasil de Fato
Edição: Arturo Hartmann


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