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Ataque aos mexicanos nos EUA reflete epidemia mundial de destruição massiva e racista

A ação remete ao conceito de “violência apocalíptica”, cunhado de maneira profética por Robert Jay Lifton

Em 3 de agosto, depois de viajar 10 horas desde Allen, Texas, e depois de divulgar um manifesto nas redes sociais com um objetivo bem planejado: assassinar mexicanos, Patrick Crusius, jovem universitário branco de 21 anos, entrou em um centro comercial de El Paso empunhando um rifle de assalto AK-47, disparou à queima roupa e matou 22 pessoas, ferindo mais 26.

Foi uma ação premeditada, consciente e deliberada que esboça um novo racismo, adscrito a teorias sobre o ocaso civilizatório (no sentido das revoluções conservadoras), misturado com “genocídio branco”, etno coletivismo e violência apocalíptica. A frase anterior deriva do documento “A verdade inconveniente” publicado no portal 8chan, onde Crusius diz que seu “ataque” foi “em resposta à invasão hispana do Texas” e que estava “defendendo” seu país “da substituição étnica e cultural desatada por essa invasão”.

No documento ele afirma que a comunidade latina se converteu em objetivo de seu ataque depois de ler o livro do francês Renaud Camus, A grande substituição (2012). Camus −quem foi artista de vanguarda e ícone gay nos anos 70 e acérrimo defensor de Marine Le Pen (líder da ultranacionalista Frente Nacional) e inspirador dos setores mais radicais da direita global, o supremacismo branco – expõe em sua obra uma teoria conspiratória segundo a qual a Europa branca e cristã está sendo “invadida” e “destruída” por “hordas” de imigrantes negros ou de pele escura.

Segundo Camus, a Europa é objeto de uma “colonização demográfica”, que se concreta com a chegada de imigrantes do sul do Mediterrâneo, o que ocasiona uma “substituição progressiva” de uns pelos outros. Sua ideia de que “a raça branca está em perigo” está presente na Internet entre grupos de extrema direita dos EUA que optaram por trocar o argumento de “superioridade racial” pela denúncia de um suposto “genocídio branco” (via mestiçagem), do qual seriam vítimas pela “invasão” de seus países por pessoas de outras raças.

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Patrick Crusius divulgou um manifesto nas redes sociais com um objetivo bem planejado: assassinar mexicanos

O manifesto de Crusius incorpora elementos relativos ao Partido Democrata, em trânsito para se converter em “dono” dos Estados Unidos utilizando seu estado natal, Texas, como arma; o papel das corporações depredadoras, que “possuem os políticos e fazem lobby em favor da imigração ilegal como forma de reabastecimento da reserva de mão de obra barata; a automatização, que em duas décadas reduzirá pela metade os empregos; a imigração contínua dos (invasores) latinos e a competição com os jovens nativos (dos EUA) pelos postos de trabalho “sujos” e agora também “qualificados” (com salários em baixa), e o estilo de vida estadunidense hiperconsumista.

Diz que em toda a sua vida foi se preparando para “um futuro que agora não existe” e que provavelmente “o emprego dos seus sonhos” será “automatizado”. Com base nessa articulação de ideias, diz que dada a posição dos democratas sobre imigração, os latinos tomarão o controle estatal e dos governos locais em seu “querido Texas” e o converterão em um “instrumento” para “um golpe político que acelerará a destruição” dos Estados Unidos.  Finalmente – e de acordo com o “privilégio” que lhe deram os “pais fundadores” – afirma que se sentiu obrigado a agir (matar mexicanos e outros bodes expiatórios) para “salvar” o país “ao borde da destruição” , Diz não sentir “culpa” por seu ataque e que sua ação não é “imperialista” mas sim “um ato de preservação”.

Esclarece que sua ideologia e suas opiniões foram assumidas antes da campanha de Donald Trump à presidência, e que “anota” isso porque sabe que muitos culparão Trump pelo ataque e será chamado de supremacista branco. Segundo Crusius, “isto é somente o princípio da luta pelos Estados Unidos e pela Europa […] Me sinto honrado de encabeçar a luta para recuperar meu país da destruição”.

Talvez, de maneira consciente –não o diz em seu manifesto− escolheu atacar em um Walmart por seu significado simbólico. Segundo o ranking da Bloomberg, o centro comercial pertence à dinastia que encabeça a lista das cinco família mais ricas do mundo, a dos irmãos Jim, Alice e Rob Walton, proprietários de uma cadeira de supermercados cuja riqueza cresce a um ritmo de 70 mil dólares por minuto, 4 milhões por hora e em torno de 100 milhões de dólares a cada dia.

Parece que Crusius excedeu a Trump pela direita. Sua ação remete ao conceito de “violência apocalíptica”, cunhado de maneira profética por Robert Jay Lifton. Em um artigo no jornal The Nation, em 2003, intitulado “Apocalipse Americana: como a ‘síndrome de superpotência’ está devastando o mundo”, Lifton adverte sobre “uma epidemia mundial de violência dirigida à destruição massiva” a serviço de várias “visões de purificação e renovação”. 

Diz que “estamos experimentando o que poderia se chamar de um confronto apocalíptico” entre forças islamistas – decididas “a matar e morrer por sua religião” – e forças estadunidenses que “alegam ser restritas e razoáveis” mas “não menos visionária em seu poderio militar e em sua projeção de fazer a guerra purificadora e de limpeza”. Ambos os lados estão embarcados em uma “missão” de “combater o mal com o propósito de redimir e renovar o mundo e prestes “a desatar níveis de violência incalculável para conseguir esse propósito”.

Pode-se ver Patrick Crusius refletido no espelho da política imperial. 

*Publicado em La Jornada - México

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