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Cuidado com as narrativas! Governo quer te convencer de que a economia vai bem

Esperamos, com esta análise, dar munição aos eleitores, principalmente os jovens. Conhecer a verdade é fundamental para recuperar a independência
Paulo Cannabrava Filho
Diálogos do Sul Global
São Paulo (SP)

Tradução:

É preciso estar sempre atento às notícias veiculadas pelos jornais. Ter sempre presente que estamos em guerra, que a comunicação é uma poderosa arma psicossocial. Seus efeitos são devastadores. Basta lembrar os recentes linchamentos midiáticos às personalidades públicas ou históricas, ou, o que estão fazendo com a guerra da Otan/EUA contra a Rússia.

A disputa é por narrativas. Aqui, em pleno processo eleitoral, mais do que nunca. Os fatos são verdadeiros, porém, descontextualizados ou mal interpretados, são manipulados com propósito de obter sucesso, alienar ou o que seja. Vejamos um exemplo que nos concerne.

Citando como fonte o confiável IBGE, jornais alardeiam que o desemprego cai de 11% para 9,8%, taxa mais baixa depois de muito tempo, e atribuem o fato aos acertos da gestão na recuperação da economia. Não se iludam! Não representa sucesso nem muito menos acerto da gestão econômica cujo desempenho nos levou à dramática estagflação em que vivemos.

Claro que houve um ligeiro aumento na oferta de emprego. Três milhões de vagas este ano, oito milhões de novos empregos em 12 meses. Ocorreu por efeito da superação do período álgido da pandemia, que forçou refluxo em praticamente todas as atividades econômicas. As coisas voltam à normalidade por inércia própria, não por ação do governo.

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Houve também piora na qualidade dos empregos ofertados, o que provocou uma queda de 5% na renda média.

O problema real no mercado de trabalho está em 40 anos de neoliberalismo, aplicação das Cartilhas do Consenso de Washington, sem imaginação na gestão da economia. Isso, praticamente em todo o mundo sob a hegemonia dos Estados Unidos. Nada diferente estão vivendo os países da União Europeia, ocupada militar, econômica e culturalmente pelos Estados Unidos.

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A economia em marcha lenta, do pibinho constante, agravou profundamente a partir da posta em marcha da Operação Lava Jato, foi pro abismo a partir da gestão do ilegítimo Michel Temer, e continuou nas profundezas com a gestão de Guedes, neste governo de ocupação, governo dos militares.

Paralisação dos projetos, desestatização, desnacionalização, desindustrialização, incompetência e corrupção deslavada, apanágios que estão na raiz do aprofundamento da crise.

Segundo o Dieese, outra fonte confiável, somente as investidas da Operação Lava Jato contra as empresas de engenharia e construtoras nacionais acabaram com 4,4 milhões de empregos e R$ 172 bilhões deixaram de ser investidos em setores produtivos.


Desemprego em alta

Da População Economicamente Ativa (PEA), aquela em idade produtiva, entre 15 e 65 anos, segundo o IBGE, de 103 milhões, pouco menos da metade da população de 220 milhões, apenas 98 milhões estão no mercado de trabalho, formal e informal. Na informalidade são 40 milhões, 25 milhões trabalhando por conta própria, ou seja, se virando para conseguir uns trocados para comer. Nas favelas, 63% dos moradores estão na informalidade.

Há que considerar, quando se analisa o desempenho da economia, a necessidade real de gerar pelo menos dez milhões de novos empregos a cada ano só para atender a demanda etária, aquela maré de jovens que com instrução ou sem instrução estão aptos para entrar no mercado de trabalho, mais o acumulado de desalentados. No primeiro trimestre, eram quase cinco milhões os que em idade de trabalhar perderam o emprego e desistiram por falta de oportunidade.

Quem são os 33 milhões que estão passando fome? E os 110 milhões em regime de insegurança alimentar? Veja que não se trata apenas de dar comida para 110 milhões de pessoas. Para que se alimentem bem, se vista, tenha sanidade e mobilidade, é preciso ter a economia funcionando e gerando bons empregos.

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São pessoas que estão ganhando menos que um salário mínimo de R$ 1.212. A partir de 2023, será de R$ 1.310,17, aprovado pelo Congresso com um reajuste de míseros 10%. O mesmo reajuste foi aplicado para os aposentados que ganham acima de um mínimo. Sempre é bom lembrar que, para cumprir com a finalidade constitucional, o salário mínimo deveria ser em torno de R$ 5 mil.

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Elineudo Meira – Jornalistas Livres
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Ninguém quer perder a boquinha

O Brasil de 100 milhões passando fome tem o Legislativo e o Judiciário mais caros do mundo. Os servidores, deputados e senadores tiveram reajuste de 16%, bem acima da inflação. Um senador por exemplo, só com os penduricalhos que constituem um esbulho, um escárnio aos pobres ele dobra o salário e ultrapassa o teto: São R$ 3.800 de auxílio moradia; R$ 15 mil para gastar com materiais de escritório; R$ 8.500 para imprimir papéis e comprar jornais e revistas; além de gasolina, telefone e plano de saúde extensivo a toda família.

Na atual legislatura o salário de um deputado federal está em R$ 33.763. Além de todos os penduricalhos já mencionados e mais alguns como segurança privada, tem R$ 106.866 para contratação de pessoal para formar seu gabinete.

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Os Ministros do Supremo, além do salário mais alto (o teto) de R$ 39.300, têm auxílio moradia, paletó, livros e com os penduricalhos chegam a R$ 100 mil. Agora mesmo, juízes e desembargadores, com o argumento de que estão com muitos processos acumulados, querem R$ 11 mil de bonificação além dos R$ 35 que ganham mais os penduricalhos. Tem muitos juízes e desembargadores abiscoitando 100 mil. Deveriam ser punidos por falta de eficácia, mas querem esfolar ainda mais esse nosso povo.

Total inversão do conceito de servidor público. No México, de López Obrador, eles acabaram com essa farra. O parlamentar ou ministro vai trabalhar com seu próprio carro e usa o carro da frota oficial para as necessidades do cumprimento do mandato. Acabaram-se os penduricalhos.

Executivos de grandes corporações estão ganhando mais de um milhão de reais por mês. 90 desses diretores faturaram R$ 1,1 bilhão de salários. Que tipo de empresas? Ora… bancos como Santander, Bradesco, Itaú, mineradoras como a Vale, transnacionais como JBS, Cosan, Braskem. Oficiais generais, cujo salário base é de R$ 14 mil e ministros de Estados, ganham ilegalmente mais de R$ 100 mil.


O segredo do orçamento

O Centrão maneja hoje R$ 53 bilhões, algo como 24% do Orçamento da União. Os gestores da economia e seus acólitos reclamam que os R$ 600 de Bolsa Família vai custar R$ 151,4 bilhões ao já ajustado orçamento de 2023. O deste ano não dá mais pra ajustar, então cortam das coisas essenciais. Outros acham que os 15 bilhões é truque eleitoreiro. Querem o quê? Matar nossa gente de fome por uma questão eleitoreira?

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É nada perto dos 1,3 trilhões de dólares que Donald Trump, quando presidente, mandou imprimir para tapar os buracos na economia provocados pela pandemia. Ninguém tem essa disponibilidade de caixa. O que tem que ter é coragem e a certeza de que movimentando a economia as coisas funcionam. Joe Biden foi pelo mesmo caminho e o Congresso aprovou liberar outros dois trilhões para movimentar a economia pelo mesmo motivo.

Em três cortes até julho, os gestores da economia contingenciaram R$ 12,74 bilhões. No ano, emplaca R$ 14,838 bilhões de setores essenciais como educação (R$ 1,6 bi, 8%) e saúde (R$ 2,7 bi, 16%), e ainda sofrerão cortes de mais R$ 6 bilhões. Nenhum centavo a menos para os orçamentos secretos nem para as verbas dos militares. Mas cortaram das emendas parlamentares, aquele dinheiro que vai para obras nas cidades do interior. O valor foi diminuído em R$ 4 bilhões. Já foram consignados R$ 12,3 bilhões para as emendas, empenhadas R$ 8,2 bilhões e falta empenhar R$ 4,1 bilhões. Do empenhado, faltam pagar R$ 1,4 bilhões.

Também tem outros R$ 16 bilhões de precatórios não pagos. A Justiça mandou pagar, o governo diz que poderia liberar R$ 3,4 bilhões, porém… ninguém viu. A maioria são considerados alimentar, ou seja, dívida de previdência ou outras causas para indivíduos, são de pouca monta.

Como não têm competência para mover a economia, para fazer caixa vendem o que não lhes pertencem, os ativos nacionais, riquezas acumuladas em muitas décadas de trabalho de nosso povo. Os únicos favorecidos são: os bancos e financeiras que intermediam o negócio, beneficiando especuladores; os grandes conglomerados (alguns empresas estatais) que compram um bom negócio a preço de banana; e os corruptos, porque, não se enganem, tem muito contrato de gaveta nessas transações, com dinheiro depositado em paraísos fiscais.

Guedes prometia arrecadar um trilhão de dólares com seu programa de desestatização/privatização, venda das empresas estatais. Pura bravata. Conseguiu R$ 401,3 bilhões, algo em torno de US$ 78 bilhões. De 1980 até 2018, foram US$ 54,5 bilhões, dos quais US$ 13 bilhões no governo ilegítimo de Temer com a venda de 124 empresas. 

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Das 429 estatais funcionando, 131 são de controle direto ou indireto e 289 com participação minoritária, como é o caso da Petrobras. Entre as 46 controladas diretamente, 19 são deficitárias, afirma o colunista José Fucs, coluna no Estado de SP. Prejuízo de R$ 160 bilhões, equivalente ao que se gasta com saúde neste ano. 

É muito? Só a Petrobras vai distribuir de lucro neste ano R$ 103 bilhões! Com um ano de operação, a estatal francesa que comprou o gasoduto da Petrobras pagou a operação. Isso é crime de lesa pátria.

É isso. Esperamos com isto dar munição aos eleitores, principalmente aos jovens. Conhecer a verdade é fundamental para recuperar a independência e a soberania nacionais, nesta luta contínua pela libertação nacional.

Paulo Cannabrava Filho, jornalista latino-americano editor da Diálogos do Sul.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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Paulo Cannabrava Filho Iniciou a carreira como repórter no jornal O Tempo, em 1957. Quatro anos depois, integrou a primeira equipe de correspondentes da Agência Prensa Latina. Hoje dirige a revista eletrônica Diálogos do Sul, inspirada no projeto Cadernos do Terceiro Mundo.

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