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Foto: Alisdare Hickson / Flickr

Pogroms, censura, manipulação midiática: o que Ocidente esconde sobre o genocídio palestino

Israel rompe todos os limites de ultraje, humilhação e desprezo pela dignidade humana, cuja vítima há 75 anos é o povo palestino em termos de genocídio, apartheid e limpeza étnica
Pedro León Vega Rodríguez
Las 2 Orillas
Bogotá

Tradução:

Ana Corbisier

Em sociedades ideologizadas e polarizadas com sangue e desprezo pelo conhecimento, onde a ideologia supera o pensamento racional, a transparência e a independência de uma fonte de alta confiabilidade, como o Instituto Lemkin, ajudará os mais céticos a conhecer a verdade sobre a situação política e humanitária do conflito palestino-israelense, sobre o genocídio e a política de apartheid e limpeza étnica que sofre a população palestina há 75 anos, quando foi criado Israel, ocupando seu território.

O Instituto Lemkin é o fundador da Convenção para a Prevenção do Genocídio, que hoje compromete cada uma das nações membros da Organização das Nações Unidas, ONU. Sua Missão institucional é conectar as bases globais às ferramentas de prevenção do genocídio. Tem como visão um consenso mundial para abster-se do genocídio. Seu fundador, Rafael Lemkin, jurista polonês vítima com sua família judia do holocausto nazista, foi quem cunhou o termo Genocídio. O Instituto Lemkin estima que “a verdadeira segurança humana a longo prazo se constrói com o tempo por meio de compromissos sociais e culturais internos de base ampla com a justiça”.

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Desde 7 de outubro, o instituto lançou oito alertas SOS sobre Gaza, três alertas de genocídio ativo na Palestina, um alerta de bandeira vermelha em Jerusalém, e três declarações de grande impacto político sobre a situação palestina, a saber:

1- Declaração sobre a narrativa dos meios ocidentais sobre o genocídio de Israel em Gaza (13 de abril),
2- Declaração de condenação dos pogroms (atrocidades) de colonos israelenses na Cisjordânia (26 de abril) e
3- Declaração em apoio aos estudantes e professores da Universidade de Colúmbia (29 de abril).

Houve ainda um Simpósio (em 3 de maio) que propões como tema central a pergunta: como é possível que tantas pessoas, especialmente no Norte global, não tenham visto e denunciado o genocídio mais público da história?

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O instituto Lemkin não é a única instituição de alta confiabilidade. Vale mencionar pelo menos outras quatro fontes do mesmo calibre, resistentes à crítica ideológica e cujas análises coincidem plenamente em uma interpretação concludente: a existência de genocídio, política de apartheid e limpeza étnica nos territórios palestinos ocupados por Israel. Estas fontes são:

1- O informe de Francesca Albanese, a relatora especial da ONU para os territórios palestinos ocupados, intitulado “Anatomia de um genocídio”, 2- As Resoluções da Assembleia Geral da ONU emitidas desde 1947, inclusive a aprovação do ingresso do Estado da Palestina como membro pleno;
3- O processo por genocídio n
a Corte Internacional de Justiça contra Israel, e
4- As investigações sobre crimes de guerra e genocídio da
Corte Penal Internacional contra Netanyahu e os membros da equipe de governo israelense.

Claro, sem esquecer o contexto histórico: a Resolução da ONU para a criação de dois Estados, o armistício árabe-israelense de 1949, a guerra dos seis dias de 1967, o apartheid imposto por Israel nos territórios ocupados, a resistência palestina, a guerra do Yom Kipur de 1973, e o apoio incondicional do governo dos Estados Unidos a Israel.

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Aliás, convém conhecer o projeto sionista judeu, segundo as declarações e escritos dos próprios líderes do atual governo israelense, como o ensaio intitulado “O plano decisivo de Israel” (2017), do ministro de finanças Bezalel Motrich, que se autoqualifica como fascista e xenófobo.

Motrich tem o mérito de expor com transparência o projeto sionista, de limpeza étnica e de apartheid que deve sofrer a população palestina no Grande Israel. Finamente, vale a pena agregar outra fonte de alta confiabilidade para conhecer o impacto destas políticas fascistas do governo israelense: as crônicas da jornalista espanhola Olga Rodríguez sobre a vida cotidiana na Palestina em meio ao conflito, no livro “O homem molhado não teme a chuva” (2009).

Na declaração sobre a narrativa da mídia ocidental sobre o genocídio de Israel em Gaza

(13 de abril), o Instituto Lemkin condena o marco enganoso na cobertura do bombardeio e genocídio do povo palestino por parte de Israel. Destaca a mídia que Israel está exercendo seu direito à autodefesa, mas “houve pouca análise do que permite o direito à autodefesa e pouco questionamento das justificativas de Israel para o bombardeio indiscriminado de áreas civis”. O Instituto considera que “a causa desta mudança é indicativa do fracasso mais amplo do jornalismo ocidental na hora de proporcionar uma imagem precisa do que está acontecendo”. Considera que o leitor ocidental foi enganado, e insta os meios de comunicação a abandonar a retórica que protege ativamente Israel dos crimes contra o povo da Palestina.

Na declaração de condenação de pogrons (atrocidades) de colonos israelenses na Cisjordânia

(26 de abril) o Instituto Lemkin afirma que durante o ataque à aldeia de Al-Mughayyir, a leste de Ramallah, na Cisjordânia (12 de Abril), “os colonos israelenses invadiram casas e dispararam contra os residentes”, e os soldados das Forças de Defesa de Israel (FDI) mantiveram-se à parte, enquanto turbas de colonos, atacando com rifles, garrotes e armas improvisadas, arrasavam o município, queimavam edifícios e punham fogo em carros”.

Segundo as denúncias, entre 1.000 e 1.200 colonos cercaram a aldeia e bloquearam as estradas circundantes. Depois, até 600 pessoas assaltaram e atacaram os habitantes palestinos. Este ataque, segundo o Instituto, enquadra-se em uma tendência constante de violência dos colonos na Cisjordânia: no ano passado, centenas de colonos também atacaram violentamente Turmusayya e Huwara. O Instituto Lemkin condena todas e cada uma das execuções extrajudiciais e pede um esforço internacional para proteger os palestinos na Cisjordânia. Estima-se que desde 7 de outubro mais de 460 palestinos foram assassinados na Cisjordânia em pogroms cometidos por colonos israelenses.

O Instituto Lemkin pede ao Conselho de Segurança da ONU que envie imediatamente forças de paz para proteger os civis palestinos e que imponha sanções ao governo israelense pelo apartheid. “A última versão de violência coletiva (12 de abril) por parte de colonos terroristas israelenses mostra a impotência das forças do governo israelense para proteger os palestinos na Cisjordânia”, e destaca “a discriminação, o abuso e a morte inerentes ao apartheid e à ocupação”. Fica evidente “a falta de restrições estatais sobre as turbas de colonos”. Além disso, “impediram que os bombeiros atendessem aos incêndios provocados pela turba durante o assalto”.

Na declaração em apoio aos estudantes e professores da Universidade de Colúmbia

(29 de abril), o Instituto Lemkin expressa sua solidariedade com os universitários que se opõem ao genocídio e defendem a consolidação da paz e a liberdade de expressão. Lembra os dirigentes dos Estados Unidos, inclusive os presidentes de universidades, de que “as liberdades de expressão e de reunião estão garantidas pela Primeira Emenda da Constituição dos Estados Unidos”.

O instituto estima que a base das liberdades nos Estados Unidos está sob ataque ativo; os estadunidenses de todas as tendências deveriam apoiar abertamente o direito de protestar, estejam ou não de acordo com o discurso.” Denuncia ainda que “o nível de violência, islamofobia, desumanização e racismo contra os negros entre os manifestantes pró israelenses é horroroso e impactante, e a imprensa dominante não informa isso em absoluto”.

O Instituto Lemkin enfatiza a grave vulnerabilidade da sociedade estadunidense à atual “ameaça do fascismo institucionalizado”.Precisa que “as práticas fascistas já entraram em algumas instituições democráticas fundamentais, especialmente nas universidades, em forma de códigos de expressão e falta de proteção do devido processo para estudantes e professores”. Explica que “o declive das democracias e sua substituição por instituições e autoridades fascistas não ocorre com força: o fascismo chega antes por meio de uma lenta erosão das liberdades, da diversidade no discurso público e do compromisso com os valores democráticos”. Nesse sentido, insta o povo estadunidense a “lutar contra todos os ataques à liberdade de expressão e de reunião, começando pelo repúdio ao uso da força estatal para silenciar as vozes que se opõem ao genocídio, seja nos campus universitários ou nos ajuntamentos”.

É diferente a nacionalidade judia da nacionalidade israelense

É necessário ter presente a linguagem em relação ao conflito palestino-israelense, que reclama a devida teorização do conceito de terrorismo, e exige não confundir o conceito antissemita com o conceito antissionista que seus críticos esgrimem, assim como tenta-se confundir a noção de nacionalidade judia (uma invenção sionista puxada pelos cabelos) com a noção de nacionalidade israelense. Ao governo de Netanyahu só importa a nacionalidade judia, não a nacionalidade israelense; porque um cidadão israelense será sempre um cidadão de segunda, sem direitos, se não for judeu. O problema é que o mundo, inclusive o povo palestino, só reconhece a nacionalidade israelense, sob as regras e princípios do direito internacional, os mesmos que obrigam todos os Estados da comunidade das nações, sem exceção. A comunidade internacional respeita também a religião judaica, tanto como a muçulmana e a cristã, entre uma diversidade de cultos que admite o mundo moderno. Mas é diferente a religião judaica da nacionalidade judaica, que pretende ser uma excepcionalidade, com o mandato divino de pisotear o direito internacional, violar os direitos humanos, desconhecer a democracia e até cometer genocídio impunemente.

O apoio à Palestina exige resistência ao poder 

Hoje o mundo inteiro está horrorizado com o genocídio que consuma Israel na Faixa de Gaza. Nunca antes na história chegou-se tão longe na degradação humana. Israel rompe todos os limites de ultraje, humilhação e desprezo pela dignidade humana, cuja vítima há 75 anos é o povo palestino em termos de genocídio, apartheid e limpeza étnica. Já empalidece a Alemanha nazista frente à agressão sionista israelense. Netanyahu superou Hitler.

No entanto, ainda é insuficiente o apoio à Palestina, que veio dos povos e da maioria dos governos, com exceção dos Estados Unidos. Exemplo disso foi a aprovação em 10 de maio passado, por esmagadora maioria (143 países) na Assembleia Geral das Nações Unidas do ingresso do Estado da Palestina como membro pleno, diante do que os Estados Unidos anunciam que exercerá seu direito ao veto no Conselho de Segurança. É insuficiente porque o apoio a Israel provém do grande poder das potências ocidentais, em especial dos Estados Unidos, que se nega a reconhecer a perda de sua hegemonia mundial. Um poder que se nega a aceitar a nova realidade de um mundo multipolar, da liderança das potências emergentes e da perda cada vez maior de suas vantagens competitivas em cenários de comércio internacional globalizado. Tomar consciência do apoio à Palestina é tomar consciência da necessidade de fazer resistência ao grande poder que governa o mundo, a esse poder corrupto contrário por completo aos valores democráticos, ao direito internacional e ao mais elementar sentido de humanidade; e inclusive contrário às premissas da economia capitalista que exaltam a liberdade de mercado como reitor principal em um mundo globalizado, agora substituída por sanções e guerras. O jornalismo enfrenta um grande desafio hoje em defesa da verdade, que é a defesa da liberdade e da democracia, porque não se pode separar a informação da cultura. A resistência ao poder, diz Riszard Kapuscinski, é uma obrigação moral do jornalismo.

É decepcionante que se queira interpretar o genocídio perpetrado por Israel em termos eufemísticos, aludindo a uma suposta guerra religiosa, enfrentamento ideológico esquerda-direita, confronto oriente-ocidente, guerra de civilizações. Estas narrativas só contribuem para legitimar e justificar o horror do genocídio. A história ensina que o genocídio não é um ato único, e sim um processo, e os palestinos o sofrem desde 1948.

Segundo o intelectual Edward Said, “os palestinos foram transformados em órfãos de pátria há 75 anos, pela criação do Estado de Israel e suas políticas contínuas, que estão destinadas a apagar sua presença da terra”.

Epílogo: O teatro pré-eleitoral de Biden

Estamos fartos do teatro de Biden e Netanyahu próximos às eleições presidenciais. Em um acordo planejado e combinado, Biden envia a Israel, contra vento e maré, uma nova ajuda econômica e militar de 26 bilhões de dólares, e em seguida escreve a seu amigo “BIBI”: “Se Israel invadir Rafah não vou lhe enviar mais armas”.

Netanyahu, por sua vez, que já entrou em Rafah e tornará efetivo seu plano de limpeza étnica, por bem ou por mal, com a luva de seda do deslocamento forçado ou com o uso da força do extermínio de palestinos, lhe responde em chave de amantes: “se tivermos que ficar sozinhos, ficaremos”. É importante diferenciar o problema humanitário do problema político: a consolidação do grande Israel e o reconhecimento da nacionalidade judia como excepcionalidade por parte da comunidade internacional.

Entende-se que a mensagem não é para Biden, e sim para os universitários que não param de protestar contra o genocídio em Gaza, porque são parte do eleitorado jovem do partido democrata. Já são 160 universidades estadunidenses em pé de guerra. Significa: Israel continuará com os bombardeios, mas Biden não será responsável; não deixem de votar nele.

Biden poderá ufanar-se de ser uma velha raposa política, mas isso não o exime de sua responsabilidade pelo assassinato de quatorze mil crianças de Gaza, do genocídio, do apartheid e da limpeza étnica em Gaza, e dificilmente poderá reverter agora, quando o sol se põe, sua trabalhada sorte eleitoral, selada com sangue palestino.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.

Pedro León Vega Rodríguez Mestre em Economia pela Universidade Javeriana, na Colômbia, é autor das obras "Teoria Geral da Violência Política” (2017) e “Batalha pela Síntese Histórica” (2020).

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