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Foto: Lapo Pistelli / Flickr

Nils Castro | Socialistas por conta própria

Nenhuma tese de Marx foi desmentida e o socialismo continua sendo necessário, mas agora temos que assumir como o viveu Lenin quando, em meio de sua pátria oprimida chamou os socialistas a fazer a revolução, sem esperar que houvesse alguma União Soviética para ajudar.
Nils Castro
Diálogos do Sul Global
Cidade do Panamá

Tradução:

Beatriz Cannabrava

No início de 1992, perplexos pela súbita derrubada da URSS, no auditório da antiga embaixada soviética na Cidade do México, se reuniu um concorrido encontro não só das esquerdas locais, como também da pluralidade de socialistas e refugiados políticos latino-americanos, então numerosos. Encostados nas paredes, olhavam calados funcionários diplomáticos ex-soviéticos -das diferentes nacionalidades que logo se desagregariam-, que tampouco logravam explicar o que acontecia em Moscou.

As intervenções se sucediam, mas não articulavam um debate, mas sim uma litania de queixas pela inconsequência dos líderes soviéticos que, como a água suja atiravam ao esgoto a criatura do socialismo. Não nos precatávamos de que fazia tempo que nessa bacia já não tinha nenhuma criança. No debate prevalecia o desconcerto de uns e outros diante do abrupto vazio surgido com o desaparecimento da referencia que para a maioria das esquerdas tínhamos tomado em comum. Evaporado este, inclusive para poder criticá-lo, não poucos perdiam sua própria identidade.

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Nesse ambiente, intervi na contramão. “Isto tem que ser assumido como uma emancipação”, disse, “agora não nos resta outra que ser socialistas por nossa própria conta”, segundo nossas próprias condições e expectativas. E diante da reação séria de alguns, acrescentei: nenhuma tese de Karl Marx foi desmentida pelo que ocorre em Moscou, e o socialismo continua sendo necessário, Y não sem malícia acrescentei: “isto agora temos que assumir como o viveu Lenin quando, em meio de sua pátria oprimida e atrasada chamou a fazer a revolução, sem esperar que houvesse alguma União Soviética que viesse dizer como fazer, nem para ajudá-lo”. Seguiu um silêncio mal-humorado. Até que uns poucos pero fortes aplausos soaram ao fundo. Hoje já faz mais de 30 anos daquele episódio.

Eu já tinha sobrevivido do trauma da criança que soube que Papai Noel não existe. Em Cuba tinha vivido na intensidade dos anos 1960 e os primeiros dos 70, “a corrida para o vermelho”. Daí veio a ilusão de que a declaração socialista da Revolução, respaldada em seguida pela assistência técnica e econômica da URSS, aceleraria a luta contra o subdesenvolvimento dentro de nosso próprio modelo latino-caribenho, com o que para o ano 2000 seriamos já um país relativamente desenvolvido.

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Não conheci naqueles anos nenhum dos chamados “países socialistas”, talvez porque me tinha como herege. Essa oportunidade só a tive muito depois, em outra época, depois de meu retorno a Panamá. E foi como representante de um governo capitalista e de um partido entre nacional-revolucionário e socialdemocrata, que ao agravar-se a crise de suas relações com Estados Unidos buscou em Moscou uma mão amiga. Departamento de Relações Internacionais do PCUS, foi amável, os encontros com o governo eram concedidos com crescente resistência. Com isso ouve tempo para percorrer essa cidade e a bela Leningrado, em uma espécie de turismo político prolongado.

Esses passeios evidenciaram que -graças a minhas velhas aprendizagem cubanas- eu conhecia melhor as peripécias da revolução russa e da defesa soviética diante da invasão nazista do que meus cordiais anfitriões. Visitando o Museu do Exército Vermelho, ou o Grande Salão do Instituto Smolny, o guia acabou sendo eu comentando o que víamos, até evidenciar-se uma conclusão: em épocas anteriores a tarefa de atender visitantes seguramente fora exercida por quadros revolucionários, porém, agora era exercida por diligentes empregados públicos, mais preparados em entreter anfitriões que expor-se a explicar história e ideias revolucionárias.

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Por fim, a resposta oficial à proposta panamenha foi contundente: um ano antes Moscou se desvelava para conseguir que Panamá autorizasse sequer um consulado soviético. Porém, agora -chegada a hora brava- preferia ignorar nossa oferta de relações diplomáticas, comerciais e de colaboração. Como mais tarde, em uma outra viagem, o próprio Mijaíl Gorbatchov me diria -quando já tinha ocorrido a sangrenta invasão estadunidense-, que o equilíbrio global era um tema de alta sensibilidade em que a URSS tinha uma grande responsabilidade, e Panamá era um assunto demasiado marginal para arriscar. Porém, nesse momento o secretário geral do PCUS e sua perestroika cheiravam naufrágio.

Isso me levou a afirmar que, mais do que lamentar-se tocava ser socialistas por nossa própria conta, naquela manhã de 1992 no anfiteatro da ex-embaixada soviética, onde já tinham arriado a bandeira vermelha. E com isso de virar a página de quando ainda subsistia o paradigma do velho mastodonte entumecido desde os anos de Leonid Brejnev, que então já tinha se tornado cada dia menos solidário com Cuba.

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Se bem as decepções adquiridas em Moscou me tinham sido mais evidentes que o chamado ‘modelo soviético”, carecia de vitalidade para nossas aspirações de libertação nacional e transição a um eventual socialismo, para muitos de meus companheiros panamenhos, mexicanos e latino-caribenhos, a mansidão com que os comunistas soviéticos assumiram então a proscrição do PCUS e a diluição da URSS foi um acontecimento mais surpreendente e traumático.

Como há mais de dez anos comentou Roberto Regalado, “a Revolução de Outubro foi referência para todas as revoluções socialistas do século XX e da maioria dos partidos revolucionários que nesse século lutaram pelo poder”. Em Moscou, como consequência -acrescento eu- estavam os que tinham realizado com êxito a revolução e o socialismo e seus discípulos. Com Stalin, sua palavra era o Talmude. Nessa época -antes da Revolução cubana e das ondas insurgentes europeia e americana de 1968-, as controversas e rupturas dentro do movimento comunista mais vinham de questionar o que cada facção considerava “desvios” com relação aos apotegmas soviéticos pós leninistas, que o debate de nossas respectivas visões sobre a natureza do processo y o partido revolucionário apropriado às diferentes realidades e oportunidades nacionais, e seus correspondentes protagonistas sociais.

O modelo stalinista e a América Latina

O modelo de Estado e sociedade estereotipado por Stalin – como diz Regalado- se destinava a “aplicar-se” a cada país que assumisse a identidade socialista, com só fazer “adaptações” a cada entidade nacional, fosse lá tanto na Polônia como na China. Diante da crítica a seu mecanicismo -agrego- em sua defesa alegou que era esse e não outro o “socialismo real”, ou seja, o único que realmente existia. Implantado, de fato, nos países ocupados pelo exército soviético depois da derrota do nazismo e não como produto de seus respectivos processos nacionais, esse modelo em seguida quebrou na Iugoslávia e rechaçado na China -países onde a revolução ocorreu e era sustentada por suas próprias forças nacionais, com derivações intelectuais que em seguida foram satanizadas como heresias. 

Assim, para a maioria dos latino-americanos, a ruptura final com o paradigma soviético e o “socialismo real” viria desenvolver-se depois da crise terminal da URSS -como apontou Regalado, o que para muitos foi uma experiência traumática. Ao constatar este fiasco deixou claro que já não cabia pensar em “fazer reproduções da Revolução de Outubro em condições muito diferentes das da Rússia de 1917, mas sim de empregar de maneira criativa o método de Marx (,,,) para chegar a conclusões próprias”, sobre como alcançar revoluções, Estados e sociedades emancipadas e orientadas ao socialismo na América Latina e no Caribe do século XXI.

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Isto implica que “para isso, há que sepultar os vestígios do ‘marxismo oficial soviético’. Como nos tempos de Lenin, em vésperas de Outubro -quando não havia ‘marxismo soviético’-, agora corresponde pensar coisa nova, em outras realidades, expectativas, tempos e condições, sobre o que é socialismo e qual é o sujeito ou os sujeitos revolucionários com quem realizar. Isto é, com a participação de quais protagonistas sociais, e como se forma o bloco social revolucionário com tais sujeitos. De fato, esse é o tema básico de meu livro Las izquierdas lationoamericanas a la hora de crear, cujas primeiras edições foram publicadas em 2012.

O imperativo de repensar, redescobrir e recriar as opções revolucionarias desde outros e novos contextos, não é novo em Nossa América. No século XX se dedicaram o melhor de sua vida e pensamento José Carlos Mariátegui nos anos 1920, e quase meio século depois, Ernesto, o Che Guevara. Ambos tiveram no século XIX um fecundo precedente em José Martí. Deste último não só temos sua caracterização do sujeito revolucionário no conhecido verso “com os pobres da terra quero meu destino deixar”, mas uma definição ainda mais precisa -que além do substrato classista contem uma clara conotação nacional-libertadora- que diz: “Com os oprimidos tinha que fazer causa comum para afiançar o sistema oposto aos interesses e hábitos dos opressores” sim uma definição ainda mais precisa -que além do substrato classista contém uma clara conotação nacional libertadora que diz: há que fazer causa comum com os oprimidos para afiançar que o sistema oposto aos interesses e hábitos dos opressores”.

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Não obstante, sujeitos não só são os que realizam, mas aqueles a quem as ações dos revolucionários convocam e que ao calor dessas ações vão se tornando capazes de assumir seu sentido e, dado o caso, de sustentá-lo. Do mais notável discípulo de Martí, Fidel Castro, tivemos uma definição do sujeito social da Revolução em seu primeiro grande proclama, “La Historia me absolverá” -o programa do Moncada-: este sujeito é o povo cubano, descrito em termos não só latino-caribenhos e acertados, mas em que esse povo poderia sem dificuldade compreender e secundar:

Nos chamamos de povo se de lutar se trata, aos seiscentos mil cubanos que estão sem trabalho desejando ganhar-se o pão honradamente sem ter que emigrar de sua pátria em busca de sustento; aos quinhentos mil trabalhadores do campo que habitam nos barracos miseráveis, que trabalham quatro meses do ano e passam fome o resto, compartilhando com seus filhos a miséria, que não têm uma polegada de terra para semear e cuja existência deveria mover mais à compaixão se não houvesse tantos corações de pedra; aos quatrocentos mil operários industriais e os informais cujas aposentadorias, de todos, estão desfalcadas, cujas conquistas estão sendo anuladas, cujas vivendas são as infernais dos cortiços, cujos salários passam da mão do patrão para do agiota; aos cem mil pequenos agricultores que vivem e morrem trabalhando uma terra que não é sua; aos trinta mil professores e professores tão abnegados, não lhe diríamos: “Vamos te dar”, mas “Aqui tens, luta agora com toda tuas forças para que sejam tuas a liberdade e a felicidade.

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Esta definição do sujeito e de seu campo social tem muito pouco a ver com as geralmente utilizadas — e até santificadas — pelos marxismos europeus mais formais, e pelo marxismo soviético, as do proletariado trabalhador. Porém, diferente, sim, tinham funda raiz na experiência e linguagem da classe média e popular cubanas e, com isso, muito sentido atinado e eficaz. Embora não tenha a precisão de uma definição de manual, sim tinha o aval de 100 anos de luta e a prova vigorosa da vitória do Movimento 26 de Julho e do Exército Rebelde.

Por outro lado, “La historia me absolverá” fez muito mais: constituiu um chamado a enfrentar a ditadura sem contemplações e ofereceu um programa da Revolução, sem sequer mencionar o socialismo. Porque, como o próprio Fidel recontaria anos depois.

Fases distintas de uma revolução

A revolução tem distintas fases. Nosso programa de luta contra Batista não era um programa socialista nem podia ser um programa socialista realmente. Porque os objetivos imediatos de nossa luta não eram ainda, nem podiam ser, objetivos socialistas (porque estes) teriam ultrapassado o nível de consciência política da sociedade cubana naquela fase; teriam ultrapassado o nível das possibilidades de nosso povo naquela fase. Nosso programa no Moncada não era um programa socialista. Porém era o máximo programa social e revolucionário que naquele momento nosso povo podia aceder.

Quer dizer, em Moncada era o que agora chamaríamos de um programa democrático e progressista que, liderado por uma direção coerente, foi cumprido rapidamente. Com isso abriu caminho para aspirar metas de maior alcance, com base na adesão, organização e participação de um amplo diapasão abarcador do conglomerado de tal sujeito, até adquirir uma vocação socialista à cubana, proclamada posteriormente em véspera da batalha de Playa Girón. Para torná-lo factível havia sido decisivo que a institucionalidade que antes tinha sustentado a ditadura -seu exército e polícia, seus partidos e parlamento, a burocracia governante e a imprensa reacionária- desde os primeiros dias foi desmantelada pela vitória do Exército Rebelde e a rebelião anti Batista nas cidades.

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Nada disso figurava nos escritos do marxismo soviético e, portanto, incitava a desenvolver um socialismo e um marxismo latino-americano -das diferentes latitudes latino-americanas-, por nossa própria conta. Daí seu enorme impacto criativo, que nos anos 1960 motivou a milhares de jovens nas diversas paisagens e circunstâncias do continente e além. As Revoluções de 68 -em lugares tão diferentes como Chicago, Paris, México ou Praga- tiveram essa influência entre seus estímulos.

Não obstante, a Revolução Cubana, desde o início esteve sob crescente assédio estadunidense. Os moncadistas nunca tiveram contato prévio com nenhuma instância dos países chamados socialistas, nem tampouco sua concepção de como nem para que fazer a revolução teve antecedentes em nenhum daqueles países. Porém, sua anunciada determinação de eliminar os privilégios e injustiças socioeconômicas e morais usufrutuadas pelas elites, empresas, aproveitadores e interesses dominantes -inclusive os norte-americanos- de imediato fez disparar a escalada de sanções estadunidenses. O que, longe de amedrontar o povo cubano, o alentou a aprofundar em sua revolução o caráter de movimento libertador nacional, solidário com as causas anticolonialistas e, por fim, seu anti imperialismo.

Causa e efeito

O acercamento com a União Soviética e o bloco socialista não foi causa, mas sim consequência do assédio e ameaças estadunidenses. Para isso contribuiu, nesse momento, a oportuna interpretação daquela conjuntura pela liderança de Nikita Kruschev, como maneira de mostrar ao mundo que as revoluções anti-imperialistas no pátio traseiro estadunidense teria apoio soviético. Para a defesa militar e econômica da Revolução Cubana esse apoio foi providencial. Não obstante, as origens, o sentido e a evolução do processo cubano e de seu socialismo endógeno foram anteriores a seu primeiro contato com os soviéticos.

Não obstante, a longa colaboração com os funcionários e técnicos soviéticos -forçada, prolongada e aprofundada pela agressividade norte-americana- permeou a Revolução no plano doutrinário e nas práticas da administração governamental, na crença de que o modelo que a União Soviética então personificada era exitoso, por sua capacidade para resistir e enfrentar o imperialismo. Essa miragem, não obstante, deixou de se sustentar quando posteriormente tal modelo resultou ineficaz para resolver as crescentes demandas dos povos soviéticos e os crescentes custos da sua rivalidade com as grandes potências capitalistas.

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Assim os fatos, a agressividade estadunidense e a conseguinte influência soviética quebraram o projeto original da Revolução cubana, tanto no plano ideológico como pela profusa difusão do modelo soviético de interpretação do marxismo, como pela adoção de vários componentes do modelo soviético de administração do Estado. Durante alguns anos, em Cuba se pensou que a persistência das deficiências no desenvolvimento da economia e da sociedade se devia a insuficiências na aplicação daquele modelo. Porém, quando nos anos 1980, foi se evidenciando que o desenvolvimento da URSS apresentava crescentes dificuldades, para a liderança cubana ficou claro que a falta de maiores êxitos se devia às deficiências do próprio modelo, mais do que a maneira de adotá-lo.

Isolamento cubano e bloqueio econômico

Em 1989, Fidel Castro apelou a anunciar o processo de “retificação de erros e tendências negativas”, dirigido a identificar e corrigir equívocos e propor alternativas próprias, e desenvolver um caminho autóctone e mais eficiente para a Revolução Cubana. Se promoveu nos diferentes setores do país a discussão crítica e autocrática para a correção de deficiências e revisão de métodos, se implementaram mudanças para melhorar a gestão econômica e reduzir a dependência e, no plano ideológico, se questionaram os estereótipos antes difundidos.

Como sabemos, ao desmoronar-se a URSS e o chamado “campo socialista” do leste europeu, Cuba ficou isolada e perdeu abruptamente a esmagadora maior parte de suas fontes de abastecimento e seus mercados. Nessas circunstâncias, a política estadunidense endureceu  o bloqueio econômico. Na ilha foi necessário instrumentar o chamado Período Especial, que obrigou a adotar múltiplas formas de medidas de emergência para poder subsistir. Isso impediu continuar até suas últimas consequências o processo de retificação de erros até originar um novo modelo cubano.

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Passado o pior, no ano 2005, durante um debate com estudantes da Universidade de La Habana, Fidel vaticinou: “Uma conclusão a que cheguei depois de muitos anos entre os muito erros que cometemos todos, o mais importante erro era acreditar que alguém sabia de socialismo, ou que alguém sabia como construir o socialismo”. Isto implicava estudar e debater o tema em Cuba, entre os cubanos, para produzir conclusões próprias sobre o que entender por socialismo e modo de vida socialista e, a partir das realidades e as limitações cubanas, e como deveriam se conduzir e desenvolver as lideranças e a sociedade cubana.

Não obstante, nas condições de praça sitiada, isolamento e escassez material, essa discussão ainda não frutificou em Cuba, onde esta longa situação se sobrepôs a prioridade das decisões de ensaio e erro para a sobrevivência imediata. Não obstante, tal situação no longo prazo pode gerar um regime socialmente insustentável, pois, além de resistir ao bloqueio estadunidense, suportá-lo também exige expandir a produtividade tanto para satisfazer as necessidades diárias como as expectativas da população, assim como renovar a confiança, o ânimo e o apoio dos diversos setores sociais na liderança do país.

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Essa experiência, cujas alternativas ainda seguem sem elucidar, inevitavelmente incide sobre o que na América Latina atualmente se pode entender como o sentido, a factibilidade e a subsistência de qualquer projeto progressista ou tendente a qual socialismo.

O pensamento anticolonial de José Martí

Desde a difusão do pensamento anticolonial de José Martí e em particular depois da Revolução mexicana de 1910 a ampla convocação popular do nacionalismo revolucionário latino-americano fez grandes contribuições à desintegração do sistema colonial e neocolonial.

Porém, há longo tempo em nosso continente não se coloca uma próxima possibilidade efetiva de empreender uma revolução -no sentido clássico do conceito-. Mesmo assim, até há poucos anos o debate ideológico latino-americano continuou preso à disjuntiva entre reforma ou revolução, o que por sua vez leva a perguntar-se por que, em mediados do século passado, em Cuba um movimento democrático progressista, depois de vencer a ditadura se converteu em um de libertação nacional que em breve se viu transformado em uma Revolução com vocação socialista e de amplíssima repercussão continental.

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Isso aconteceu ao ocorrer duas condições:

  1. O Exército Rebelde camponês e a insurreição urbana, conduzidas por um conglomerado de jovens intelectuais de classe media, remataram o processo desmontando a institucionalidade que sustentava o sistema político anterior -o exército, a polícia, a “classe” política e jurídica e seus partidos, os maiores meios de comunicação e suas respectivas aureolas de autoridade- (situação que em seguida desatou ameaçadoras reações do imperialismo norte-americano);
  2. Em pleno momento da Guerra Fria, depois do desgelo pós-estalinista, a liderança de Nikita Kruschev  pensou ser oportuna a conjuntura para fazer ver que uma Revolução no pátio traseiro estadunidense teria o apoio soviético -causando grande expectativa mundial-, o que foi providencial para o povo cubano e seus líderes, que não tinham antes relação alguma com o campo do socialismo “real” nem suas filiais políticas transcontinentais (um atrevimento moscovita que, não obstante, em poucos anos minguaria).

Desde há muitas décadas semelhante conjunção de ambas as condições -o alinhamento de astros- não voltou a ocorrer. Isto fez menos factíveis outros projetos revolucionários, começando pelos alentados depois da Segunda Declaração de La Habana e suas generosas e heroicas realizações e seus mártires.

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Atualmente não há Revoluções em andamento nem revolucionários ocupados em prevê-las e organizá-las. Não estão dadas condições externas nem internas que possibilite empreendê-las com êxito. Não ocorrem agora nem se pode prever, nem no curto, nem no médio prazo. Assim são as coisas, as organizações da esquerda revolucionária (aquela que é ou a que diz sê-lo), não pode fazer agora a Revolução nem se ocupam em prepará-la.

Venezuela e o chavismo

Fica claro que desde que o chavismo assumiu o governo da Venezuela em 1999 aos dias de hoje, temos esquerdas que promovem e impulsam os movimentos que chamamos progressistas, os quais outra esquerda os critica e desqualifica arguindo que essa conduta não é nem será verdadeiramente revolucionária, pois não luta para substituir o capitalismo por um socialismo. Não obstante, tais críticos tampouco empreendem nem preparam uma Revolução.

Na prática -se bem seja o critério da verdade- o que caracteriza o panorama atual e o previsível em Nossa América são as possibilidades, alcances, potencial e falências do progressismo.

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Nem por isso hoje as transformações revolucionárias sejam menos necessárias. Os tempos neoliberais e pós-neoliberais são pródigos em desigualdades e pobreza, como em abusos e humilhações neocoloniais. Se, como observava Fidel, as causas objetivas -exploração e miséria — são por sua vez o fator motivador do desenvolvimento de causas subjetivas dos sentimentos e a consciência revolucionários, se evidencia que as esquerdas hoje não são menos, mas, sim, mais necessárias para o pensamento, a motivação política, o acionar e a produção da história latino-americana.

Porém, nestas circunstancias, se as pessoas, correntes e organizações das esquerdas chamadas revolucionárias, hoje não estão dedicadas a preparar nem em fazer uma Revolução, então, de que outra coisa se ocupam? Desde logo, de denunciar os abusos, iniquidades e injustiças consubstanciais ao capitalismo e ao sistema imperialista e neocolonial, e de lutar contra as mais dramáticas de suas manifestações concretas. E é a continuidade e reiteração de múltiplas formas de lutas concretas por móveis de justiça e solidariedade o que melhor propicia a formação de desenvolvimento político popular – a produção de contracultura popular-. No dizer do próprio Fidel, as vicissitudes e o desenvolvimento das experiências próprias de luta contra as vilanias do sistema geram mais consciência revolucionária que a prédica de manuais doutrinários.

Reformistas versus revolucionários

E nisto não diferem, posto que concorrem, aqueles que há pouco segregávamos e nos oponhamos como real ou supostamente reformistas versus revolucionários, dilema hipotético que até bem pouco servia para nos dividir em seitas, antes que para fortalecer as campanhas que devem ser comuns a todas as esquerdas.

Claro que, no plano político e ideológico, sempre haverá uns indivíduos, correntes e agrupamentos menos ou mais decididos, audazes e radicais -e com maior ou menor visão estratégica de longo prazo-. De fato, as autenticas esquerdas nunca serão exércitos uniformes (são os conservadores os que más tendem à uniformidade, enquanto a inovação e a exploração de alternativas é o próprio das esquerdas). Porém, isso não é óbice para detectar e desenvolver faixas e iniciativas de ação conjunta; a unidade se produz ao atuar juntos, ao cooperar.

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Nesse contexto, que consiste a médio prazo a diferenciação entre “revolucionários” e “reformistas”? Agora no médio prazo previsível, na sucessão das possibilidades progressistas e seus alcances efetivos, a prática eliminou barreiras e uns e outros podem e devem trabalhar juntos.

Uns aspirarão a que essas possibilidades tenham desenvolvimentos de maior alcance. Um progressismo com aspiração ou perspectiva socialista, e outro sem pensar nisso. A diferença estará no horizonte teórico de suas convicções: melhorar a vida do povo que existe agora, ou aspirar a cumprir com o suposto teórico de que em um momento haverá oportunidade de dar o eventual salto do sistema capitalista para um “socialista”, quando isso possa ocorrer com o amplo e forte apoio popular que o torna factível e sustentável.

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Porém, na luta real atual isso não tem porque nos separar. Na prática, o que temos são dois desafios. Por um lado, assumir a vasta experiência gerada logo do surgimento de Chávez e a onda progressista que o seguiu em várias latitudes deste Continente, com seu acumulado de altas e baixas, acertos e erros e potencialidades desaproveitadas, de movimentos e governos progressistas (melhor ou piores, sustentável e repetidos ou não, suscetíveis de se converter em algo superior ou não, ou de chegar a ser o prenúncio de algo maior ou não).

Por outro lado, na íntima relação com o anterior, a necessidade de avaliar a Nova Direita e ao Neofascismo caboclo como réplicas reacionárias e como antagonistas do progressismo. Ambas tarefas são imprescindíveis para encarar a disputa pelo controle e canalização das novas expressões da insatisfação e o descontentamento populares.

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Em outras palavras, temos a necessidade e o desafio de estudar e sistematizar as experiências dos progressismos desta metade primeira metade do século XXI e suas perspectivas. O que os põem em movimento? O que alcançam? Por que avançam ou se desmoronam? Que lições deixam? A necessidade de desenvolver o exame sistemático do tema já é imperiosa. Podem as experiências progressistas ser o caminho para preencher a brecha que capacita às massas populares para melhorar sua atual situação, e para abrir caminho desta realidade para outra ainda melhores?

Porque, parafraseando citação fidelista, este é, hoje, o máximo programa social e revolucionário que neste momento nossos povos podem alcançar.

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O que não implica desde já propor uma teoria dos progressismos latino-americanos, mas de legitimar a discussão do tema. Se trata da necessidade de colocar um campo de discussão do progressismo que permita atender o requerimento de propor uma teoria do progressismo latino-americano, e da necessidade de virar a folha da rota latino-americana para um socialismo por conta própria.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.

Nils Castro Fundador do Partido Democrático Revolucionário, fundado para dar prosseguimento ao torrijismo, ou seja, a obra de libertação nacional. Foi embaixador de Panamá no México e representou o governo em múltiplas oportunidades. É colaborador da Diálogos do Sul Global.

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