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Heroína sem capa, Stella Calloni enfrenta o Capitão América em uma batalha ideológica

Muitos arquivos desses longos e obscuros anos foram eliminados, mas foram resgatados em 2001, no livro "Operação Condor", pela jornalista investigativa Stella Calloni
Jorgelina Urra
Diálogos do Sul
Buenos Aires

Tradução:

Steve Rogers estava congelado em animação suspensa em algum laboratório de experimentação militar pertencente ao Governo dos Estados Unidos. E foi assim que Stan Lee e Jack Kirby, no final de 1961, começaram a criar o que é hoje o Universo Marvel, com a intenção de reanimar o soldado Rogers.

Algo que caracteriza essa etapa foi o agregado de realismo e coerência que correspondia a contextos geopolíticos reais. A ideia superava tudo o que se vira até então. O soldado, melhorado fisicamente por meio da ciência militar, honrará seu país em histórias bélicas em quadrinhos durante a Segunda Guerra Mundial.

Tratava-se do nobre patriota que condenava o nazismo e lutava contra os inimigos: naquele momento, as potências do Eixo. Em 1953 Stan Lee deu-lhe um subtítulo – “O esmaga comunistas” – e tentou inseri-lo no contexto da Guerra Fria, mas isso durou apenas um ano.

Durante os anos 60 teve a oportunidade de ressurgir na cena cultural como o rosto visível dos Estados Unidos intervencionistaCapitão América é a cara da estratégia militar denominada Plano Condor, idealizada e diagramada pelos Estados Unidos na Escola das Américas.

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Descongelado por seus governantes e posto em cena por Marvel Comics, prefigurou, a partir do simbólico, um patriotismo exacerbado, que à vista dos mortais era o ideal do homem americano, o defensor da cultura ocidental, aquele que com seu escudo protetor derrotaria o subversivo.

Herói “fictício”, pero no mucho

O Capitão América, super herói fictício de Marvel Comics, usa uma roupa colada ao corpo com o motivo da bandeira estadunidense, uma estrela branca no meio do robusto peito como insígnia e empunha no braço esquerdo um escudo praticamente indestrutível, tendo a capacidade de deslocar-se com a velocidade de um projétil quando se lança com fúria justiceira.

Nesse novo despertar apresentaram-nos um “herói” que ficou no tempo, um personagem que buscava constantemente representar uma identidade em um mundo em processo de mudança social.

Essa identidade que o Capitão América, aliás “A Sentinela da Liberdade” defendia, era o sistema econômico, político, social e cultural estadunidense, que buscava implantar-se como hegemonia mundial no contexto da Guerra Fria.

Sobre a luta contra o imperialismo
Lembrar de Fidel em toda sua magnitude é resistir e lutar contra o imperialismo

Depois do triunfo da Revolução Cubana, a dificuldade do imperialismo ianque eram os subversivos, os revolucionários, que em alguns países da América Latina vinham gerando focos de resistência mediante processos de organização e luta ativa.

Muitos arquivos desses longos e obscuros anos foram eliminados, mas foram resgatados em 2001, no livro "Operação Condor", pela jornalista investigativa Stella Calloni

Revista Trinchera
Stella Calloni revelou ao mundo as arbitrariedades cometidas pela Operação Condor na América Latina

Pedagogia do Terror e os “Guardiões da América

A tática idealizada pelo império para consolidar seu domínio econômico, político e cultural foi a pedagogia do terror. Não era só um modelo econômico de caráter expansionista: a estratégia pretendeu influir em todos os âmbitos de interação social, e em termos culturais, o paradigma era ainda mais influente.

Durante a Segunda Guerra o Capitão América fora um pilar fundamental de incentivo, de moral e ética que manteve as expectativas de triunfo em grande parte da população. Mas ainda que se trate de uma simples animação, não significa que não contenha uma ideologia política dirigida, a partir do poder físico, à moral, aos valores, à ética e à estética

Todos aqueles símbolos unificados em um só homem nos mostravam o ícone de um país, e o forte compromisso deste com o “bem estar” das nações do mundo. Em praticamente todo o universo cinematográfico – as sagas de filmes, os comics etc – os Estados Unidos apresentam-se como o Guardião da América.

Plano Condor e os inimigos dos revolucionários

A missão para A Sentinela da Liberdade foi executar com êxito, no imaginário social e cultural, o Plano Condor. Os inimigos eram os revolucionários do fim do mundo.

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Enquanto os escritores devolviam a vida a este personagem, os Estados Unidos preparavam a equipe e o armamento militar que foi utilizado para a repressão, perseguição, tortura e desaparecimento de opositores políticos chaves nos diferentes países do cone sul: Argentina, Chile, Uruguai, Paraguai, Brasil e Bolívia, com o apoio de uma retaguarda composta por Peru, Equador, Colômbia e Venezuela, uma equipe de investigação com espiões da CIA operando em todos os territórios, e o fiel e servil apoio das ditaduras latino-americanas encabeçadas por Videla, Pinochet, Bordaberry, Stroessner, e os demais rostos do terror.

Arquivos do Terror

Muitos arquivos desses longos e obscuros anos foram eliminados, incendiados, desaparecidos pelos principais responsáveis e cúmplices das ditaduras, tanto durante como depois do processo.

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 histórias que ainda não foram lidas; avós, mães, filhos e filhas, netos e netas que ainda não se conhecem; há dor e morte, há responsáveis que sentem o prazer de estar vivos e se escondem atrás de um pacto de silêncioprocessados.

Mas como em toda história de heróis e vilões, há alguém que, adiantando-se à jogada e como boa estrategista, conseguiu guardar informação e arquivá-la, procurar provas e denunciar.

Nossa heroína foi e é Stella Calloni.

Stella, uma mulher de voz clara, tranquila, tem na pele histórias de luta e reivindicação. As palavras que saem de sua boca não se encontram em muitas das páginas de nossa história, a que conhecemos ou que recuperamos, e seria preciso reconsiderar a importância de incluir nos manuais e livros de história as muitas páginas que faltam e que estão em sua memória.

Saiba+
Stella Calloni, cronista de nosso tempo

Tem um olhar penetrante, translúcido e conserva um brilho particular apesar das muitas batalhas que enfrentou, algumas como correspondente de guerra na América Central.

É jornalista e escritora especializada em política internacional, e suas investigações foram a base fundamental no processamento e castigo das juntas militares das ditaduras latino-americanas e dos processos políticos relacionados a elas.

Stella Calloni é um símbolo de luta, de lucidez política, que mantém viva a esperança de encontrar o caminho para uma segunda e definitiva independência dos povos”.

Uma heroína de carne e osso que veste a bandeira dos despossuídos; seu poder é a palavra que mostra o inimigo, o analisa e discute sem descanso. Por isso foi perseguida, e tendo se exilado entre o México e o Panamá, não deixou de lutar, não deixou de escrever e, sobretudo, não deixou de pensar.

“Operação Condor”: Um livro de denúncias

Em 2001 apresentou seu livro Operação Condor, pacto criminoso onde denuncia os crimes cometidos pelos Estados Unidos contra os povos da América Latina. Nas palavras de Fidel Castro: “é a denúncia mais objetiva e detalhadamente documentada que li até hoje, insuperável em seu estilo e eloquência”.

Além de uma longa lista de pessoas que foram assassinadas dentro e fora de seus países, o livro detalha entre outras coisas a conspiração realizada pelas ditaduras da Argentina e do Chile para desaparecer com militantes.

Menciona cada um dos autores e partícipes responsáveis por estes crimes e o plano de recolonização levado a cabo pelo império.

Documentário

Há uma semana estreou em CineAr, a plataforma de conteúdos audiovisuais da Nação, o documentário “Operação Condor”, dirigido por Andrea Bello e Emiliano Serra, com roteiro de Stella Calloni.

O filme narra da ótica de familiares e vítimas do terrorismo de Estado as diferentes e dolorosas histórias de dirigentes e militantes políticos de Nossa América, a clandestinidade e os esforços por obter algum tipo de resposta por parte das autoridades.

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Por meio de um árduo trabalho de investigação, põe a descoberto detalhes encontrados, como os chamados arquivos do terror (Paraguai 1992), sobre troca e transferência de presos políticos, a espionagem monitorada pela CIA e as atividades de controle civil. Cada documento encontrado, cada história narrada serviu para indicar os juízes, militares, procuradores e até cônsules envolvidos.

O documentário reconstrói as frias cenas de um dos momentos mais duros de nossa história por meio de testemunhos de familiares, amigos, filhos recuperados, e militantes.

Dá conta da guerra psicológica estabelecida pela cumplicidade de publicistas e meios de comunicação, assim como também da capacidade de resistência de um povo organizado, disposto a dar a vida pela causa.

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Da Revista Trincheira nós os convidamos a ver este incrível material e a refletir sobre o paradigma ideológico em que ainda estamos imersos. Hoje em Nossa América continuam existindo vestígios ideológicos que se potencializam cada vez mais, que atravessam nossa cultura e nos levam a naturalizar os abusos de poder.

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Devemos travar uma batalha ideológica no contexto de uma guerra imperialista, que à luz dos acontecimentos recentes, mostra seus flancos débeis e deixa claro quem são os heróis e quem são os vilões.

Jorgelina Urra, para a Revista Trincheira

Tradução: Ana Corbisier


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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